O que de fato estará em jogo nas eleições deste ano

Carla Sena/ Arte Metrópoles
Lula x Flávio Bolsonaro

Ano de eleições para presidente da República, Câmara dos Deputados, Senado, governos estaduais e Assembleias Legislativas, é ano destinado na imaginação coletiva a imprimir novos rumos ao país. É o que se espera dele, embora nem sempre aconteça.

Aconteceu quando Juscelino Kubistchek se elegeu presidente no final dos anos 1950. Não aconteceu quando seu sucessor, Jânio Quadros, renunciou com seis meses de mandato, abrindo passagem ao golpe militar adiado pelo suicídio de Getúlio Vargas.

A ditadura, que era para ser breve, estendeu-se por 21 anos, e terminou sem entregar o que seus responsáveis prometeram. Em 1989, Fernando Collor se elegeu sob a bandeira da renovação. Mal governou por dois anos. A corrupção o derrubou.

Collor dizia dispor de uma só bala para ferir de morte a inflação. Foi com um único tiro, o Plano Real, que Fernando Henrique Cardoso o fez, e se reelegeu, cedendo depois o lugar ao primeiro operário a governar o país, e que o governaria mais duas vezes.

Presidente ou presidenta? Dilma fez questão de ser chamada de presidenta, a primeira – e única até agora – da história do Brasil. Acabou impichada depois de se reeleger. Seu vice, Michel Temer, foi um tapa-buraco. Jair Bolsonaro, um retrocesso.

2026 não parece ser o ano para a entreabrir o baú da felicidade. Se Lula vencer, enfrentará as mesmas dificuldades do presente, certamente agravadas por um Congresso ainda mais conservador do que o atual, e um Supremo Tribunal Federal enfraquecido.

Se o vencedor for Flávio, aperte o cinto: o reacionarismo estará de volta. A primeira iniciativa dele será tirar o pai da prisão, via um indulto ou a aprovação da anistia pelo Congresso. A segunda, acuar o Supremo, retirando dali alguns carrascos do seu pai.

Ministro do Supremo é obrigado a se aposentar aos 75 anos de idade. Os próximos serão Luiz Fux, em 2028, e Cármen Lúcia em 2029, seguidos de Gilmar Mendes, em 2030. A vaga aberta com a saída de Luiz Roberto Barroso só deverá ser preenchida em 2027.

Não foi ainda porque o Senado ameaça barrar o nome escolhido por Lula – Jorge Messias, o Advogado-Geral da União. Messias é evangélico, mas não “terrivelmente” como André Mendonça, que faz parte da bancada bolsonarista do Supremo.

Com direito a se candidatar à reeleição; com poder de retirar por impeachment ministros da mais alta Corte de Justiça do país e de nomear mais três ou quatro; com um Congresso amigo, serviçal, Flávio ficará dispensado de pensar em golpe. Golpe para quê?

Dizem que essa é uma das belezas da democracia: ela permite que autocratas cheguem ao poder máximo por meio do voto. É o caso de muitos por toda parte (alô, alô, Trump!).

 

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Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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