"Não dá para proteger a Amazônia a distância", diz presidente do CIEAM

11/02/2026 18:41, atualizado 11/02/2026 18:41

metropoles.com

“A Amazônia não se protege com opinião, se protege com presença.” A frase de Luiz Augusto Barreto Rocha, empresário do setor têxtil e presidente do Conselho Superior do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM), resume mais do que um posicionamento institucional, resume uma viagem que levou representantes da indústria e do Exército Brasileiro a um dos territórios mais isolados e mais simbólicos do país.

São Gabriel da Cachoeira não é um destino comum. Conhecida como a “Cabeça do Cachorro”, a cidade está localizada no extremo noroeste do Amazonas, em uma região de fronteira com a Colômbia e a Venezuela.

Ali, o Brasil não apenas termina no mapa: ele se transforma. Nove em cada dez moradores são povos originários, pertencentes a etnias como Tukano, Baniwa, Dessana e Baré. Além do português, línguas como Nheengatu e Tukano são reconhecidas oficialmente.

O acesso define o ritmo da vida. Avião, barco, estrada curta, rio longo. Tudo depende do clima, da cheia, da vazante. Não há pressa possível quando o território impõe as próprias regras.

A equipe do Metrópoles só conseguiu chegar à região em um avião fretado pelo CIEAM e pela Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (FIEAM), um detalhe logístico que revela, por si só, o tamanho do desafio.

Foi para esse cenário que uma comitiva de 22 pessoas embarcou em uma jornada de três dias. Representantes do CIEAM, da FIEAM, do Conselho de Desenvolvimento da Indústria de Defesa (Condefesa) e do Exército Brasileiro cruzaram horas de voo para alcançar comunidades onde a presença de políticas públicas e do mercado chega de forma esporádica.

Grupo de pessoas caminha em área aberta, sob céu nublado, em um espaço simples de terra batida. Ao fundo, construções baixas e vegetação amazônica
Chegada da comitiva a São Gabriel da Cachoeira marca início da missão no extremo noroeste do Amazonas

Ao todo, mais de nove toneladas de donativos foram destinadas a comunidades indígenas e ribeirinhas da região.

Entre os itens entregues estavam kits escolares, livros infantis, brinquedos, roupas, bicicletas e cestas básicas. Mas, ali, o peso da carga não se mede apenas em quilos. Mede-se no impacto de algo raro: presença contínua em um território acostumado à ausência.

Entre as que receberam as doações, a comunidade indígena de Maturacá, localizada dentro do Parque Nacional do Pico da Neblina, território Yanomami com cerca de 2 mil moradores, é marcada por desafios históricos relacionados à saúde e ao avanço do garimpo ilegal.

Já em São Gabriel da Cachoeira – considerada a cidade mais indígena do Brasil, com cerca de 90% da população autodeclarada indígena e 23 etnias -, a comunidade indígena de Boa Esperança, situada na Terra Indígena Alto Rio Negro, abriga cerca de 33 famílias e mais de 50 crianças em idade escolar.

A comunidade é símbolo da resistência do povo Rúa, que mantém a organização social e cultural apesar do isolamento e da escassez de recursos básicos.

Também recebeu doações a comunidade indígena da Ilha Camanaus, conhecida como Ilha Duraka. O trajeto até lá leva aproximadamente 40 minutos, combinando estrada e travessia pelo rio Negro.

 

A chegada à comunidade indígena de Boa Vista foi o momento mais duro da missão.

São mais de 30 famílias vivendo principalmente da agricultura de subsistência e da reciclagem. Parte da renda vem do que pode ser reaproveitado do lixo. Não como escolha, mas como necessidade.

O aterro sanitário fica em frente à comunidade. É ali que as crianças brincam. É ali que adultos trabalham. É ali que o cotidiano acontece. O cheiro, os urubus, os resíduos expostos fazem parte da paisagem diária.

Foi nesse cenário que a ação social ganhou um peso completamente diferente.

“Muitas famílias não têm condição de comprar material escolar todo ano. A gente vive da roça, da farinha, da pesca. O que chega aqui é difícil”, contou o líder comunitário Nelson Freitas Ramos, cacique há seis meses.

Morador indígena acompanha a ação em São Gabriel da Cachoeira.
O líder comunitário Nelson Freitas Ramos explica que o material escolar doado chega em um momento crítico

A indústria que aprendeu a ouvir

Antes das caixas serem abertas, antes dos kits serem distribuídos, houve silêncio. Um silêncio de quem observa, respira fundo e tenta entender o território antes de agir.

Foi nesse intervalo, entre a chegada e a primeira entrega que a empresária Régia Moreira Leite, coordenadora da comissão de ESG e uma das responsáveis pela articulação das doações, se emocionou pela primeira vez. “Eu nunca imaginei que fosse estar aqui.”

Régia não nasceu no Amazonas. Mas, foi ali que construiu parte da vida profissional e afetiva. Desde a pandemia, passou a intensificar ações sociais envolvendo empresas do Polo Industrial de Manaus.

O que começou como resposta emergencial a uma crise sanitária virou uma rede estruturada de responsabilidade social.

Mulher em primeiro plano observa o entorno, com expressão atenta, em espaço rural
Régia Moreira Leite: “Estar na Amazônia e não se envolver com os povos originários é não estar na Amazônia”

Na hora da entrega dos kits escolares, as crianças se aproximavam com uma curiosidade silenciosa.

Algumas observavam de longe. Outras já seguravam nas mãos os primeiros lápis. A alegria era imediata  e, ao mesmo tempo, desconcertante para quem vinha de fora.

Régia chorou durante a distribuição. Não em discurso. Não diante de câmeras. Chorou no meio da entrega, ao perceber a dimensão simbólica de objetos simples. “Elas estavam felizes com um lápis… com uma roupa… coisas tão básicas para a gente. E ali, aquilo era tudo.”

Somente em roupas, foram mais de 80 mil peças doadas em diferentes ações sociais. Em educação, cerca de 1.800 kits escolares foram destinados às comunidades indígenas nessa missão específica.

Durante a visita, a empresária também destacou algo que a marcou profundamente: o contraste entre a riqueza cultural das comunidades e a ausência de direitos básicos. “Você chega achando que vai ensinar alguma coisa. E sai percebendo que quem mais aprende é você.”

A emoção de Régia não foi isolada. Outros membros da comitiva também relataram impacto semelhante ao presenciar a reação das crianças.

Em vez de discursos formais, o que prevaleceu foi o contato direto. Conversas curtas, trocas de olhares, gestos simples. A indústria, acostumada a processos, metas e produtividade, ali foi convidada a desacelerar e ouvir.

E ouvir, naquele território, é mais do que uma escolha. É uma necessidade.

Caixas e sacolas empilhadas, com bandeira do Brasil ao fundo, em ambiente coberto
Parte dos kits escolares e demais donativos distribuídos

“A Amazônia não se defende a distância”

Luiz Augusto Barreto Rocha fala com a calma de quem conhece números, planilhas e cadeias produtivas, mas também com a firmeza de quem entende o território. Contudo, o presidente do Conselho Superior do CIEAM não esconde que a viagem ao Alto Rio Negro mexeu com convicções que já pareciam consolidadas.

“A Amazônia não se defende a distância. Não dá para defender esse território só com discurso ou opinião formada de fora”, afirmou.

A Zona Franca de Manaus, lembra Luiz Augusto, impacta diretamente todo o estado. Produtos fabricados no Polo Industrial estão presentes em mais de 90% dos lares brasileiros. Ainda assim, há um abismo entre o centro industrial e regiões como o Alto Rio Negro.

“O desafio é fazer com que esse modelo chegue onde o rio demora dias para levar”, ressaltou.

Segundo o empresário, a educação é um ponto de partida incontornável. Sem ela, não há soberania, não há autonomia e não há futuro possível para as comunidades. “Educação não é assistência. É estratégia de país.”

Para ele, a relação com os povos originários precisa ser construída com respeito, escuta e continuidade, não como ação pontual ou vitrine institucional. “A gente não vem aqui para ensinar ninguém a viver. Vem para aprender como fazer melhor.”

A declaração dialoga com uma crítica recorrente feita por lideranças indígenas: a de que muitas ações externas chegam com soluções prontas, sem compreender a lógica local.

Na missão acompanhada pelo Metrópoles, a proposta foi inversa. Antes das entregas, houve conversas com caciques, professores e moradores. As necessidades foram ouvidas antes de qualquer decisão.

“A indústria precisa entender que o território fala. E aqui ele fala muito claro”, completou.

No fim da missão, Luiz Augusto definiu a experiência como um “marco”. Não apenas para o CIEAM, mas para a forma como a indústria amazonense se enxerga dentro do próprio estado.

“A Amazônia não é só o lugar onde a gente produz. É o lugar onde a gente pertence.”

Luiz Augusto Barreto Rocha, presidente do Conselho Superior do CIEAM

Adultos conversam enquanto crianças observam, em espaço aberto cercado por árvores
Entrega de materiais reforça o papel da educação como estratégia de futuro

A fábrica vira extensão da escola

Para entender por que a indústria chega tão longe, é preciso olhar para além das linhas de produção. No Polo Industrial de Manaus, a fábrica não termina no portão. Ela se estende às pessoas que trabalham ali e às histórias que essas pessoas carregam.

Jean-Marc Hamon, diretor da BIC Amazônia, vive no Amazonas há mais de três décadas. Francês de origem, amazonense por escolha, ele comanda uma unidade que emprega cerca de mil trabalhadores diretos e indiretos.

“A gente sempre trabalhou a questão social dentro da fábrica. Relações humanas, saúde mental, respeito. Mas, quando você chega num lugar como esse, tão distante, isso ganha outra dimensão”, ponderou.

Muitos funcionários da BIC, assim como de outras indústrias do Polo, vêm do interior do Amazonas, do Pará e de estados do Nordeste. Por isso, quando a empresa alcança comunidades como Boa Vista e Boa Esperança, a ação deixa de ser abstrata. Ela toca memórias, origens e pertencimento.

Nesta missão, a BIC contribuiu com 1.600 kits escolares, contendo lápis, canetas e materiais básicos. Para uma empresa cuja origem está diretamente ligada à escrita e à educação, o simbolismo é direto. “Um lápis pode parecer pouco, mas ele representa começo. Representa escolha”, frisou Hamon.

Crianças seguram materiais enquanto adultos organizam a distribuição
Jean Marc Hamon: “Tem gente que trabalha com a gente em Manaus e veio de comunidades muito parecidas com essas. Quando a indústria chega até aqui, ela mostra que se importa com a história dessas pessoas”

Nesta missão, a BIC contribuiu com 1.600 kits escolares, contendo lápis, canetas e materiais básicos. Para uma empresa cuja origem está diretamente ligada à escrita e à educação, o simbolismo é direto. “Um lápis pode parecer pouco, mas ele representa começo. Representa escolha”, frisou Hamon.

Jean reforça que não há alternativa para o desenvolvimento que não passe pela educação. Para ele, políticas assistencialistas sem continuidade não transformam territórios. “Só a educação transforma. Não existe outro caminho.”

A fala encontra eco nas comunidades visitadas. Em locais onde a renda vem da roça, da pesca e da reciclagem, o acesso à escola é muitas vezes o único elo com outras possibilidades de futuro. O material escolar, nesse contexto, não é detalhe, é fundamental.

Cada kit entregue representa acesso à educação em regiões de difícil alcance

O apoio chega de farda

A missão, porém, não seria possível sem o apoio do Exército Brasileiro. O Comando de Fronteira Rio Negro e 5º Batalhão de Infantaria de Selva coordenou a Ação Cívico-Social.

Durante todo o dia, foram oferecidos atendimentos básicos de saúde, orientações preventivas, atividades educativas e serviços de apoio social. Em um território onde o acesso a serviços públicos é irregular, a presença do Exército representou cuidado imediato e respeito.

A atuação militar na região não se limita à segurança de fronteira. Em áreas de difícil acesso, o Exército se torna ponte entre o Estado e comunidades historicamente isoladas.

“Tivemos a oportunidade, nesse evento conjunto com os empresários e industriais que vieram na comitiva, de entregar em torno de duas toneladas de doações. As outras quase cinco toneladas serão distribuídas em ações sociais da Brigada, pelo grupo Jovens Guerreiras e pelas próprias Organizações Militares”, explicou o general Campos Mota.

Ele também destacou que a continuidade das ações é parte da estratégia na região. “Parte dessas doações irá para os Pelotões Especiais de Fronteira, para atender as comunidades que vivem próximas a esses pelotões e outras comunidades carentes do município.”

Homem fardado sorri para a câmera, com prédio ao fundo.
General Campos Mota: “Para a Brigada, é muito gratificante realizar esse tipo de apoio, porque vai ao encontro das nossas principais vocações aqui. Uma delas é apoiar, de todas as formas, as comunidades indígenas, ribeirinhas e originárias da Cabeça do Cachorro”

Educação, floresta e modelo de país

Enquanto as crianças recebiam kits escolares, outro debate silencioso atravessava a missão: o futuro da Amazônia. Durante décadas, a Zona Franca de Manaus foi alvo de críticas por supostamente incentivar um modelo industrial incompatível com a preservação ambiental. Os dados, porém, contam outra história.

Mais de 97% da floresta amazônica no estado do Amazonas permanece preservada. O índice contrasta com estados da Amazônia Legal, onde o modelo econômico é baseado na agropecuária extensiva e na ocupação desordenada do solo.

A explicação é direta: quando há emprego urbano, renda estável e qualificação, a floresta deixa de ser a única alternativa econômica.

A indústria responde por apenas 5% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil. O uso do solo, a agropecuária e o desmatamento concentram 72% das emissões. Os números desmontam a narrativa simplificada que coloca a indústria como vilã ambiental.

Para Luiz Augusto, o maior desafio do modelo industrial é avançar na interiorização do desenvolvimento, respeitando culturas, modos de vida e tempos distintos. “Desenvolver não é impor. É construir junto.”

A Zona Franca de Manaus nasceu como um projeto econômico. Hoje, se revela como um projeto de país. Um modelo que mantém a floresta em pé, gera empregos e, quando se desloca para o interior, mostra a face mais potente: a capacidade de educar.

No Alto Rio Negro, a educação oferecida hoje define se, amanhã, essas crianças precisarão recorrer a atividades ilegais ou predatórias para sobreviver.

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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