
À medida em que sua saúde definha, o que o obriga a internações urgentes em hospitais em espaços de tempo cada vez menores, onde o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de prisão, estaria mais bem assistido?
Na sua casa, aos cuidados da família? Ou na ala VIP do Complexo Penitenciário da Papuda, também conhecida como Papudinha? Não vale responder que ele correria menos risco de morte em um hospital, e que ali deveria cumprir sua pena.
São os próprios médicos particulares de Bolsonaro que o internam e dão alta. Se dão alta é porque não há mais necessidade de ele permanecer internado. Portanto, Bolsonaro poderá voltar à Papudinha, ou então, se a Justiça assim decidir, à sua casa.
De volta à pergunta: onde será mais bem assistido?
Resposta: na Papudinha, onde dispõe de atendimento médico 24 horas por dia, ambulância na porta, e batedores em motocicletas para interromper o trânsito e tornar mais rápida uma eventual e transferência às pressas para qualquer grande hospital de Brasília.
Desses privilégios, ele simplesmente não iria dispor em casa. Mantê-lo preso em casa, e seguro, sairia mais caro para o Estado brasileiro. Vai que ele tenta fugir mais uma vez… Pior: vai que dribla a vigilância da Polícia Federal e consegue fugir…
Bandido bom não é bandido morto, seja ele um preso comum ou especial. Bandido bom é bandido preso, submetido aos ditames da Justiça, mas com todos os seus direitos garantidos. Os cárceres do Brasil hospedam cerca de 755 mil presos.
Segundo um estudo de 2023 divulgado pelo Conselho Nacional de Justiça, 112 mil brasileiros morreram atrás das grades entre 2017 e 2021. Desse total, 62% acometidos por doenças como insuficiência cardíaca, infecção generalizada, pneumonia e tuberculose.
Na última sexta-feira, o senador Flávio “Rachadinha” Bolsonaro disse que “estão brincando com a saúde” do seu pai. No sábado, sugeriu que a prisão em regime fechado submete o líder do golpe abortado em 8 de janeiro de 2023 ao risco de morte:
“O doutor [Leandro Echenique] me falou: ‘Flávio, mais uma vez, teu pai escapou por pouco. Porque, se ele ficasse mais uma ou duas horas lá no 19º Batalhão [Papudinha] e não fosse levado ao hospital, ele tinha grandes chances de se complicar.’”.
Escapou graças ao zelo e ao pronto atendimento da equipe médica de plantão na Papudinha. Escapou apesar do descuido de Bolsonaro com a saúde. Na noite da quinta-feira, ele teve mais uma crise de soluço. A médica Ana Cristina Neves o socorreu.
Eram 20h40 e a médica estava acompanhada de uma enfermeira. Na tarde daquele dia, Bolsonaro caminhou cinco quilômetros sem se queixar de nada. A médica registrou que ele estava “lúcido e orientado”, com “a respiração normal, tranquila.”
Sua dieta teve “boa aceitação”. Assistia a uma partida de futebol na TV. Por precaução, a médica recomendou que ele tomasse um remédio para atenuar os soluços. Bolsonaro disse que só o o faria “após o jogo”.
A equipe médica da Papudinha foi acionada novamente às 6h45. Bolsonaro relatou que sentira “náuseas e tremores” de madrugada, por volta das 2h. Negou que tivesse padecido de vômitos, falta de ar, coriza ou dificuldades respiratórias.
Examinado, estava com febre de 38,7ºC e baixa saturação, de 82%. Recusou-se a receber medicação na veia. Tomou três remédios por via oral: um antitérmico, um para enjoo e outro para apressar o esvaziamento gástrico. Decorridos dez minutos, a febre aumentou.
O percentual de saturação, que mede o nível do oxigênio transportado pela hemoglobina na corrente sanguínea, bateu em 86%. A equipe providenciou suprimento extra de oxigênio. Às 7h45, requisitou sua remoção urgente para um hospital.
Avisado, um dos médicos particulares de Bolsonaro, Brasil Caiado, foi até a Papudinha. Endossou a remoção. Às 8h22, a transferência foi iniciada. Bolsonaro chegou ao DF Star às 8h55.
Foi diagnosticado com broncopneumonia bacteriana por aspiração —uma infecção pulmonar que ocorre quando saliva, alimentos, líquidos ou vômito entram na traqueia e chegam aos pulmões, em vez de irem para o esôfago. Internado na UTI, recupera-se.
Bolsonaro nunca cumpriu com rigor as ordens médicas. Desde a facada que levou em setembro de 2018, passou por nove cirurgias e acumulou dezenas de internações, com quadros recorrentes de obstrução intestinal e aderências abdominais.
Um dia morrerá como qualquer um de nós. Mas que tenha vida longa para pagar por todos os seus erros.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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