16/03/2026 12:23, atualizado 16/03/2026 12:23
Embora a Zona Franca de Manaus (ZFM) seja o principal motor econômico do estado do Amazonas, o desenvolvimento da Amazônia envolve desafios que vão muito além do polo industrial instalado na capital.
Com mais de 1,5 milhão de km² de território e 62 municípios espalhados por áreas de difícil acesso, o estado enfrenta limitações históricas.
Em grande parte dos municípios do interior do Amazonas, a mobilidade ainda depende de longas viagens fluviais ou de transporte aéreo, o que encarece a logística e dificulta a integração econômica da região.
Esse cenário foi levantado por especialistas durante o talk “Vozes da Amazônia — Desafios e oportunidades para o Amazonas”, promovido pelo Metrópoles em parceria com o Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM).
O encontro reuniu o senador Eduardo Braga (MDB-AM); o presidente do Conselho Superior do CIEAM, Luiz Augusto Rocha; e o coordenador dos Diálogos Amazônicos e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Márcio Holland, que discutiram os desafios estruturais da região e apresentaram perspectivas para ampliar o desenvolvimento para além de Manaus.

Desigualdades regionais e vocações econômicas
O debate também trouxe à tona as desigualdades regionais dentro do próprio Amazonas.
Durante o evento, os participantes relataram experiências em municípios do interior, onde comunidades indígenas e ribeirinhas ainda enfrentam desafios logísticos e acesso limitado a serviços básicos.
O senador Eduardo Braga lembrou que cidades como São Gabriel da Cachoeira, na região conhecida como Cabeça do Cachorro, possuem características sociais e culturais muito distintas da capital, o que exige políticas públicas específicas de desenvolvimento.
“São Gabriel tem cerca de 90% da população indígena. O Amazonas é o estado com maior diversidade de etnias indígenas do Brasil. Precisamos desenvolver as vocações econômicas de cada região”, afirmou.
Entre essas vocações estão o turismo, a mineração e a bioeconomia— atividades que, segundo ele, dependem diretamente de infraestrutura adequada.
O parlamentar citou como exemplo a importância da manutenção do aeroporto de São Gabriel da Cachoeira para viabilizar o turismo e integrar o interior à economia regional.
“O desenvolvimento do interior depende de políticas públicas, infraestrutura e planejamento.”
Senador Eduardo Braga (MDB-AM)
Ele também ressaltou que não é possível atribuir à Zona Franca de Manaus a responsabilidade exclusiva pelo desenvolvimento de todo o interior do estado.

A geografia amazônica impõe desafios únicos, com deslocamentos que, muitas vezes, exigem horas de avião seguidas por longas viagens fluviais.
Para o professor Márcio Holland, porém, o problema da infraestrutura não é exclusivo da Amazônia, embora assuma proporções maiores na região.
“Infraestrutura afeta a produtividade da economia brasileira como um todo. O que existe na Amazônia é a necessidade de uma política orientada e planejada”, declarou.
Ele citou o fomento ao zoneamento econômico-ecológico como uma ação essencial para orientar investimentos sem comprometer a preservação ambiental: “O grande desafio é promover a interiorização do desenvolvimento mantendo a floresta em pé”.
Educação e inovação para uma nova economia
Outro ponto mencionado durante o debate foi o papel da educação e da inovação tecnológica na transformação da economia amazônica.
O presidente do Conselho Superior do CIEAM, Luiz Augusto Rocha, ressaltou que parte relevante da infraestrutura científica do estado é financiada pelos recursos gerados pela própria indústria.
Um exemplo é a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), presente em todos os 62 municípios do estado.
“Somente em 2025 foram cerca de 800 milhões de reais arrecadados pela indústria que sustentam essa universidade no interior do estado”, acrescentou.
Além disso, programas de pesquisa vinculados à Lei de Informática (Lei Nº 8.248) movimentam mais de R$ 4 bilhões em investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação.
O presidente do CIEAM destacou ainda a chegada de iniciativas de formação tecnológica, como a presença de um núcleo avançado do Instituto Militar de Engenharia (IME) na região.
Segundo ele, a formação de profissionais qualificados será decisiva para preparar o estado para novas oportunidades econômicas.

Oportunidades na economia digital
Entre as oportunidades apontadas está a expansão da economia digital. Os participantes citaram o potencial da Amazônia para abrigar data centers, estruturas fundamentais para o funcionamento da internet, da inteligência artificial e de serviços digitais.
Holland levantou que o avanço da inteligência artificial já representa uma transformação global. Ele citou o impacto recente da IA generativa e afirma que a Zona Franca não está isolada desse movimento.
“Estamos vivendo uma fase muito forte de inovação disruptiva. As empresas do Polo Industrial de Manaus são empresas globais e já estão inseridas nesse processo de inovação. Em pouco tempo surgiram várias plataformas e linguagens de inteligência artificial que já estão transformando processos produtivos.”
Márcio Holland, coordenador dos Diálogos Amazônicos e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV)
Essas instalações demandam grande quantidade de energia e água para resfriamento — recursos abundantes na região.
“Data centers são consumidores intensivos de água e energia. E todos sabemos que o Amazonas possui o maior rio do mundo”, ponderou Luiz Augusto.
Para ele, a combinação entre recursos naturais, inovação tecnológica e indústria pode posicionar a região como protagonista em novos setores da economia global.

Um modelo industrial em constante atualização
A capacidade de adaptação do modelo industrial também foi destacada durante o debate.
Para o senador Eduardo Braga, a Zona Franca de Manaus mantém a relevância justamente por combinar segurança jurídica com mecanismos que permitem atualização tecnológica constante.
Segundo ele, instrumentos como o Processo Produtivo Básico (PPB) — definido pela Lei n.º 8.387/91 — possibilitam que as regras de produção sejam ajustadas sempre que surgem novas tecnologias ou mudanças no mercado.
Na avaliação do senador, essa flexibilidade contribui para manter o polo industrial competitivo em escala internacional. “Hoje temos um dos parques industriais mais modernos em setores como duas rodas, eletroeletrônicos e bens de informática.”
Diante das transformações provocadas pela economia digital, os participantes do debate apontam que o desafio agora é garantir que o modelo da Zona Franca continue acompanhando as novas dinâmicas tecnológicas.
Para eles, a combinação entre indústria, inovação e recursos naturais pode abrir novos caminhos para o desenvolvimento da Amazônia nas próximas décadas.
Nesse contexto, a discussão sobre inovação reforça uma ideia recorrente ao longo do encontro:
A Zona Franca de Manaus não é apenas um polo industrial consolidado, mas um modelo em constante adaptação às transformações da economia global.
Assista o talk na íntegra:
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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