
Não me recordo da primeira vez que ouvi a associação racista entre pessoas negras e o insulto “macaco”. Pertence àquelas violências tão antigas que parecem não ter princípio, como se sempre tivessem ali estado, à mão de insultar.
Tenho, contudo, a certeza de que pelo menos desde o jardim de infância essa palavra, entre muitas outras, foi lançada contra pessoas negras à minha volta, contra a minha família, contra mim. Não como um acidente ou uma ignorância, mas como automatismo, como uma linguagem inata transmitida em herança, sem necessitar sequer de aprendizagem. Se ao insulto “preto” pode suceder uma desculpa mal-amanhada (“sempre disse assim”, “mas no Brasil…”, “mas tenho um ‘amigo de cor’ que também diz”) ao insulto “macaco” não há volta a dar: é racismo do puro, de qualidade imaculada, branca como neve. Não existe qualquer dúvida sobre o seu propósito. Muitas vezes, o insulto não está na palavra em si, mas na intenção que a acompanha. Para uma apaixonada de primatologia como eu, chamarem-me macaca, fora deste contexto racial, não é ofensivo, tal como não é para o jogador de futebol italiano Mario Balotelli, frequentemente alvo de racismo e que afirma: “Eu não tenho nada contra os macacos, porque tenho a certeza absoluta de que um macaco é mais inteligente do que um racista.”
O problema do racismo não está em apontar diferenças, em reparar, por exemplo, que temos tons de pele, cabelos, olhos, géneros, origens, orientações sexuais diferentes, mas em estabelecer hierarquias, em transformar uma característica em símbolo ou prova de inferioridade. Já o devo ter escrito por aqui, se celebramos a biodiversidade, se achamos bonita uma floresta com várias cores, ou espécies vegetais ou animais de cores diferentes, porque não celebramos a pluralidade humana? Uma das razões é o racismo ter utilidade(s). Se um ser humano é considerado inferior ou como não pertencendo à comunidade humana, torna-se mais fácil explorá-lo, discriminá-lo, violentá-lo e até exibi-lo em zoos “humanos”. Fazer dele um objeto, uma propriedade, com menos ou nenhuns direitos. O racismo é lucrativo. O que nos levaria aqui, aliás, ao debate sobre a forma como ainda hoje tratamos os animais não humanos.
Quando Donald Trump partilha um vídeo em que Barack e Michelle Obama surgem representados como macacos, não se trata de humor inocente nem de metáfora neutra. Trata-se de reinscrever corpos negros numa longa história de animalização, de rebaixamento ontológico. Pelo contrário, quando Trump é comparado a um leão, a imagem convoca força, majestade, supremacia. O animal, aqui, não desumaniza, mas glorifica. Comparar pessoas negras a macacos não tem a mesma carga simbólica que comparar pessoas brancas. Não parte do mesmo lugar histórico. Não produz o mesmo efeito.
Por isso, por muito abespinhado que esteja um adepto num estádio, um jogador como Prestianni não verá gestos ou ouvirá gritos de “macaco quando toca na bola e, se tal acontecer, será para o empurrar simbolicamente para o lugar reservado a uma pessoa negra. Tal como insultos misóginos são usados para humilhar homens ou insultos lgbtfóbicos para rebaixar pessoas heterossexuais. Tudo isto faz parte do ABC do racismo.
E, no entanto, as reações, no mínimo patéticas, às polémicas quer em torno de Trump e dos Obama, quer de Prestianni e Vinícius mostram-nos quanto caminho ainda há por percorrer. Perante cada episódio, repete-se o mesmo guião, as mesmas desculpas, desresponsabilização e culpabilização da vítima. A mesma invisibilização e negação do “macaco” no meio da sala. O racismo obedece a uma lógica rudimentar, por isso é tão eficaz, porque é fácil de reproduzir. Resistir, por isso, também é repetir o óbvio. E, porque resistência tem então de ser insistência, insisto em partilhar o apelo à assinatura, com o nome completo, da petição promovida pelo GAC (Grupo de Ação Conjunta contra o Racismo).
Ao “macaco” podemos responder com as palavras célebres e repetidas do ativista dos direitos humanos, falecido esta semana, Jesse Jackson: I am somebody! I am somebody! (“Eu sou alguém! Eu sou alguém!”).
(Transcrito do jornal PÚBLICO)
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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