
*O artigo foi escrito pelo professor Cássio Cardoso Pereira, da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), e publicado na plataforma The Conversation Brasil.
Numa pesquisa recente realizada pela nossa equipe de ecologistas, conseguimos documentar, pela primeira vez, uma jaguatirica (Leopardus pardalis) arrastando a carcaça de um bezerro recém-nascido em um fragmento florestal degradado no sudeste do Brasil.
Ao apresentar evidência direta de tal comportamento, esse registro inédito amplia o entendimento sobre a ecologia alimentar da espécie em paisagens fortemente modificadas pela atividade humana.
O registro foi feito por meio de armadilhas fotográficas em um mosaico entre Cerrado e Mata Atlântica no município de Caeté, Minas Gerais, e foi publicado em um artigo na revista internacional Biotropica.
Um felino regulador do ecossistema
A jaguatirica é um predador de médio porte com dieta variada e papel relevante na regulação das cadeias alimentares. Alimenta-se de pequenos mamíferos, aves, répteis e até insetos, adaptando sua dieta ao que está disponível no ambiente. Ao controlar populações de presas, ajuda a manter o equilíbrio ecológico e evita o aumento excessivo de determinadas espécies, o que contribui para a estabilidade dos ecossistemas onde vive.
Em regiões onde grandes predadores, como a onça pintada e a onça parda, foram reduzidos ou localmente extintos, pode ocorrer aumento na influência ecológica de predadores de médio porte, como a jaguatirica. Um fenômeno conhecido como “liberação de mesopredadores”.
Na prática, isso significa que a jaguatirica pode se tornar mais abundante e exercer maior pressão sobre suas presas, reduzindo populações de pequenos vertebrados e alterando a dinâmica ecológica local. Essas mudanças podem repercutir em toda a cadeia alimentar, afetando desde a regeneração da vegetação até a diversidade de outras espécies.
Registro em vídeo
Em paisagens fragmentadas, onde pastagens e remanescentes florestais se sobrepõem, interações desses predadores com animais domésticos podem se tornar mais prováveis, especialmente quando há indivíduos vulneráveis.
Foi o que observamos no registro em vídeo que fizemos. Nas imagens do vídeo, observamos, primeiramente, a vaca logo após o parto, com sinais evidentes de nascimento recente.
Ela aparece com o bezerro recém-nascido. Na cabeça do filhote, o vídeo mostra um morcego-vampiro (Desmodus rotundus) se alimentando, indicando o estado frágil e vulnerável do animal. Horas depois, o bezerro aparece debilitado e sozinho.
As armadilhas fotográficas também fizeram registros de outros animais que passaram por ali: um gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris) e uma Saracura-três-potes (Aramides cajaneus), ambos presas típicas da jaguatirica. Essas imagens demonstram que a área florestada fornecia recursos alimentares adequados para a espécie de felino.
Na noite seguinte, registramos um macho adulto de jaguatirica no local e arrastando a carcaça do bezerro, aproximadamente 11 minutos após o primeiro registro do predador. Depois de se afastar com a caraça, a jaguatirica retorna ao local, indicando o comportamento de transportar a carcaça para uma área segura, onde o consumo provavelmente ocorreu de forma fracionada.
Embora não possamos afirmar se o animal matou o bezerro ou se aproveitou de uma carcaça já existente, o episódio evidencia o comportamento oportunista da espécie e sua capacidade de explorar recursos energeticamente vantajosos.
Registrar esse tipo de interação em vídeo é particularmente relevante porque fornece evidência direta e rara do uso de presas de grande porte por um predador de médio porte em condições naturais. Esse registro amplia nosso entendimento sobre a flexibilidade ecológica da jaguatirica e ajuda a refinar hipóteses sobre suas interações com a fauna nativa e com atividades humanas, como a pecuária.
Equilíbrio entre fauna silvestre e pecuária
Em um cenário de paisagens cada vez mais modificadas, evidências como essa são essenciais para qualificar o debate público e embasar estratégias de manejo e conservação mais eficazes.
Medidas simples de manejo podem reduzir potenciais conflitos entre fauna silvestre e pecuária. Estratégias como o confinamento temporário de recém-nascidos, cercamento adequado e monitoramento contínuo ajudam a minimizar perdas e evitar respostas negativas contra a fauna nativa.
Ao evidenciar, com registro direto, a flexibilidade alimentar e o comportamento oportunista da jaguatirica em paisagens produtivas, o estudo mostra como a espécie utiliza recursos disponíveis em ambientes modificados.
Essas evidências podem contribuir para um debate baseado em evidências científicas, reforçando a importância do monitoramento por armadilhas fotográficas e da conservação de remanescentes florestais para equilibrar produção rural e conservação da biodiversidade.![]()
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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