"Vou morrer, Deus": mulher confundida com ladra foi baleada já no chão. Veja vídeo

Foto: Luis Nova/Especial Metrópoles (@LuisGustavoNova)
Imagem de Cléia Maria da Silva, mulher confundida com assaltante em roubo a padaria em Samambaia (DF), em 4 de janeiro de 2026

 

Veja a cronologia dos fatos


“Vou morrer, Deus, e agora?!”

A revogação da prisão e a correção do erro policial não repararam por completo os danos causados na vida de Cléia da Silva e Thiago Soares. Abalado e ainda em recuperação dos tiros que levou no braço direito, Thiago informou aos seus advogados que, por enquanto, prefere não dar entrevistas. Já Cléia aceitou relatar ao Metrópoles as impressões daquela noite de 4 de janeiro e do tormento vivido até hoje.

Como mencionado anteriormente, Cléia e Thiago são amigos de longa data, mas não se viam há muito tempo. “A gente se conhece há mais de 20 anos e, por coincidência, fui a uma festa em Ceilândia no domingo, dia 4, e encontrei com ele lá. É um ficante, um namoradinho”, comenta a mulher.

“A gente se reencontrou, e aí foi aquela felicidade de ter visto um ao outro, né?! Pensamos: ‘Vamos sair, vamos curtir juntos, conversar,  trocar uma ideia, dar uma paquerada’…”, contextualiza Cléia.

O casal, então, saiu de Ceilândia rumo a Samambaia. “Paramos [na esquina da padaria Fornalha] para pegar uma informação, e aí eu estou  até agora sem entender o que aconteceu. Do nada, eu levei o primeiro tiro nas costas”, relembra.

“Eu estava de capacete, não estava com nada na mão… e quando eu caí no chão, ainda levei mais dois tiros.Fiquei sem entender o que aconteceu. Não ofereci resistência. Quando eu vi, já estava caída e ensanguentada.”

A vítima confirma que pediu a informação ao militar que atirou nela instantes depois. “Só sei que eu pedi uma informação e, de repente, já estava no chão”.

“Não morreu porque Deus não permitiu”

Cléia foi atingida no glúteo e nas costas — esse último tiro atravessou órgãos e saiu pela axila. Segundo a vendedora, uma das balas ainda está alojada no reto.

“Eu tive hemorragia interna, precisei tomar duas bolsas de sangue, estou com bolsa de colostomia… a minha vida mudou totalmente”, lamenta. “Eu não durmo, eu não quero sair na rua por conta trauma. Por que que aconteceu aquilo comigo?! Não entendo.”

“Eu vivo com medo, chorando… Semana passada eu voltei ao médico, e ele disse: ‘Cléia, você só não morreu porque Deus não permitiu’.”

A mulher, que trabalhava como vendedora autônoma antes de ter a vida revirada, não entende por que foi confundida como assaltante por tantas autoridades envolvidas em diferentes momentos. “A gente foi tratado como bandido. Meus filhos ficaram sem saber o que aconteceu, porque eu fui tachada de bandida, de ‘peba’. Isso chocou minha família”, relata.

Cléia é mãe de de três filhos, de 18, 13 e 9 anos. “A mãe deles foi baleada sem ter feito nada. Tenho que dar uma explicação para todos eles”.

Leito de morte e cadeia

A vendedora resume toda a situação vivida em uma frase: “Leito de morte e cadeia”. Cléia nunca havia experienciado o encarceramento e, de repente, após passar dias internada no Hospital de Base se recuperando de uma cirurgia, teve que enfrentar a Penitenciária Feminina do DF (PFDF), a Colmeia.

“Quando eu desci da sala de cirurgia, já colocaram algema na minha mão e me levaram a uma cela, ainda no Hospital de Base. Dois dias depois, me entregaram um uniforme de carcerária e me disseram que eu desceria para a Colmeia. Como assim?!”, questionou-se à época.

Cléia não consegue compreender por que os militares da reserva pensaram que ela e Thiago fossem assaltantes. “Qual foi o motivo que eles fizeram isso? Não sei. É isso que eu estou me perguntando e fazendo a mesma pergunta para eles [os militares que tentaram impedir o assalto]”.

“Eu não merecia isso. Eu quero viver… eu quase morri. E agora, como é que vai ser daqui para frente? Eu não estou pensando em indenização, estou preocupada com a minha saúde. Eu preciso viver”, encerra.

“Indícios fortes de crimes”, diz advogado

Cléia Maria é assistida pelos advogados Amália Correia e Issa Victor W. Nana. A defesa, no momento, aguarda novas ações a serem tomadas por parte da Polícia Civil e do Ministério Público (MPDFT) sobre o caso no sentido de responsabilizar os militares que atiraram nas vítimas.

“Até o presente momento, as únicas denúncias são contra o autor do assalto [Paulo Henrique de Almeida]. Não se deu sequência à outra ação, referente aos tiros que foram disparados contra nossa cliente e o namorado dela”, explica Issa Victor Nana.

O advogado assegura que, caso o processo seja arquivado, buscará reabertura. “Havendo o arquivamento, nós vamos entrar no circuito, até porque há indícios fortes de crimes aqui e isso precisa ser investigado”, declara. “Entendemos que há, sim, no âmbito cível e criminal, uma responsabilização grande que há de ser apurada”, conclui.

Outro lado

O Metrópoles tenta localizar as defesas de Zedequias Augusto Nunes, 56, suboficial da reserva da Marinha do Brasil, e Haroldo Noleto, 52, primeiro-sargento da reserva do Corpo de Bombeiros Militar do DF (CBMDF). A reportagem também tentou contato direto com os envolvidos, sem sucesso. O espaço está aberto para manifestações.

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *