
A captura de Nicolás Maduro após a ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela levantou questionamentos sobre como se deu a queda do regime. Para o professor de Relações Internacionais da ESPM Leonardo Trevisan, o episódio não pode ser analisado apenas a partir da ação militar americana, mas também à luz da dinâmica interna do poder venezuelano e do papel das Forças Armadas no desfecho.
Segundo ele, há a hipótese de que setores das Forças Armadas venezuelanas, sob pressão do governo Donald Trump, tenham optado por negociar a entrega do presidente como forma de preservar interesses internos. Na avaliação de Trevisan, o presidente dos Estados Unidos buscava apresentar um resultado político concreto a seus apoiadores, em um contexto de desgaste doméstico e de sinalizações à indústria petrolífera, que teve papel relevante em sua eleição.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
Traição?
Na avaliação de Trevisan, a ofensiva ordenada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, criou um ambiente de pressão extrema sobre o regime venezuelano. Esse contexto teria acelerado decisões internas que já vinham sendo maturadas, sobretudo entre setores militares que precisavam avaliar o custo de seguir sustentando Maduro no poder.
“Maduro pode não ter sido preso, mas entregue. Tenho uma sensação de que, pressionados pelo Trump, que precisava de algum troféu, os militares entregaram o que não deles.”
Um presidente sem vínculo orgânico com a caserna
O professor cita que a relação entre Maduro e os militares sempre foi distinta daquela estabelecida por Hugo Chávez. Enquanto o ex-presidente tinha origem e trânsito na caserna, Maduro, um ex-motorista de ônibus e líder sindical do metrô de Caracas, nunca foi percebido como parte desse universo, o que fragilizou sua posição.
“Após a morte de Chávez, os militares tiveram que se adaptar a uma figura que não era do mundo deles.”
Militares como eixo do poder econômico
Trevisan destaca que, na Venezuela, o poder militar não se limita à esfera da segurança. A presença da caserna em áreas estratégicas da economia tornou qualquer transição dependente de sua anuência, o que ajuda a explicar por que uma ruptura violenta ou caótica foi evitada.
“Os militares participam diretamente da vida econômica da Venezuela. Não há como removê-los do poder. Foi por isso que Maria Corina Machado não teve sucesso: ela não se sentou com eles.”

O peso do petróleo no tabuleiro geopolítico
Segundo o professor, a centralidade do petróleo torna a Venezuela um alvo estrutural no cenário geopolítico. Para Trevisan, ignorar esse fator é perder a chave explicativa da ofensiva americana e da velocidade com que o regime ruiu. O país detém a maior reserva petrolífera do planeta, estimada em quase 300 bilhões de barris.
“ Trump tinha dívidas eleitorais a pagar com a indústria petrolífera que ajudou a elegê-lo. Ele pagou todas elas com as big techs, mas ainda faltava com o mundo petrolífero”
Trump, popularidade e a lógica do “troféu”
Trevisan também insere a ofensiva no contexto doméstico americano. Para ele, Trump enfrentava queda de popularidade e precisava apresentar resultados concretos a suas bases eleitorais, especialmente a setores estratégicos da economia, como a indústria petrolífera, que ajudou a elegê-lo.
“O petróleo se tornou uma necessidade midiática de Trump. Ele precisava de algo para acalmar a sua base. A Venezuela estava disponível. Era fácil arrumar um troféu.”
Os limites de uma ocupação direta
Apesar do sucesso inicial da operação, o professor avalia que os Estados Unidos enfrentariam sérios obstáculos caso optassem por administrar diretamente a Venezuela. Experiências recentes mostram que intervenções desse tipo tendem a produzir instabilidade prolongada.
“É imprudente o Trump dizer que vai administrar a Venezuela, um país com mais de 29 milhões de habitantes. Temos experiências malsucedidas no Iraque, Líbia e Afeganistão.”
Um cenário aberto de instabilidade regional
Por fim, Trevisan afirma que a saída de Maduro não representa o encerramento da crise venezuelana nem a estabilização automática da região. Para ele, o episódio pode marcar apenas o início de um novo ciclo de disputas e tensões geopolíticas.
“Temo que estejamos assistindo apenas ao início do jogo.”
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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