
Estava a agradecer e a elogiar um café que tínhamos acabado de beber e o barista, apesar de o café estar vazio, pediu-me para transformar aquele elogio num comentário escrito.
Recusei e ficámos mais ou menos zangados. Mas, quando voltámos lá, veio logo ter connosco. E explicou-nos o seguinte, com fria honestidade.
Hoje em dia, só o que fica escrito é que tem importância. Um like ou um follow tem valor. Um elogio falado, por muito longo e sincero, não vale nada.
Então está bem, disse eu, passarei a escrever.
“Não, não”, disse ele, quase a rir-se do meu medievalismo galopante, “também não vale a pena escrever, porque ninguém vai ler”.
As pessoas que avaliam o êxito das coisas, e usam essas avaliações para tomar decisões de investimento, não ligam ao que está dito.
Ligam aos números. Transformam qualquer opinião num número, de 0 a 100, em que 0 é ódio e 100 é amor.
Limitam-se a contar, com crescente sofisticação, o número de seguidores, o número de opiniões positivas e negativas e números que não lembram ao Diabo, como o número de clientes que não tugiu nem mugiu, porque não disse nem deixou nada.
Este número é tão determinante que certos contadores preferem que alguém deixe uma avaliação levemente negativa a não deixar nada.
É como aqueloutro empreendimento em que transformam as nossas opiniões profundas e longamente pensadas em números: as eleições.
Também aí gostam mais que votemos em branco do que não ir votar. E preferem que votemos no partido mais extremista do que em branco.
Faz rir este desequilíbrio. Por um lado, cada um de nós acha que a nossa opinião é importante, e que fazemos um favor quando a partilhamos. Mas, por outro, somos apenas mais um cliente.
As empresas de Internet não nos vendem aos cem mil de cada vez? Somos muito ciosos dos nossos dados mas a verdade é que só se tornam apetecíveis quando fazem parte de uma cabazada.
É uma arte reduzirmo-nos à nossa significância — e poder estudar para ser lacrau.
(Transcrito do PÚBLICO)
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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