Por que a bioinvasão marinha é um problema para o litoral brasileiro

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Foto colorida de coral no fundo do mar - Metrópoles

* O artigo foi escrito pelos pesquisadores Larissa Marques Pires-Teixeira, Fernanda Araujo Casares e Joel Christopher Creed, da UERJ, e publicado na plataforma The Conversation Brasil.

É comum associar a perda de biodiversidade com atividades humanas, como desmatamento e poluição, que contribuem para a redução e o desaparecimento de espécies da fauna e da flora. Outra consequência da ação humana, a introdução de espécies invasoras, também desempenha um papel importante na diminuição da diversidade de espécies no mundo todo.

A chegada de uma espécie representa para um ecossistema um novo componente que é introduzido em um ambiente até então em equilíbrio e com inter-relações entres as espécies nativas, que evoluíram paralelamente ao longo de milhares de anos.

A introdução de uma nova espécie significa sempre uma ameaça?

Vai depender das características do ambiente que recebe e da espécie que é introduzida. Caso o desdobramento dessa introdução seja um evento de bioinvasão, os custos são altos, para o meio ambiente, para os cofres públicos e as vezes até para a saúde humana.

Estima-se que os custos com o manejo de espécies exóticas invasoras e as consequências desses eventos a nível global tenham girado em torno de R$ 2,88 trilhões de dólares, considerando o período entre 1970 e 2022. No Brasil, o valor gasto com os prejuízos chega a R$ 104,33 bilhões de dólares, entre 1984 e 2019.

No mar ainda faltam dados que estimem os custos com a problemática da bioinvasão no Brasil, mas é possível ter uma ideia a partir dos custos de uma única ação para remoção de uma espécie de coral invasor bem conhecida, o Coral-sol. O valor gasto em um dia de ação é de R$ 3.600 (aproximadamente US$ 720). Contudo, para um manejo efetivo, são necessárias atividades contínuas de remoção.

Bioinvasão marinha ao longo dos anos

Em função da sua extensão e variedade de ambientes associados a ecossistemas costeiros, o Brasil carrega o título de importante doador e receptor de espécies marinhas. Nossos 8 mil km de litoral são compostos por ambientes tropicais a temperados distintos e com diversidade de espécies particulares. Há desde recifes de corais e praias arenosas, até manguezais, marismas, bancos de rodolitos e fanerógamas marinhas, lagoas, estuários, ilhas oceânicas e pântanos.

O aumento das nossas atividades marítimas também contribui para esse cenário. No mar, qualquer embarcação ou estrutura que se movimente pode servir como meio de transporte para que uma espécie se desloque de um local para o outro.

A água utilizada em barcos e navios para manter a estabilidade, o equilíbrio e a segurança durante a navegação, conhecida como água de lastro, ao ser preenchida e despejada, transporta e introduz espécies marinhas de um local para outro.

Cascos de navios e plataformas de petróleo, a parte submersa de boias, o lixo marinho até a abertura de canais de navegação também são exemplos, já que as espécies usam essas estruturas e liberam suas larvas por onde passam.

Em 2019, um levantamento realizado por nós do Laboratório de Ecologia Marinha Bêntica da Uerj, mostrou que até aquele ano, 138 espécies marinhas foram consideradas não nativas (ou exóticas), ou seja, aquelas que ocorrem fora de sua área de distribuição natural.

A maioria dessas espécies foi introduzida no sudeste do Brasil e já encontrada nos 17 estados costeiros do país. Estas espécies compreendem gastrópodes, crustáceos, acídias, poliquetas, corais, peixes e até espécies do plâncton.

Na época em que o estudo foi publicado na revista Aquatic Invasions, nós fizemos um alerta. A falta de um banco de dados nacional de espécies exóticas invasoras marinhas é uma carência do nosso país no enfrentamento à bioinvasão.

Qual a situação atual e o que esperar para os próximos anos?

Passados seis anos, o cenário é outro. O Brasil atualmente conta com uma plataforma que inclui todas as espécies exóticas invasoras marinhas do Brasil. A Plataforma Brasileira de Bioinvasão é atualizada periodicamente e conta com a contribuição da sociedade, que pode preencher no próprio site um formulário indicando a ocorrência de uma espécie não nativa, que depois será analisado por especialistas no assunto.

Em contraponto a esse avanço, o número de espécies introduzidas aumentou desde 2019. Atualmente, o litoral brasileiro registra 175 espécies exóticas, que chegam ao país em diferentes embarcações ou estruturas que se movimentem e possam servir como meio de transporte. Considerando os dados da Plataforma, esse número sobe para 339, já que são incluídas as criptogênicas – quando não se sabe se é nativa ou não – e as contidas – não nativas, mas restritas a cativeiro ou cultivo.

Outro número que chama atenção é o aumento de espécies invasoras, que são aquelas que causam impactos mensuráveis no meio ambiente, em atividades socioeconômicas ou na saúde humana. Em seis anos, a quantidade de invasores marinhos saltou de 19 para 26.

Esses invasores compreendem, principalmente, espécies de antozoários, animais marinhos do grupo das águas-vivas e dos corais. Diferente das águas-vivas, passam toda a vida fixos no fundo do mar.

Esse número acende um outro alerta, o comércio de aquário como um caminho de transporte de espécies marinhas, como no caso dos corais moles e pétreos. É o caso do coral mole azul Latissimia ningalooensis.

Nativa da Austrália, a espécie foi descartada de um aquário em um costão rochoso de uma praia de águas calmas e cristalinas no município de Angra dos Reis, litoral sul do estado do Rio de Janeiro.

Em oito anos, o coral mole aumentou sua área de distribuição, dispersou para uma ilha próxima que fica dentro de uma unidade de conservação e, em alguns pontos, já é considerada a espécie mais abundante, ocupando um lugar em que antes viviam espécies nativas como o coral babão Palythoa caribaeorum e a alga Sargassum, um alimento importante para tartarugas marinhas.

O fato é que a introdução de espécies marinhas no Brasil segue um crescimento exponencial. Nosso país se tornou um importante doador e receptor de espécies marinhas, mas ainda carece de mecanismos regulatórios eficientes.

As leis ainda são superficiais e as ações de enfrentamento são caras e esparsas. Ainda que a pesquisa avance e importantes conquistas tenham sido alcançadas, como a Plataforma Brasileira de Bioinvasão e a Estratégia Nacional para Espécies Exóticas Invasoras, o caminho é longo para alavancar o progresso na área.

Além de um alerta, chamamos a atenção para que mais estratégias sejam adotadas no manejo de espécies exóticas marinhas no Brasil. Precisamos de um engajamento dos estados e municípios com o governo federal para que haja ações integradas, com maior alcance e eficiência.

É fundamental também a união de todos os setores da sociedade e, para isso, a sensibilização de todos sobre a importância da temática é crucial. Sobretudo, necessitamos de recursos financeiros, pessoal qualificado e infraestrutura adequada para implementar medidas de prevenção, detecção precoce aliada à resposta rápida e controle de espécies exóticas em áreas costeiras e marinhas.

Assim, como na saúde, quando se trata de espécies invasoras, prevenir é sempre melhor (e muito mais barato) do que remediar.

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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