
O promotor Bruno Grecco Cardoso, da 6ª Promotoria de Justiça de Itaquaquecetuba, afirma que a versão dos policiais militares da Rota que mataram Carlos Alves Vieira, em 28 de novembro, está “em xeque”, diante de informações de que ele era “um cidadão sem antecedentes criminais” e “sem qualquer vínculo com facções criminosas”.
Como detalhado pelo Metrópoles, Carlos, conhecido como Ferrugem, foi apresentado pela Polícia Militar (PM) como um importante líder do Primeiro Comando da Capital (PCC). Em grupos internos da corporação, o suspeito foi descrito como “sintonia final” da facção, “com atuação nos municípios de Itaim Paulista, Ferraz de Vasconcelos, Itaquaquecetuba, Poá e Mogi das Cruzes”.
No entanto, não há qualquer indício de que ele seja uma liderança do PCC, conforme a reportagem apurou junto a fontes do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e do setor de Inteligência da Segurança Pública do Estado.
Carlos Vieira foi alvo de nove tiros de fuzil e pistola. Os policiais envolvidos na ocorrência afirmam que receberam a informação de que o suspeito estaria transportando drogas e, durante a abordagem, teria reagido.
Desde o ano passado, o Ministério Público tenta obter as imagens das câmeras corporais dos policiais envolvidos na ocorrência. No último dia 5 de fevereiro, o promotor cobrou urgência na apresentação dos arquivos, alertando sobre possível prejuízo para as investigações.
“Os autos revelam contornos de extrema gravidade. O que se iniciou como apuração de morte em intervenção policial transmuta-se, diante de novas informações, em investigação de possível execução sumária de um cidadão sem antecedentes criminais relevantes e sem qualquer vínculo com facções criminosas, conforme aponta a Ouvidoria da Polícia Militar”, disse o promotor.
Bruno Grecco Cardoso acrescenta ainda que “a narrativa dos agentes públicos, que outrora gozava de presunção de legitimidade, encontra-se hoje sob severo xeque. A existência de 9 ferimentos perfurocontundentes, inclusive em regiões dorsais, somada ao evidente embaraço na entrega das imagens das câmeras corporais (COPs),aponta para uma tentativa deliberada de obstar o esclarecimento dos fatos”.
O representante do MPSP disse que a demora na apresentação das imagens é um “indício de embaraço investigativo” e que “qualquer hiato ou edição nas imagens será interpretado como indício de fraude processual”.
No dia seguinte à manifestação do promotor, a juíza Érica Pereira de Sousa, da 1ª Vara Criminal de Itaquaquecetuba, deu 24 horas para que o Comando da Rota apresente as imagens da ocorrência, sob pena de busca e apreensão e apreensão e crime de desobediência. Não há informação sobre se a determinação foi cumprida até esta segunda-feira (9/2).
“Sintonia final”
O relatório interno compartilhado em grupos de WhatsApp da Polícia Militar diz que “Ferrugem” teria crescido rapidamente na facção e estaria envolvido inclusive com “rotas internacionais do tráfico” e com a distribuição de drogas e armas em larga escala.
Para sustentar a tese de que Vieira seria uma liderança do PCC, foi mencionada uma investigação sobre tráfico de drogas que teve início em 2022. Vieira foi alvo, mas nada foi provado contra ele, e o caso foi arquivado.
“Em que pese as diligências encetadas e o esforço policial, não foi possível apontar com segurança o envolvimento dos investigados na prática do delito de tráfico de drogas, tampouco que estavam agindo associados para a comercialização ilícita de entorpecentes”, diz a investigação.
A suposta atuação no tráfico citada pela polícia parece ter surgido desse inquérito, que, na verdade, não comprovou qualquer crime.
Outro Ferrugem
O repórter Josmar Jozino, do UOL, publicou uma reportagem mostrando que o Ferrugem conhecido pelas autoridades carcerárias e apontado como de altíssima periculosidade chama-se Adilson da Daghia, 56. Ele foi condenado pelo assassinato do juiz Antônio Jose Machado Dias, o Machadinho, mas está foragido. A polícia, no entanto, nega ter confundido ambos Ferrugens.
Após os questionamentos, porém, a polícia foi mudando de tom e a menção à liderança do PCC foi escanteada nos posicionamentos, embora o governo ainda acuse o homem de ser faccionado.
Em relatório de inteligência ao qual o Metrópoles teve acesso, a PM afirma que a confusão foi provocada uma “divergência conceitual” sobre o que seria “sintonia”.
Segundo o relatório, o termo “sintonia final”, que antigamente era usado para se referir aos chefões do PCC, teria sido “banalizado” pelos próprios criminosos e agora estaria sendo utilizado pelos criminosos em esferas regionais e até para se referir a lideranças de bairros e comunidades.
Família
Em uma postagem na rede social na época, uma familiar defendeu Vieira e contestou as informações divulgadas pela polícia. Segundo ela, “a famosa e cuja famosa ‘ficha cheia de passagens’ só existe na história que a TV contou”.
Ela também descreveu o advogado como alguém que costumava ajudar sua comunidade e “era respeitado como advogado, empresário e pai”. “Era tão ‘temido’ que o bairro inteiro está de luto e completamente devastado com a sua partida”, escreveu.
Na Junta Comercial, Vieira aparece como sócio de empresa do ramo de motocicletas em Itaquaquecetuba. Ele também aparece como inscrito na OAB, na subseção do Arujá, desde junho.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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