
Minutos depois de a soldado da Polícia Militar (PM) Gisele Alves Santana, de 32 anos, ser baleada dentro do apartamento onde morava com o marido, no último dia 18, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, ligou para o telefone de emergência 190 e relatou que a esposa havia se matado com um tiro na cabeça.
O áudio da ligação, obtido pela reportagem, mostra o oficial se identificando logo no início da conversa, em tom calmo e controlado, como integrante da corporação (ouça abaixo).
“Alô. Bom dia. É tenente-coronel Neto. Eu sou do CPA M5 [Comando de Policiamento de Área Metropolitano 5]. Estou na Rua Domingos de Paiva, 152, no Brás”, diz ele à atendente.
Poucos segundos depois, o oficial descreve o que teria ocorrido.
“A minha esposa é policial feminina. Ela se matou com tiro na cabeça. Manda o resgate, uma viatura aqui agora, por favor”.
A conversa segue em tom quase protocolar. O oficial responde às perguntas, confirma endereço, fornece o registro funcional e diz que a vítima era soldado da Polícia Militar.
Até o momento, o tenente-coronel consta como “parte” na investigação. A defesa dele não foi encontrada. O espaço segue aberto para manifestações.
“Ela deu um tiro na cabeça”
Em determinado momento da ligação, a atendente pergunta se ele havia verificado a respiração da mulher. A resposta do coronel indica que a vítima ainda apresentava sinais de vida, apesar de ele já ter afirmado que ela teria se matado. “Ela tá muito ruim, ela deu um tiro na cabeça. Manda o resgate logo”, respondeu o oficial.
A sequência chama atenção porque, no mesmo telefonema, o oficial afirma inicialmente que a esposa “se matou”, mas logo depois pede socorro afirmando que ela ainda estava em estado grave.
Outro tom ao falar com os bombeiros
A reportagem também teve acesso à ligação feita pelo oficial ao 193, dos bombeiros, realizada logo após o contato com a Polícia Militar.
No áudio, o tom de voz do coronel aparece diferente daquele ouvido na conversa com o 190. Se na chamada à PM ele fala de forma mais controlada e protocolar, no contato com os bombeiros a fala é mais tensa e emocional, com pausas e expressões de desespero (ouça abaixo).
A mudança de entonação ocorre justamente quando ele descreve a situação da esposa e insiste na necessidade de socorro imediato. Em vez da narrativa mais objetiva usada na ligação à PM, o oficial demonstra maior aflição ao relatar o quadro da vítima e ao pedir rapidez no atendimento.
Os dois áudios passaram a integrar o conjunto de elementos analisados por investigadores que tentam reconstruir a sequência de acontecimentos dentro do apartamento naquela manhã.
Intervalo entre o tiro e a ligação
De acordo com os registros da ocorrência, o telefonema para o 190 foi feito entre as 7h57 e 8h01. Uma vizinha que mora no mesmo andar do casal relatou à polícia ter sido acordada por seus cachorros às 7h28, atribuindo os latidos ao susto que levaram após ouvirem um forte estrondo que, segundo ela, teria sido o disparo da arma de fogo.
Se os horários forem confirmados, o intervalo entre o tiro e o pedido de socorro teria sido de aproximadamente 29 minutos.
Socorro e morte no hospital
Após o acionamento das equipes de emergência, Gisele foi socorrida em estado gravíssimo e levada pelo helicóptero Águia da PM ao Hospital das Clínicas, na zona oeste paulistana.
Ela morreu às 12h04, segundo o atestado de óbito obtido pela reportagem, que aponta como causa da morte traumatismo cranioencefálico grave provocado por ferimento de arma de fogo.
Contradições e dúvidas na investigação
O caso passou a levantar suspeitas entre investigadores e profissionais que estiveram no local desde os primeiros momentos.
Entre os pontos que chamaram atenção, estão a versão apresentada pelo coronel de que a esposa teria cometido suicídio, o intervalo de cerca de meia hora entre o disparo ouvido por vizinhos e o pedido de socorro, além do fato de nenhuma cápsula de munição ter sido localizada dentro do apartamento.
Também chamou atenção dos investigadores a circunstância de a arma encontrada na mão da vítima pertencer ao próprio oficial, além da forma com a qual foi encontrada na mão da policial. Depoimentos colhidos pela Polícia Civil e pela Corregedoria da PM apontam ainda inconsistências no relato inicial apresentado pelo militar sobre o que teria ocorrido no imóvel.
Avanço das investigações
Diante das dúvidas sobre a dinâmica da morte da policial, a Justiça autorizou a exumação do corpo de Gisele Alves Santana, medida considerada fundamental para esclarecer se o disparo foi compatível com suicídio ou se há indícios de outra causa.
O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto solicitou afastamento das funções enquanto as apurações seguem em andamento.
O caso é investigado pela Polícia Civil e acompanhado pela Corregedoria da PM.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

Deixe um comentário