Qual será a delação de Vorcaro o bastante para o tamanho do gigante?

adamastor-e-tetis

Pois é, caras e caros.

Estou quase cantarolando aqui Ivan Lins e Victor Martins: “Das coisas que eu sei/ nem tudo meu deu clareza/ (…)/ Nem tudo me deu certeza…” Ou, então, a já também antiga “Coisas que eu sei/ Eu adivinho sem ninguém ter me contado/ Coisas que eu sei”, na voz de Dani Carlos, de Dudu Falcão.

Estou a falar sobre a eventual — por ora, o adjetivo é esse — delação de Daniel Vorcaro. Sei o que sei, não o que sabem. Na área criminal, o ex-banqueiro tem três advogados: Roberto Podval, Sergio Leonardo e José Luís de Oliveira Lima, conhecido na imprensa como Juca. Como nenhum deles antecipou a ninguém o que Vorcaro diria — e deixo claro que não estou aqui a confrontar opiniões porque, de fato, plasmo a minha apenas com informações justamente para não atiçar certa paixão pelo confronto, que é humana —, é evidente que tudo o que supostamente se sabe sobre a tal “colaboração” está no terreno da aposta, da ilação, do chute. E nada disso é ilegítimo: interpretar a realidade e fazer prospecções são atos civilizatórios, desde que não se tome um viés interpretativo e analítico como informação.

Por que digo isso? Porque, reitero, nenhum deles contou a ninguém o que Vorcaro revelaria numa colaboração premiada. O mais sensato é duvidar que ele próprio saiba como organizaria algo tão grande, já que o banco Master, no que tinha de operações legais e regulares, mantinha relações plurais, com todo o espectro político. “E o que não era legal?” Aí está o busílis, para empregar expressão de personagem de Rubem Fonseca — lembro: “Rosalvo”, no romance “Agosto”.

Dadas as informações vazadas e que vieram a público nesta quarta, não havia preconceito ideológico. Já se sabe: os progressistas — querem chamar de esquerdistas? — dizem que o Master servia à direita. E há penca de exemplos de relações e proximidades. Os direitistas sustentam o contrário, embora a intimidade com as esquerdas apareceça em menor número, ainda que bastante eloquente. E tome esta expressão hedionda que cresceu com as redes: “guerra de narrativas”. Um tal Deleuze (se for o caso, pesquisem) se revira no túmulo: ele via as fabulações como ato de resistência de marginalizados, não como a mentira estruturada em ideologia por poderosos. Quem pensou este segundo conceito, queridos, bem…, foram Marx e Engels em “A Ideologia Alemã”: queriam desmontar a trapaça, não endossá-la, deixo claro.

“Ah, Brasília está em pânico”, me disse hoje um interlocutor. Quem é essa tal “Brasília”? A esta altura, é como as personagens “Todo Mundo” e “Ninguém” do “Auto da Lusitânia”, de Gil Vicente. Se “todos” estão com medo, de todo o espectro político, então ninguém estaria, dada guerra de destruição mútua. A verdade é que se especula muito e se sabe muito pouco.

Juca, um dos advogados de Vorcaro — é aquele que tem experiência em delações — esteve, de fato, nesta terça com o ministro André Mendonça, relator do caso Master. Para discutir “o ser contra o não ser universal/ arcano impossível de ler”, como escreveu o poeta, não foi. Acho, sim, que se assunta delação. Leiam a Lei 12.850. Qualquer que fosse o acordo proposto, de Vorcaro se exigiria que apontasse caminhos novos para a investigação, a que a própria PF já não tivesse chegado por conta própria; que listasse eventuais nomes a que os investigadores não tivessem alcançado primeiro; que indicasse caminhos para as provas, já que delação é meio para alcançá-las. Reitero: são exigências da lei.

Mas aqui voltamos ao “busílis do Rosalvo”: cada um tem, a esta altura, dado o festival de vazamentos, uma delação na cabeça: “Se não ferrar o Supremo, não vale”. Ou: “Se não destruir o centrão e a extrema direita, não vale”. Ou ainda: “Se não calcinar Lula e o PT não vale”…

Estamos em ritmo de Camões, de “Os Lusíadas”, quando o Gigante Adamastor assedia a pequena ninfa Tétis (ilustração que abre este texto). Ela pergunta: “Qual será o amor bastante/ De Ninfa, que sustente o dum Gigante?”. Se alguém não entendeu: “Que colaboração de Vorcaro e´bastante/ para o tamanho do Gigante?”

Eu não sei, e ninguém sabe, qual seria a delação. Uma coisa é certa: só não pode ser uma, se houver, que atenda à conveniência política da hora, ditada pela “metafísica influente”, que responda à expectativa do que se quer ouvir, não ao que efetivamente houve e há. Porque, com efeito, se isso acontecer, o buraco sempre será mais embaixo.

 

 

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *