Hacker foragido na Sérvia negocia delação contra policiais civis de SP

Após diversos procedimentos arquivados nas Corregedorias de Santos, Araçatuba e Iguape, que levaram ao afastamento de um único policial, dois inquéritos foram instaurados pela 5ª Vara Federal de Santos em outubro de 2024 a partir das denúncias feitas por Brito.

Em setembro do ano passado, a procuradora Gabriela Saraiva Hossri afirmou que os mais de 70 documentos apresentados pelo hacker “indicam a possível participação de outros policiais civis” e cobrou o resultado de perícias técnicas para atestar a autenticidade das provas.

Enquanto isso, desde outubro, a defesa do hacker negocia os termos da possível delação ao MPF, que demonstrou interesse. As tratativas seguem em andamento. O objetivo dos advogados seria que o acordo contemplasse também o Ministério Público de São Paulo (MPSP), o que não avançou.

Além disso, há negociação para que a colaboração premiada inclua não só os fatos relacionados à operação Raio X, mas também crimes que teriam sido cometidos pelos policiais antes do contato com o hacker.

Questionado pelo Metrópoles por meio da assessoria de imprensa, o MPF disse que os inquéritos estão em segredo de Justiça e que não pode fornecer informações sobre o andamento dos procedimentos. O MPSP não se manifestou até o momento da publicação.

A reportagem não conseguiu contato delegado Carlos Henrique Cotait. Em novembro, ele disse que Brito estava mentindo e que as conversas com outros policiais seriam “montadas”. O delegado afirmou que não é investigado pelo MPF e que nenhum dos procedimentos instaurados até hoje conseguiram provar seu envolvimento no suposto esquema.

Quem é o “hacker de Araçatuba”

Márcio França como alvo

A invasão do celular do médico Franklin Cangussu, que fez com que Brito fosse descoberto, teria ocorrido a partir de uma determinação do delegado Carlos Henrique Cotait, como indicam os prints de conversas entre o hacker e a investigadora Cindy Orsi Nozu, hoje delegada da PF. Ela supostamente teria dado orientações para que Brito invadisse o dispositivo de suspeitos, inclusive do ex-governador Márcio França.

“Levanta tudo o que você conseguir dele e me avisa”, escreveu a policial. Questionada por Brito, a mulher disse que essa teria sido uma determinação de Cotait: “Foi ele quem falou para te passar”.

Dias depois, após o hacker enviar uma série de informações sobre Cangussu, Cindy diz que estava usando o material para fundamentar um mandado contra o médico, com o objetivo de atingir o então governador Márcio França.

“Já estou escrevendo um relatório que já passou de cinquenta páginas e a gente vai usar para pedir a prisão preventiva do Cangussu para ver se ele delata o Márcio França”, afirmou, segundo os prints das mensagens entregues pelo hacker. Ela ainda teria sugerido que Brito hackeasse o próprio político: “Será que não dá para hackear o Márcio França direto, haha”.

Além de ter os dispositivos invadidos, Cangussu passou a ser extorquido pelo hacker e começou a desconfiar do envolvimento dos policiais que aprenderam seu celular. Ele, então, registrou uma denúncia na Divisão de Crimes Cibernéticos (DcCiber).

Ao descobrir a existência desse inquérito, que defendeu a instauração de um procedimento na Corregedoria, a equipe de Cotait fez um relatório dizendo que Brito havia invadido um drive usado pela polícia e tido acesso a arquivos sigilosos. Mais tarde, o delegado colocaria a culpa no agente Edison Rodrigues, com base em uma foto tirada dentro da delegacia da tela do celular de Cangussu, que teria possibilitado hackeamentos.

Apuração preliminar arquivada

O último procedimento interno da Polícia Civil para apurar o caso foi instaurado em agosto de 2024, na Corregedoria Central de São Paulo, por determinação do então secretário da Segurança Pública, Guilherme Derrite. Na ocasião, ele disse que o objetivo de seria garantir “total transparência” e “evitar a participação de policiais locais”.

“Nós vamos entrar em contato com ele e convidar para que ele possa apresentar as provas de tudo o que ele fala. Eu garanto para vocês que, havendo participação de qualquer policial civil, isso será severamente apurado e haverá punição”, disse o secretário em entrevista a um canal no YouTube.

No entanto, cerca de um ano depois, em 5 de setembro, o caso foi arquivado por decisão do corregedor-geral da Polícia Civil, João Batista Palma Beolchi.

Brito foi ouvido em duas oportunidades no procedimento e entregou vários arquivos, mas testemunhas arroladas por ele não foram chamadas para prestar depoimento. No relatório que pediu o arquivamento, os delegados responsáveis pela apuração citaram conclusões de outras investigações para dizer que as acusações de Brito não procediam. Na maioria dos casos, não houve menção a novas diligências.

Entre os documentos apresentados pelo hacker estavam prints de conversas com integrantes da equipe do delegado Cotait, como os diálogos que manteve com a investigadora Cindy.

Sobre isso, o relatório diz apenas que são “acusações infundadas”, porque uma outra apuração preliminar já teria investigado o caso. O mesmo foi dito em relação ao comprovante de uma transferência bancária que teria sido feita pela policial para a avó de Brito. A apuração também não analisou mensagens suspeitas trocadas entre Brito e um escrivão. Segundo as investigações, elas seriam de cunho pessoal e não indicariam que o hacker teria colaborado com a polícia de forma ilícita.

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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