Papeando com Raoul Peck

Minha Vida Literária/Reprodução
1984, George Orwell

Sentou na biblioteca do Sesc Bom Retiro. O filme e o debate só começariam em uma hora. A briga com Liz. Estavam na casa dela, ele e uns amigos. Ela começou dizendo, dizendo não, gritando, que o governo iria taxar o Pix, Rincón respondeu que isso era fake news requentada do Nikolas Ferreira. A primeira vez que o deputado fez isso, por sinal, beneficiou as fintechs que, depois, foram alvos de investigação da Polícia Federal por suas relações com o PCC. O marido dela concordou porque ele também era antipetista –  mas só votava em bolsonarista no segundo turno.

A partir daí Liz começou a marcar Rincón como se fosse o Junior Baiano. Quando o parabenizaram pela entrega do mestrado, ela falou: “mestrado é fácil, quero ver fazer doutorado”. Quando disse que amou a peça “O Céu da Língua”, do Gregório Duvivier, ela tascou: “Mais um petista que ganha dinheiro com Lei Rouanet!”. O marido de Liz apareceu e disse: “Para de ser chata amor, deixe o Rincón em paz”.

Foi o marido ir até a cozinha e Liz voltou a dizer, “vai taxar o Pix sim, você vai ver”, “Isso é fake news, posso provar”, “Para de defender ladrão, só sabe isso”. Rincón pegou o celular, deu um google e ofereceu o telefone para Liz. “Leia por favor, chega de cair em mentiras, pesquise para ter certeza”. Liz deu um tapa no telefone, que caiu no chão e rachou a tela – de proteção, felizmente. O marido de Liz ficou puto com a cena e disse que não faria mais festas em casa.

A raiva ainda pairava em seu peito enquanto andava pela biblioteca do Sesc. Passou pelas revistas e jornais – quanto tempo não abria um jornal? E ficaria mais um tempo sem ler porque logo brilhou em uma estante uma edição de 1984, do George Orwell. Leu na adolescência, no Ensino Médio, mas os anos passaram e o livro parecia cada vez mais atual. Lembrava do lema do partido: “Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força, Guerra é Paz”. E era por isso que estava ali, iria assistir ao filme “Orwell 2+2=5″, e o debate era com o diretor do documentário, o haitiano Raoul Peck. A obra une a biografia de Orwell, a história do livro e as ameaças do fascismo. Sentou em uma poltrona e começou a folhear a obra.

“Dizem que esse livro é muito bom”. Olhou para o lado e quase pulou da poltrona ao reconhecer Raoul Peck. “Sou muito fã do seu trabalho, assisti a “Eu não sou seu Negro” umas dez vezes, indiquei ou assisti de novo com muitos amigos. Comecei a ler James Baldwin. Sempre que alguém fala sobre racismo, recomendo”, “Esse filme circulou pelo mundo inteiro, vi que em alguns países as pessoas começaram a discutir a sua própria história. Na Austrália, falou-se dos aborígenes. Disseram que em Portugal cresceu a discussão sobre a herança colonial.  Mas na França muita gente disse: “Isso é um problema americano. Foi por isso que fiz “Extermine todos os Brutos”. Um dos grandes problemas é que todas as civilizações cortam a relação com a sua história de origem ou inventam uma nova”

“Exatamente, é o que acontece no Brasil, recontaram a história da ditadura militar, recontaram a história da escravidão. Hoje torcem os sentidos das palavras, atacam a democracia, tem gente que acredita que a gente vive em uma ditadura da toga”, “Todos os instrumentos que o Orwell nos demonstrou estão no mundo, estão no Brasil. O extremismo, as mentiras, o uso da propaganda, o ataque à Justiça, às universidades, à imprensa, o culto à personalidade: são todas essas coisas que deveriam nos despertar e nos fazer perceber que a democracia é algo pelo qual você tem que lutar”, “E com as fake news e as redes sociais impulsionando tudo descaradamente” , “Basicamente, todo mundo se tornou consumidor e anônimo, e eles não sabem, em primeiro lugar, o que é verdade ou não, porque a maioria das pessoas não vai atrás da origem do que recebe”, “Exatamente, exatamente”” e Rincón aproveitou e descarregou todo seu ressentimento com Liz. Quando terminou sentiu uma baita vergonha, por que estou contando isso para o Peck?, pensou

Peck olhou para o livro e falou: “Concordo com o que Orwell disse. Há muita gente que não se posiciona, que não para pensar sobre o que está acontecendo. Donald Trump, não é algo que surgiu do nada, o colapso não é Donald Trump. Trump é a aceleração. Isto vem de longe: Clinton, Tony Blair, Berlusconi, Sarkozy. As pessoas não querem ver. Foi uma degradação lenta, ao longo de quarenta anos”, “Sim, dá pra dizer que começou com Thatcher e Reagan, também, não?”

Peck continuou: “A maioria das pessoas no mundo sabe que precisa agir, caso contrário, morrerá. É por isso que Orwell dizia que, se há esperança, não há determinismo. Será uma questão do que você decidir individualmente ou coletivamente. Você coloca seu corpo na frente do perigo ou você simplesmente se esconde ou diz: “Não é problema meu?”. Mas a história continuará”. Alguém veio chamá-lo para a sessão e ele completou: “E a última coisa: Orwell dizia que não existe neutralidade. Dizer que não sabe ou não se importa também é uma posição política”.

Peck levantou e Rincón ficou paralisado. Refletia sobre a profundidade daquelas palavras. Ao longe, viu o marido de Liz na fila para entrar no filme, Foi cumprimentá-lo, quando chegou perto ele disse “Puta que o pariu, não vai falar pra Liz que vim ver este filme Rincón”

 

Trechos de entrevistas de Raoul Peck ao Estadão e ao C7nema.net

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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