
“Quando eu vi minha filha nascendo, ela nasceu com vida, respirando. Aí, só me mostraram ela com vida, tiraram ela da sala e desde então, nunca mais vi minha filha”. O relato é da auxiliar administrativa Alyne Pereira (foto em destaque), 32 anos, que após a revelação de mortes em série na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Anchieta, em Taguatinga (DF) decidiu denunciar o desaparecimento do corpo da filha recém-nascida por quase três meses após o parto realizado na mesma unidade de saúde.
Assista à entrevista:
Em entrevista ao Metrópoles, Alyne afirmou que decidiu tornar o caso público para evitar que outras mães passem pela mesma situação. “Eu entrei em depressão por conta de tudo isso que eu passei e vi agora uma série de erros que eles estão cometendo. E falei para mim mesma, eu vou falar a todos o que aconteceu comigo para nenhuma mãe passar pelo que eu passei dentro daquele hospital e alertar todas as mães”, disse.
A bebê, Alice Maria, nasceu em 12 de maio de 2023, com apenas seis meses de gestação. Segundo a declaração de óbito, a morte ocorreu às 4h07 do mesmo dia. Alyne afirma, no entanto, que viu a filha respirar logo após o parto, mas foi informada por uma enfermeira de que a criança teria nascido sem vida.
A mãe questionou sobre a liberação do corpo para sepultamento, mas o pedido foi negado. Segundo ela, a família também não recebeu orientações nem pôde acompanhar os profissionais que levaram a bebê para outra sala. “Ninguém falou nada. Minha mãe até perguntou se poderia enterrar a neném, mas falaram que não poderia”, disse.
Alyne havia dado entrada no Hospital Anchieta em 26 de abril de 2023 após apresentar um sangramento durante a gestação. A partir disso, segundo ela, a gravidez passou a ser considerada de risco pela equipe médica.
Durante o período de internação, Alyne diz ter pedido diversas vezes que fosse realizada uma cesárea, mas o médico responsável teria se recusado. “Eu pedi para o médico fazer uma cesárea em mim e ele falava que não, que era para deixar nascer pela lei da natureza”, disse.
Beco sem saída
Após deixar a UTI, onde permaneceu devido a uma infecção pós-parto por dois dias depois do nascimento, Alyne voltou a pedir informações sobre o corpo da filha e foi comunicada de que ele não havia sido encontrado no hospital.
Durante todo o período de internação, a família afirma não ter recebido esclarecimentos sobre o paradeiro do corpo da bebê. Dias depois, ao receber alta, retornou ao hospital para solicitar a certidão de óbito, mas o documento foi negado.
“Aí foi a luta, que depois que eu saí da UTI, fui atrás. Cadê o corpo dela? Ninguém sabia me explicar onde é que estava o corpo. Quando eu fui lá, ninguém sabia. Falaram que era um erro administrativo, sendo que tinham meu contato, da minha mãe, do pai da neném”, afirmou.
Quase três meses depois, Alyne foi chamada para uma reunião com a direção do hospital, quando foi informada de que o corpo da bebê havia sido localizado. Segundo ela, o corpo estava em um “saco plástico com formol”.
O hospital teria dito que havia acontecido uma “confusão administrativa”, e, apenas depois dessa reunião, o corpo foi encaminhado ao Instituto de Medicina Legal (IML).
De acordo com o laudo do IML, o corpo chegou ao instituto “acondicionado em saco plástico com líquido transparente com odor típico de formol”. Na conclusão da causa da morte, apontaram “morte de causa a esclarecer”.
O IML solicitou ainda exame de DNA para confirmação da maternidade. O resultado foi divulgado apenas em 1º de fevereiro de 2024, nove meses após o parto, e indicou compatibilidade genética de 99,99% entre Alyne, o pai e a bebê.
Mesmo após a confirmação do exame de DNA, a família precisou acionar novamente a Justiça para obter a liberação do corpo. O enterro só foi realizado em maio de 2024, exatamente um ano após o nascimento.
Alyne afirma que todo o processo foi extremamente doloroso e que desenvolveu depressão em decorrência do caso. Ela relata que não poder decidir sobre a forma como teria a própria filha foi um dos pontos mais traumáticos da experiência.
“Desde aquele dia, que ele [médico] falou para deixar nascer pela lei da natureza, aquilo me machucou bastante, porque ela já ia nascer prematura, então ela forçou para nascer”, contou.
“O que mais me dói é que eu a vi respirando e logo em seguida o corpo sumiu. Eu fiquei imaginando várias coisas. Será que realmente morreu? Está viva? O que aconteceu com ela? E por que logo em seguida não me entregaram o corpinho dela?”, disse.
Tentativa de conciliação
O caso é acompanhado pelas advogadas Lays Lopes e Maria Fernanda desde agosto de 2024. Segundo Lays, após Alyne se sentir confortável para falar sobre o assunto, foi ajuizada a ação judicial e houve tentativa de conciliação.
“O Hospital Anchieta não apresentou nenhuma proposta de acordo e foi marcada a instrução para esse ano. Então nós já estamos aí com pelo menos quase dois anos do processo ocorrendo, mas ainda sem uma expectativa de fato de que ele seja resolvido”, afirmou.
De acordo com a defesa, o inquérito policial havia sido arquivado e foi solicitada a reabertura junto ao Ministério Público.
“Temos boas provas, temos testemunhas, então não há sentido algum ter um inquérito desse arquivado. Precisa haver uma investigação para a gente poder entender e trazer uma resposta para a Alyne do que de fato aconteceu com a filha dela”, destacou Maria Fernanda.
A expectativa é que a audiência marcada para abril, quando médicos e enfermeiros envolvidos serão ouvidos, traga novos esclarecimentos.
“A audiência está marcada para abril, e os médicos que participaram, os ginecologistas, obstetras que participaram do momento, vão ser ouvidos ali no momento da audiência. Nós questionaremos e acredito que muitas respostas virão depois dessa audiência de instrução”, declarou.
A reportagem entrou em contato com o Hospital Anchieta, que informou que não irá se pronunciar sobre o caso.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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