
O Brasil tem uma curiosa vocação: transforma problema estrutural em debate ideológico e chama isso de “projeto de nação”. Enquanto discutimos narrativas, os números — esses seres frios e antipáticos — seguem trabalhando. E os números contam uma história menos poética: gasto público comemorado e crescente, déficit recorrente, dívida robusta, premiação do ócio e juros que castigam quem ousa produzir.
O pior de tudo é que os nossos dirigentes querem ser uma Cuba que não mais existe e que foi destruída pelo mesmo processo que pensam implantar por aqui. Os cubanos que vieram morar conosco, já começaram a chorar com a incrível semelhança.
Comecemos pelo básico, porque economia nunca foi palavrão. Quando o governo gasta mais do que arrecada, surge o déficit. Déficit repetido vira dívida. Dívida crescente exige juros maiores para convencer alguém a financiá-la. Juros maiores encarecem crédito, travam investimento e destroem salários. É um dominó sofisticado, embalado em seda atraente… e muito cruel.
Há ainda um conceito pouco popular nas rodas de bar, mas decisivo no destino das nações: dominância fiscal. Traduzindo sem economês: é quando a política de gastos do governo começa a mandar na política monetária. O Banco Central, aqui esculhambado pelo TCU, sobe juros para conter inflação, mas o rombo fiscal neutraliza o esforço. É como enxugar gelo com secador ligado no máximo.
Roberto Campos alertava que populismo econômico é caro e cobra juros compostos. Parece piada, mas é matemática. Já Mário Henrique Simonsen repetia que inflação não é acidente, é escolha. Quando o Estado promete tudo a todos, a conta aparece para cada um. Por aqui está virando política de Governo.
“Ah, mas o nosso Brasil é grande demais para quebrar.” Verdade! Economias grandes demoram mais para entrar em colapso. O problema é que também demoram mais para sair da estagnação. O empobrecimento brasileiro não chega com sirene de bombeiro; chega com silêncio de cemitério. Ele aparece na produtividade que não cresce, no investimento que hesita e na renda que patina na manteiga de garrafa e no KY.
E então entramos na segunda parte da equação: o ambiente institucional. O chamado Custo Brasil não é folclore. É burocracia excessiva, insegurança jurídica, sistema tributário labiríntico, regras que mudam no meio do jogo. É a cruel e crescente sensação de que empreender aqui exige mais computadores, advogados e contadores que engenheiros e trabalhadores da construção.
Quando a regra tranca a porta, o capital voa — pela janela. Empresas redirecionam investimentos, fábricas escolhem outras geografias, startups nascem com endereço estrangeiro. E, nos últimos anos, um fenômeno ganha força simbólica: a saída de jovens brasileiros para estudar e trabalhar no Paraguai. Os paraguaios esperam o erro brasileiro e constroem o óbvio. Não dá pra errar.
Não é apenas turismo acadêmico. É cálculo racional. Menos burocracia, carga tributária mais simples, custo operacional menor. Quando o jovem atravessa a fronteira, o PIB atravessa junto e sem saudade. Porque ele leva consigo o que o Brasil mais precisa: capital humano e juventude para pagar os milhões de lesados aposentados.
Capital humano não se imprime em gráfica oficial. Forma-se com educação, experiência e ambição. Quando essa energia encontra menos barreiras do lado de lá da ponte, algo precisa ser revisto do lado de cá…urgentemente.
A Venezuela mergulhou no populismo financiado por petróleo. Cuba sufocou sob planejamento central rígido. O Brasil não está nesse ponto — mas flertar com atalhos fiscais permanentes é brincar com fósforo em depósito de álcool, bebendo caipirinha 24 horas por dia.
O debate, portanto, não é ideológico; é pragmático. Queremos crescer ou distribuir estagnação? Queremos competir ou nos consolar? Queremos ser Cuba ou Beijing?
Três reformas objetivas poderiam mudar a trajetória: 1- Âncora fiscal real e “acreditável”, com controle efetivo de gastos e metas transparentes. Sem contabilidade criativa tropical. 2-Simplificação tributária profunda, reduzindo litígios e custos de conformidade. 3- Fortalecimento da segurança jurídica, com respeito a contratos. Não é glamour, é fundamento.
O Brasil tem talento, mercado e recursos naturais. O que falta é coerência. Crescimento não é decreto; é consequência. E a consequência depende de escolhas certas e conjuntas.
Enquanto discutimos slogans e narrativas, nossos jovens fazem as malas. E, convenhamos, nenhum país prospera exportando sua melhor safra humana e dinamitando as próprias escolas e universidades.
Empobrecer é um processo lento — até virar rotina. E rotina, meu caro, honrado e elegante leitor, é a forma mais discreta de decadência. O mundo se impressiona com o grau de corrupção que atingiu o Brasil. Os nossos amigos brasileiros que moram na Europa e nos Estados Unidos, assim nos perguntam, diariamente, sobre vários temas: Isso é verdade?
A pergunta não é “quanto falta para chegarmos lá”. A pergunta é: vamos corrigir a rota enquanto ainda temos combustível? Vamos vender para a China sem brigar com os Estados Unidos?
Porque, no fim das contas, quando o futuro decide emigrar, o presente precisa fazer autocrítica.
Roberto Caminha Filho, economista, não aceitou ser o primeiro a cruzar a ponte, sem olhar pra trás, mas não será o terceiro.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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