
Prestes a completar 30 anos de atuação no Corpo de Bombeiros do Distrito Federal (CBMDF), Elaine Canguçú, 49 anos, se despediu da corporação no início deste ano, em fevereiro, levando consigo uma trajetória inesquecível.
Nascida em São Paulo, mudou-se diversas vezes durante a infância e adolescência por causa do trabalho do pai, que atuava em uma grande construtora. A família veio para Brasília durante a expansão do aeroporto da capital. Apesar da carreira que construiu, o sonho inicial era outro: “Na realidade, eu queria ser professora de inglês”, lembra.
Elaine entrou para a corporação muito jovem, aos 19 anos. Foi a mãe quem insistiu para que ela prestasse o concurso para o Corpo de Bombeiros. Elaine decidiu “tentar por tentar”, sem imaginar que passaria. O dia da prova quase terminou antes mesmo de começar: ela acordou atrasada e correu para chegar ao local do exame.
“Eu estava super atrasada, indo a pé, quando cheguei na parada passou uma van chamando para o concurso. Assim consegui chegar”, conta.
História dentro da corporação
Elaine foi aprovada no concurso e ingressou na corporação em 1995, integrando a terceira turma de mulheres do Corpo de Bombeiros. A agora aposentada compartilha que naquele período a presença feminina ainda era pequena. Segundo ela, eram poucas as mulheres na formação e a convocação era separada por gênero.
“Éramos quase ninguém. Algumas mulheres iam lá dar boas-vindas”, recorda.
Durante a maior parte da carreira, Elaine atuou na área operacional, como socorrista em atendimentos de emergência. Nos últimos 10 anos antes da aposentadoria, passou a atuar em funções de gestão, assumindo funções como organização de escalas para evitar falhas no atendimento e realização de palestras em escolas.
Ao longo dos anos, no entanto, ela percebeu o crescimento da participação feminina na corporação. Mesmo com o avanço da presença feminina, Elaine afirma que as mulheres sempre precisaram provar a própria capacidade: “Sempre tivemos que provar que somos capazes. Se você não está preparada, você desfalca a equipe, e assim é com os homens também”, afirma.
Entre as muitas ocorrências atendidas ao longo da carreira, uma em especial ficou marcada em sua memória. O caso aconteceu em um Dia das Crianças, durante o período de “saidão” de presos.
Segundo Elaine, um homem que havia saído temporariamente da prisão, perdeu o controle do carro enquanto fazia manobras, o famoso “cavalinho de pau”, e acabou invadindo um beco entre casas, e assim, atingindo várias crianças que ali brincavam.
Os médicos disseram que uma delas não ia sobreviver. A mãe estava aos pés da bombeira, chorando. Ela conta que, ao voltar para a viatura após o atendimento, não conseguiu conter a emoção: “Quando cheguei na viatura, comecei a chorar. Como mãe, me sensibilizou ainda mais.”
Família e a vida pós-aposentadoria
Mãe de dois filhos, de 23 e 14 anos, Elaine diz que já vinha se preparando para a aposentadoria. Para deixar o serviço, foi necessário completar 30 anos de tempo efetivo como bombeira, além do período adicional exigido para se aposentar.
“Senti falta. Falta da rotina”, compartilha. Após anos conciliando a profissão com as responsabilidades de casa, ela agora tenta aproveitar o tempo de forma diferente.
“O serviço dobrado da casa continua, mas agora tenho mais tempo para fazer coisas para mim. Não tenho pressa”, diz. Entre os novos planos estão estudar idiomas. Elaine já começou aulas de espanhol e pretende aprender francês.
Ela também conta que, ao passar por alguns lugares do Distrito Federal, ainda se lembra das ocorrências que atendeu ao longo da carreira. Apesar dos desafios vividos, a bombeira afirma que a profissão deixa marcas profundas em quem escolhe seguir esse caminho. “É um serviço muito cansativo, estressante, mas quem faz se apaixona.”
No Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, Elaine deixa uma mensagem para outras mulheres que desejam seguir profissões tradicionalmente ocupadas por homens.
“A mulher pode estar em qualquer lugar que deseja estar. Eu fiz qualquer serviço que qualquer homem faz na corporação. Tem que querer e fazer o seu melhor.”
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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