
Uma ferramenta de análise mencionada repetidamente em conversas interceptadas pela Polícia Federal (PF) ajuda a explicar o mecanismo que teria sido usado por policiais civis de São Paulo para pressionar investigados. A frase “vou puxar o seu RIF também”, como relatou uma fonte sigilosa ao Metrópoles, ajuda a ilustrar o argumento usado para intimidar pessoas que apareciam em relatórios financeiros solicitados em investigações oficiais.
A expressão, ainda segundo a fonte, ajuda a explicar como policiais transformavam informações bancárias em instrumento de pressão.
A conduta suspeita, identificada em trocas de mensagens, levou à operação deflagrada nessa quinta-feira (5/3), conduzida pela PF, pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MPSP), e pela Corregedoria da Polícia Civil.
Segundo os investigadores, a engrenagem do esquema usava um recurso legítimo da atividade policial, ou seja, o acesso a relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), com os quais os policiais corruptos constrangiam pessoas e, com elas, negociavam pagamentos.
Ao todo, 10 suspeitos tiveram prisão preventiva decretada na investigação que apura um esquema de corrupção envolvendo policiais e intermediários. Entre eles, estão: o delegado João Eduardo da Silva, o escrivão Ciro Borges Magalhães Ferraz, além dos investigadores Rogério Coichev Teixeira e Roldnei Eduardo dos Reis Baptista.
O Metrópoles apurou que os quatro foram submetidos a audiência de custódia, ainda na tarde dessa quinta, na qual a Justiça manteve suas prisões preventivas, ou seja, por tempo indeterminado. Todos foram encaminhados ao presídio da Polícia Civil. A defesa deles não foi localizada e o espaço segue aberto para manifestações.
Como o esquema funcionava
A investigação aponta que o ponto de partida era um Relatório de Inteligência Financeira (RIF). Esses documentos reúnem movimentações consideradas atípicas, como transferências elevadas ou incompatíveis com o perfil financeiro de uma pessoa. Delegados, por exemplo, podem solicitar esses relatórios em investigações policiais.
Segundo a apuração federal, porém, parte dessas consultas teria sido usada para outro fim. Policiais civis de São Paulo — alvos do inquérito da PF, entre eles, o delegado João Eduardo da Silva e o escrivão Ciro Borges Magalhães Ferraz — identificavam, por meio de um RIF, pessoas que tinham feito transferências ou mantinham relações financeiras com o investigado principal de um inquérito instaurado pela delegacia. Esses nomes passavam, então, a ser tratados como novos alvos.
Em seguida, essas pessoas eram chamadas para prestar esclarecimentos em delegacias. O procedimento parecia regular. Mas, segundo os investigadores, havia um detalhe decisivo.
“Investigação de gaveta”
De acordo com a investigação, muitas dessas diligências não eram registradas oficialmente nos autos do inquérito. Nem os relatórios financeiros usados para identificar os alvos, nem algumas das intimações expedidas eram anexados ao processo. Isso permitia, conforme levantou a PF, que os policiais paulistas conduzissem uma apuração paralela, fora do registro formal.
O próprio processo, obtido pela reportagem, descreve o método como uma espécie de “investigação de gaveta”, um conjunto de diligências que existiam na prática, mas não apareciam no procedimento oficial.
Segundo os investigadores, era nesse espaço informal que surgiam as negociações.
“Vou puxar seu RIF”
Para explicar como funcionava a pressão sobre os alvos, uma fonte que acompanha o caso descreveu um exemplo típico usado pelos policiais.
A partir do relatório financeiro de um investigado, policiais identificariam pessoas que haviam feito qualquer tipo de transação com ele, até mesmo pagamentos legítimos. Essas pessoas eram chamadas para depor. Durante a conversa, segundo a fonte, surgia a ameaça “vou puxar o seu RIF também”.
A frase servia para sugerir que a vida financeira do convocado poderia ser examinada em detalhe. Segundo a fonte, a mensagem implícita deixava claro que, se os policiais resolvessem aprofundar a análise, sempre seria possível encontrar algum ponto para questionamento.
Era nesse momento que surgiam as propostas para “resolver” o problema.
Negociações e valores
Conversas analisadas indicam que valores para encerrar investigações eram discutidos entre intermediários e pessoas ligadas aos investigados.
Em um dos diálogos mencionados no material da investigação, um advogado afirma ter analisado o relatório financeiro do caso e diz que havia movimentações relevantes. O mesmo interlocutor relata ter conversado com um escrivão da delegacia — apontado na investigação como Ciro Borges Magalhães Ferraz.
Segundo o relato, policiais teriam mencionado a possibilidade de cobrar R$ 700 mil para encerrar a questão. O valor acabou sendo reduzido durante a negociação.
Em outra conversa analisada na investigação, o interlocutor afirma que conseguiu baixar a cobrança. “Eu baixei pra um valor pequeno… foi um ‘cenzão’”. A referência seria a R$ 100 mil, segundo a interpretação dos investigadores.
O papel dos intermediários
A investigação também aponta a atuação de intermediários que ajudavam a negociar os pagamentos. Em um dos diálogos analisados, o advogado Guilherme Sacomano Nasser afirma que tinha proximidade com o delegado responsável pelo caso, identificado no processo como João Eduardo da Silva.
Segundo a transcrição incluída na investigação, ele diz que o policial seria seu “parceiraço”, o que lhe permitiria tratar diretamente do problema. Na conversa, ele relata ter conseguido reduzir o valor exigido pelos policiais e sugere que o pagamento resolveria a situação.
O documento da PF diz que o pagamento teria sido feito para evitar o avanço da investigação envolvendo empresas e pessoas citadas no relatório financeiro.
Investigadores viraram investigados
O caso ganhou força após a análise de celulares apreendidos em uma investigação sobre lavagem de dinheiro ligada a operadores que simulavam importações para enviar recursos ilegalmente ao exterior.
Segundo a PF, o grupo criava diversas empresas de fachada para movimentar valores e ocultar a origem do dinheiro.
Durante a perícia nos aparelhos, apreendidos em novembro de 2023, investigadores encontraram conversas que mencionavam pagamentos a policiais civis e tratativas envolvendo delegacias de São Paulo, incluindo contatos com o escrivão Ciro Borges e outros servidores da instituição.
Essas mensagens levaram à abertura de uma nova frente de investigação, desta vez, voltada à atuação de policiais.
Ação conjunta
O material reunido ao longo da apuração levou à operação conjunta realizada nessa quinta-feira (5/3). Segundo os investigadores, o caso revela um esquema que explorava justamente as ferramentas criadas para combater crimes financeiros.
Relatórios do Coaf, intimações policiais e investigações formais — todos instrumentos legítimos — teriam sido usados para montar um sistema paralelo de pressão.
Agora, a investigação federal tenta esclarecer até que ponto esse mecanismo foi usado dentro da estrutura da Polícia Civil de São Paulo e, também, se a frase “vou puxar seu RIF” era apenas um argumento isolado, ou parte de um método recorrente para transformar investigações em moeda de negociação.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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