Investigadores afastados na esteira do caso Vinícius Gritzbach, assassinado em novembro em 2024, são suspeitos de prestar “serviços” a policiais que enfrentavam problemas internos e, ao mesmo tempo, de manter interlocução com integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC).
As suspeitas recaem sobre Tania Aparecida Nastri e Carlos Huerta, afastados, quinta-feira (12/02), após a análise de mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF), no âmbito da Operação Face Off, deflagrada em maio do ano passado. A defesa de ambos não foi localizada. O espaço segue aberto para manifestações.
Gritzbach foi fuzilado logo após desembarcar de um voo, no Aeroporto Internacional de São Paulo, na região metropolitana, dias após delatar a relação de membros da Polícia Civil paulista com a maior facção criminosa do país.
De acordo com a apuração da PF, obtida pelo Metrópoles, Tania Nastri e Carlos Huerta teriam se tornado referência para agentes “em apuros”. Policiais que enfrentavam procedimentos administrativos ou dificuldades em investigações recorriam à dupla em busca de orientação ou interferência.
A suspeita é de que utilizassem acesso a informações e influência institucional — real ou vendida como tal — para pressionar, consultar ou antecipar movimentações internas.
Uma fonte que acompanha o caso afirmou à reportagem, em sigilo, existirem indícios de que a investigadora atuava como intermediária para “resolver problemas”, inclusive oferecendo soluções que poderiam ocorrer naturalmente, mas eram apresentadas como fruto de articulação pessoal. O papel atribuído a Carlos Huerta aparece como auxiliar, nessa dinâmica, com participação considerada relevante na estrutura.
Mensagens citam Tania
As suspeitas ganharam corpo após a PF analisar os celulares apreendidos dos policiais civis Valdenir de Paulo Almeida, o Xixo, e Valmir Pinheiro, o Bolsonaro, presos desde setembro de 2024. Ambos são acusados de receber propina para arquivar investigações sobre tráfico de drogas.
Em uma das conversas, Xixo afirma que “já ligaram pra Tania”. O interlocutor responde: “Pior ela conhece eles tbm”, seguido do alerta: “Cuidado pra não tomar uma dedada, esses putos podem ir direto nela”. Xixo conclui: “Ela já sabe”. As mensagens seriam referentes a suposta possibilidade de recebimento de propina.
O relatório policial registra que o teor das mensagens “leva a crer que Tania, possivelmente Tania Aparecida Nastri, investigadora de polícia que mantém contato de proximidade com Xixo”, teria conhecimento sobre membros do crime organizado supostamente envolvidos com os agentes.
Foto de membro do PCC assassinado
Em 4 de maio de 2023, segundo interceptação da PF, Xixo encaminhou a foto do corpo de Rafael Maeda Pires, o Japa, integrante da liderança do PCC, morto horas antes de prestar depoimento. A imagem foi enviada para quatro pessoas, entre elas uma cujo contato estava salvo como Tania.
O relatório também ressalta o vínculo dela com Fábio Baena, delegado cujo contato também teria recebido a foto de Japa morto. Ele e o chefe de investigações Eduardo Monteiro foram presos suspeitos de envolvimento com o PCC e a morte de Gritzbach.
Em outro trecho, o documento da PF menciona que Tania e Baena teriam ido a uma mesma localização, reforçando o vínculo dela com outros investigados no caso envolvendo a morte do delator do PCC.
Afastamento e suspeita de favorecimento ao crime
Ao se deparar com a troca de mensagens levantadas por meio da Operação Face Off, a PF compartilhou o material com o Ministério Público de São Paulo (MPSP) e a Corregedoria da Polícia Civil, que aprofundou as diligências. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão e impostas medidas cautelares, como o afastamento de Tânia Nastri e Carlos Huerta das funções.
Até esta segunda-feira (16/02), tornozeleiras eletrônicas seriam instaladas em ambos. Como revelado pelo Metrópoles,a medida é inédita na história da Polícia Civil paulista.
Além da suspeita de prestar “serviços” a colegas em dificuldades, os dois passaram a ser investigados por possível favorecimento a integrantes do crime organizado. O relatório não aponta condenação nem descreve crime consumado, mas destaca a repetição do nome de Tania nas conversas e o recebimento de conteúdo sensível relacionado ao PCC.
É esse conjunto de mensagens — obtidas a partir dos celulares de Xixo e Bolsonaro — que sustenta o afastamento dos investigadores e mantém a apuração em andamento.