Revitalizar o Rio Acre precisa ser uma política de Estado, diz José Américo em artigo

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As recorrentes e cada vez mais intensas cheias do Rio Acre deixaram de ser um evento excepcional para se tornar um problema estrutural. A cada novo inverno amazônico, cresce a apreensão da população, especialmente em Rio Branco, diante da possibilidade de transbordamentos que atingem bairros inteiros, desabrigam famílias, interrompem serviços públicos e impõem elevados custos sociais e financeiros. As previsões de chuvas intensas para 2026 reforçam um alerta inadiável: se nada for feito de forma estruturante, as enchentes tendem a se tornar mais frequentes, mais rápidas e mais destrutivas.

Rio Acre/Foto: Reprodução

É preciso reconhecer que o atendimento emergencial às populações atingidas é fundamental e indispensável. Ações como abrigamento, assistência social, atendimento em saúde e garantia de alimentação salvam vidas e reduzem o sofrimento imediato. No entanto, por mais necessárias que sejam, essas medidas não podem continuar sendo a única resposta do Estado. Tratar enchentes apenas como emergências recorrentes é aceitar a repetição da tragédia e institucionalizar o improviso.

O cenário atual não é fruto apenas das chuvas intensas. Ele é consequência direta de décadas de descaso com o Rio Acre. Ao longo do processo de ocupação do território, o rio foi transformado em receptor de esgoto sanitário, resíduos industriais e múltiplas agressões ambientais. Soma-se a isso a destruição das matas ciliares, vegetação essencial que protege as margens de rios, igarapés e mananciais, garantindo estabilidade ao solo e equilíbrio ao curso d’água.

A degradação das matas ciliares acelerou um dos principais fatores de agravamento das enchentes: o assoreamento do leito do rio. Sem a proteção vegetal, o solo das margens é facilmente erodido e depositado no fundo do rio, tornando-o cada vez mais raso e reduzindo sua capacidade de vazão. Assim, volumes de água que antes seriam absorvidos pelo próprio curso passam a transbordar com rapidez, causando alagamentos severos e sucessivos.

Diante dessa realidade, a revitalização do Rio Acre precisa ser assumida como uma política de Estado, permanente e contínua, que vá além de gestões e calendários eleitorais. Revitalizar o rio significa recuperar as matas ciliares, despoluir suas águas, ampliar e modernizar o tratamento de esgoto, controlar rigorosamente o lançamento de resíduos e ordenar de forma responsável o uso do solo em toda a bacia hidrográfica.

Uma política consistente de revitalização não elimina as cheias, mas reduz drasticamente seus impactos. Permite uma convivência mais segura com as elevações do nível do rio, diminui prejuízos materiais, protege vidas e fortalece a resiliência urbana frente às mudanças climáticas. Também promove ganhos ambientais, sociais e econômicos, beneficiando populações ribeirinhas, a cidade e o estado como um todo.

O Rio Acre não pode continuar sendo tratado apenas como um problema, seja na seca ou nas enchentes. Ele precisa ser visto como um patrimônio ambiental e social estratégico. Socorrer é necessário. Prevenir é urgente. E revitalizar o rio é o único caminho capaz de romper o ciclo de perdas, sofrimento e reconstrução que se repete ano após ano. Transformar essa agenda em compromisso permanente é uma escolha política que definirá o futuro do Acre.

*Zé Américo Silva é jornalista e consultor de Marketing Político

 

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