
A deterioração da avaliação popular e a perspectiva real de um choque inflacionário no horizonte levam a um diagnóstico amargo: o presidente Lula perdeu o controle da própria reeleição.
Em um cenário de empate eleitoral, onde a avaliação positiva do governo flutua no limite mínimo para manter a competitividade (32% de “ótimo e bom”) e os indicadores entre eleitores independentes despencando, um possível Lula 4 está completamente à mercê da conjuntura — e isso não parece bom.
Dada a lealdade ideológica que torna grande parte do eleitorado imune ao noticiário negativo, é fundamental observar o chamado eleitor “independente”.
Este é o público volátil, cujas convicções mudam conforme o rumo dos acontecimentos. Segundo a pesquisa Genial/Quaest, esse grupo compõe hoje 32% do eleitorado e, devido à forte polarização, tornou-se o segmento mais estratégico da disputa.
Uma análise estratificada mostra que a erosão da imagem presidencial nesse grupo é profunda. Enquanto a avaliação positiva (“Ótimo+Bom”) na média nacional oscilou apenas um ponto (de 32% para 31%) entre janeiro e março, entre os independentes a queda foi de quatro pontos, saindo de 18% para 14%.
A distância entre a média e o centro é nítida: se na média geral 44% dos brasileiros aprovam o governo, entre os independentes a aprovação é de apenas 33% — um gap de 11 pontos.
Para agravar o quadro, a rejeição — elemento que definiu a três últimas eleições — também piorou drasticamente para Lula em comparação a Flávio Bolsonaro. No plano geral, ambos estão tecnicamente empatados (Lula com 46% e Flávio com 45%). Contudo, entre os independentes, Lula é rejeitado por 57%, enquanto Flávio detém 42%. O petista viu sua rejeição saltar 8 pontos desde janeiro, enquanto o bolsonarista manteve-se estável.
Essa dinâmica transbordou para as intenções de voto no 2º turno entre o eleitorado independente:
]aneiro/2026: Lula 37% vs. Flávio Bolsonaro 21%
Fevereiro/2026: Lula 31% vs. Flávio Bolsonaro 26%
Março/2026: Lula 27% vs. Flávio Bolsonaro 32%
O governo necessitaria de uma “enxurrada” de boas notícias econômicas para reconquistar esse eleitor volátil. No entanto, o horizonte de curto prazo está complicado pela crise do Banco Master e pela ameaça real de um choque nos combustíveis.
Ainda que o Planalto se esforce para absorver a alta dos preços, há dúvidas sobre sua real capacidade de fazê-lo. O sucesso dependerá mais da duração e intensidade do conflito no Oriente Médio do que das medidas de desoneração do diesel já anunciadas.
Há, por fim, a percepção de que o governo paga o preço por ter abandonado o eleitor de centro. Ao privilegiar a esquerda no discurso — apostando em uma guinada ideológica baseada em guerra de classes e desdém pelos conservadores —, o governo isolou-se. Como observou a jornalista Vera Magalhães, há pouco tempo para correções de rota e a “caixa de ferramentas” parece vazia.
Com a isenção do IR não gerando o dividendo de popularidade esperado, o governo resta dependente da pauta da jornada 6×1 e da gestão de danos das crises em curso.
E como desgraça pouca é bobagem, tudo isso ocorre quando as principais lideranças políticas do governo se desincompatibilizam para concorrer ao pleito.
Assim, o país corre o risco de enfrentar um período de turbulência sem “pilotos”, com todas as decisões centralizadas em um Lula que precisará se desdobrar entre lidar com crises e fazer campanha.
Leonardo Barreto, doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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