
Moradores de São Paulo têm reclamado da sujeira provocada pelos canteiros de obras espalhados pela cidade. A infinidade de empreendimentos imobiliários deixa um rastro de lama e concreto pelas ruas. Quando o asfalto é lavado ou chove forte, essa mistura acaba nas bocas de lobo e nas galerias de água pluviais, prejudicando a drenagem urbana.
O Metrópoles conversou com vizinhos de obras em diversas regiões da cidade e, entre as reclamações, as ruas emporcalhadas chamam a atenção.
O publicitário Luciano Menezes, 42 anos, notou uma relação entre obras e aumento nos alagamentos em algumas regiões. “Comecei a reparar que quase todas tinham marcas de concreto entrando nos esgotos pluviais”, diz. Em uma filmagem na Avenida Angélica, na região central, Menezes mostra concreto escorrendo para uma boca de lobo.
Entre a Vila Mariana e a Aclimação, na zona sul, mais de 20 casas foram demolidas e dois quarteirões e meio praticamente desapareceram do mapa para a construção de prédios na Rua Dona Avelina. Os moradores têm notado a sujeira na rua, seja por barro ou concreto. O rastro chega a se prolongar por até quatro quadras a partir do canteiro.
Uma professora que mora na região, e que preferiu não se identificar, publicou uma série de vídeos no perfil “Chega de Prédios”, mostrando a situação. “A gente tem brotos d’água nas calçadas, água de lençol freático sendo jogada nas sarjetas. O que acontece muito também é que as construtoras despejam muito barro e concreto nos bueiros”, diz.
A moradora também afirma que o Córrego Pedra Azul está sendo poluído. Como a água escorre para o lago do Parque da Aclimação, distante cerca de um quilômetro, isso se refletiria na mortandade de peixes no local.
A professora diz que a região está no corredor verde entre os parques da Aclimação e do Ibirapuera, com a vegetação sendo suprimida pelas obras. “Árvores adultas, frutíferas. A gente percebeu a diminuição do número de pássaros, de insetos polinizadores. Percebemos diferença no ar e na luminosidade”, afirma.
Em Moema, também na zona sul, a analista Andrea Ferreira, 33 anos, sofre com diversos problemas, entre eles a sujeira. “Temos muitas obras simultâneas. Os problemas são barulho das obras, caminhões betoneira bloqueando o tráfego, sujeira nas calçadas, rachaduras nas casas vizinhas e muita poeira”, diz.
Bueiros entupidos
A diretora Thatiana Victorelli, 47 anos, afirma que as obras no Paraíso têm causado transtornos que, anteriormente, não eram vistos. Cita, inclusive, água acumulada na esquina entre as ruas Mario Amaral e Teixeira da Silva.
“Em dias de chuva forte, a rua passou a ficar alagada por conta de um entupimento no bueiro exatamente nesse cruzamento. Nos últimos meses, dezenas de casas nesse quarteirão foram demolidas por duas incorporadoras, além da remoção de grandes volumes de terra e alterações no terreno”, diz.
Diante da situação, Thatiana entrou em contato com representantes da construtora responsável e, posteriormente, abriu chamado no 156 da prefeitura. “Em menos de 24 horas, recebi a resposta de que o órgão responsável, em nome da Eccos Ambiental, informou que manteria a programação de limpeza, agendada para junho. Ou seja, daqui a três meses”, diz. Ela entrou em contato também com a Ouvidoria da prefeitura.
Não são apenas os bairros do centro expandido que foram afetados pela sujeira das obras. Na Freguesia do Ó, na zona norte, o artesão Fabio Luiz dos Santos, 39 anos, convive há cerca de um ano com a lama na porta de casa, emporcalhando tudo.
“O que mais incomoda é que não dão o mínimo de atenção. Você não pode lavar o carro, sair com chinelo. Hoje está bom, porque a chuva lavou. Mas tinha barro aqui de formar crostas, como se fosse um aterro mesmo”, disse.
Multas
A Prefeitura de São Paulo diz que, só no ano passado, foram 372 autuações relacionadas ao “descarte de resíduos cimentícios e obstrução de galerias pluviais”. Neste ano, até o dia 6 de março, foram 45 multas.
Segundo a Secretaria Municipal das Subprefeituras, os valores das multas aplicadas podem ultrapassar os R$ 30 mil.
A prefeitura diz que as equipes de zeladoria e fiscalização atuam juntas na verificação de obstrução de galerias de águas pluviais.
“Durante a execução das atividades de limpeza de bueiros, quando identificada uma obstrução ou resíduos provenientes de obras, a fiscalização da subprefeitura é acionada. Um agente vistor vai até o local e lavrar a multa”.
A prefeitura afirma também que “é imprescindível o apoio da população e o munícipe pode denunciar anonimamente via SP156”.
Procurado, o Secovi-SP não se manifestou até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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