
O episódio envolvendo um suposto abuso de autoridade e violência policial ocorrido na 26ª Delegacia de Polícia (Samambaia Norte), na noite de segunda-feira (2/3), trouxe à tona o passado judicial do advogado Cláudio Dias Lourenço, vítima das agressões. A ampla repercussão do caso motivou a apuração detalhada de sua ficha criminal, que revela 14 inquéritos policiais, nove Termos Circunstanciados (TCs) e duas condenações judiciais, sendo uma por estupro.
A confusão na delegacia foi filmada e viralizou nas redes sociais. Veja:
O histórico de Cláudio Dias remonta ao início dos anos 2000. A primeira denúncia formal contra ele, que na época era soldado da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), foi registrada em 2001, na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher I (Deam I). Segundo a apuração, a vítima foi abordada em um ponto de ônibus por um homem armado, forçada a entrar em um veículo e levada a uma área isolada nas proximidades da construção do Superior Tribunal de Justiça. O homem em questão seria o hoje advogado.
Entenda o caso
Em agosto de 2002, Cláudio foi preso após uma garota de programa que fazia ponto no Conic, à noite, denunciar a ação de estupradores na região. O primeiro estupro dos quatro dos quais o advogado é acusado, teria ocorrido em fevereiro de 2001, contra uma prostituta de 28 anos. Na época, quando ainda atuava como soldado da PM, a então titular da Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam), delegada Vera Lúcia da Silva, contou que as vítimas do acusado chegavam à DP imundas e aterrorizadas.
Segundo as acusações registradas da Deam, além de não pagar pelo programa, Cláudio amarrava as vítimas e defecava sobre elas.
A defesa do advogado disse, por meio de nota, que “a tentativa de desqualificar a vítima com base em registros policiais antigos e unilaterais (já analisados pelo Poder Judiciário e pela própria OAB por ocasião de sua inscrição) não apaga a gravidade dos abusos cometidos, nem justifica a violência praticada”.
Mais estupros
O registro descreve, ainda, grave ameaça e violência sexual praticada dentro do carro. Em 2002, novos casos semelhantes foram formalizados na mesma delegacia. Em julho daquele ano, uma mulher relatou ter sido perseguida nas imediações do Brasília Shopping, na Asa Norte, coagida com arma de fogo e levada a um matagal no Setor de Clubes, onde sofreu violência sexual sob ameaça constante.
Dias depois, em agosto, outra ocorrência descreveu abordagem de Cláudio na Asa Norte. Outra mulher foi levada até uma estrada de terra próxima à orla do Lago Paranoá, ameaça com uma arma, violentada sexualmente, além de ter dinheiro e documentos subtraídos.
Os registros indicam que, somente em 2002, ao menos quatro casos de estupro foram atribuídos a Cláudio, que acabou expulso da PMDF anos depois. As vítimas relataram ameaças reiteradas, intimidação psicológica e agressividade. À época, as ocorrências foram conduzidas pela Deam, com encaminhamento ao Instituto Médico Legal (IML) para exames periciais.
Em 2005, novas denúncias surgiram e foram registradas na 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte). Em uma delas, a vítima afirmou ter sido levada a um matagal na L4 Norte, onde também foi submetida à violência sexual sob ameaça de arma de fogo. Em outro caso, no mesmo ano, a denunciante reconheceu o autor por fotografia na delegacia.
O boletim descreve que ela foi conduzida a uma área isolada no Setor de Mansões Park Way e violentada, registrando ainda que o medo de represálias teria retardado a formalização da denúncia. Consta, também, em 2005, um registro envolvendo estupro associado a roubo.
Longa ficha criminal
Após esse período, o histórico criminal de Cláudio passou a incluir outros tipos penais. Em 2009 houve inquérito por furto. Em 2017, registro por falsidade ideológica, relacionado à suposta inserção de informação falsa em documento.
Em 2020, além de estelionato, foi registrada nova acusação de estupro na 4ª Delegacia de Polícia (Guará). Segundo o boletim, a investigação incluiu reconhecimento formal do suspeito, análise de imagens de câmeras de segurança e identificação de compra realizada em farmácia no horário do crime.
Houve cumprimento de mandado de prisão e encaminhamento da vítima para exames periciais. Este procedimento resultou em uma das condenações atribuídas ao advogado.
Mais recentemente, em 2022, consta um registro por ameaça. Já em 2025, com o homem já atuando como advogado, foi lavrada ocorrência na 32ª Delegacia de Polícia (Samambaia Sul) envolvendo aplicação da Lei Maria da Penha.
O boletim descreve perseguição insistente, ligações reiteradas de números diversos, ameaças de exposição de conteúdo íntimo e impedimento de saída da residência do investigado, situação que teria sido encerrada apenas após acionamento da Polícia Militar pelo telefone 190. O caso foi enquadrado como violência psicológica, perseguição e cárcere privado.
OAB se manifesta
Procurada, a Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Distrito Federal informou que, no episódio ocorrido na 26ª DP, atuou na defesa das prerrogativas profissionais e comunicou as autoridades competentes para apuração de eventual abuso.
Sobre as denúncias envolvendo o advogado, a entidade afirmou que, à época de sua inscrição, foram apresentadas certidões negativas. Segundo a entidade, diante das informações atualmente divulgadas, os “órgãos internos da OAB serão acionados, assegurando contraditório e ampla defesa, com tramitação sob sigilo conforme o Estatuto da Advocacia”.
Em nota, a defesa de Cláudio diz, também, que “não há qualquer decisão judicial ou administrativa que tenha suspendido ou cassado a inscrição do advogado, que permanece no pleno
exercício de sua profissão, com presunção de idoneidade até que se prove o contrário, nos termos da lei”.
“Se o advogado responde ou respondeu a processos, isso não autoriza a polícia a agredi-lo, nem retira o caráter ilegal da conduta dos agentes. Tampouco legitima a tentativa de desviar a atenção dos fatos concretos: socos, algemas e cela para quem apenas buscava defender um cidadão”, completou a defesa.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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