Acre pode perder até US$ 12,8 milhões nas exportações com escalada da guerra no Oriente Médio

O comércio exterior do Acre iniciou 2026 com sinais claros de mudança na sua geografia de destinos. Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/MDIC) mostram que, além do crescimento das exportações totais, houve uma forte expansão das vendas para o Oriente Médio, que passaram a ocupar posição de destaque na pauta exportadora estadual. Apenas em janeiro, as exportações para a região cresceram mais de 1.100% em relação ao mesmo mês de 2025, indicando não apenas aumento de volume, mas também um processo de diversificação de mercados que reposiciona o Acre no comércio internacional.
Mercado do Oriente Médio ganha peso nas exportações do Acre no início de 2026
A comparação entre os dois primeiros meses de 2025 e 2026 revela crescimento das exportações acreanas e, sobretudo, forte expansão das vendas destinadas ao Oriente Médio. Em janeiro de 2026, as exportações totais do Acre alcançaram US$ 9,17 milhões, valor 11,2% superior ao registrado no mesmo mês de 2025. O destaque, porém, foi o mercado do Oriente Médio, que passou de US$ 226 mil para US$ 2,79 milhões, um aumento expressivo de 1.135%, indicando uma mudança importante na geografia das exportações do estado, conforme demonstrado na tabela a seguir.

Em fevereiro observa-se tendência semelhante. O valor total exportado chegou a US$ 8,42 milhões, crescimento de 21,9% em relação a fevereiro de 2025. As vendas para o Oriente Médio também avançaram de forma significativa, passando de US$ 384 mil para US$ 911 mil, expansão de 137,1%. Em síntese, os dados mostram que, além do crescimento do volume exportado, o Oriente Médio vem se consolidando como um mercado cada vez mais relevante para as exportações do Acre, contribuindo para a diversificação dos destinos comerciais do estado.
Em apenas dois meses, exportações para o Oriente Médio já alcançam parcela relevante do total registrado em 2025.
Considerando o desempenho recente do comércio exterior acreano, observa-se também avanço significativo nas vendas destinadas ao Oriente Médio. Em todo o ano de 2025, as exportações do Acre para essa região somaram cerca de US$ 12,8 milhões. Já nos dois primeiros meses de 2026, as exportações para o Oriente Médio atingiram aproximadamente US$ 3,7 milhões, ou seja, em 2025, a região respondeu por 12,9% do total exportado. Já nos dois primeiros meses de 2026, essa participação saltou para 21,1%. Os números indicam uma ampliação das exportações, fortalecendo esse mercado como um dos principais destinos dos produtos acreanos. Mantido esse ritmo ao longo do ano, a tendência é de consolidação e possível ampliação da participação do Oriente Médio na pauta exportadora do estado.
Carne bovina domina exportações do Acre para o Oriente Médio
A pauta de exportações do Acre para o Oriente Médio, principalmente para os Emirados Árabes Unidos, o Líbano e o Kuweit são fortemente concentrada em produtos da pecuária bovina, especialmente carnes desossadas congeladas, que constituem, de longe, o principal item comercializado com a região, conforme demostrado na tabela a seguir.
Exportações do Acre para o Oriente Médio por produto (2025 e 2026 – US$ FOB)
Em 2025, esse produto respondeu pela maior parcela das vendas externas, alcançando US$ 10,46 milhões, exportados principalmente pela via marítima através do Porto de Santos. Em 2026, embora com valores ainda referentes apenas ao início do ano, a carne bovina congelada continua liderando a pauta, com US$ 2,60 milhões embarcados pelo Porto de Santos e US$ 579 mil pelo Porto de Paranaguá, evidenciando também certa diversificação logística nos embarques
Além da carne bovina congelada, aparecem na pauta carnes bovinas frescas ou refrigeradas, que somaram US$ 984 mil em 2025 e US$ 297 mil em 2026, igualmente embarcadas pelo Porto de Santos. Outro produto relevante é a castanha-do-pará sem casca, tradicional item da bioeconomia amazônica, que registrou US$ 1,14 milhão em 2025 e US$ 228 mil em 2026, também exportada majoritariamente pelo mesmo porto paulista. De forma complementar, em 2025 houve ainda exportações de soja e miudezas bovinas, com destaque logístico para o Porto de Manaus, no caso da soja.
Do ponto de vista logístico, os dados indicam clara predominância da via marítima, responsável praticamente pela totalidade dos embarques. O Porto de Santos se consolida como a principal alfândega utilizada para as exportações acreanas destinadas ao Oriente Médio, seguido pelo Porto de Paranaguá e, em menor escala, pelo Porto de Manaus. Esse padrão revela a forte dependência das grandes infraestruturas portuárias do Sudeste e do Sul para a inserção internacional da produção agropecuária e extrativista do Acre.
Fechamento do Estreito de Ormuz eleva custos e ameaça rotas das exportações acreanas
O crescimento das exportações do Acre para o Oriente Médio ocorre em meio à escalada do conflito envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos, com impactos diretos sobre o comércio internacional. Reportagem de O Globo destaca que o fechamento do Estreito de Ormuz já começa a afetar o agro brasileiro, que busca rotas alternativas para manter o fluxo de exportações para a região.
No caso do Acre, onde as vendas são fortemente concentradas em carne bovina transportada por via marítima, esse cenário eleva os riscos logísticos. A dependência de longas rotas até portos como Santos e Paranaguá pode ampliar os custos de frete e os prazos de entrega, reduzindo a competitividade. Assim, embora o Oriente Médio ganhe importância como mercado, a guerra na região introduz um fator relevante de incerteza para o desempenho das exportações acreanas em 2026.
O avanço das exportações acreanas para o Oriente Médio revela um movimento positivo de diversificação e ampliação de mercados, especialmente ancorado na competitividade da carne bovina. No entanto, esse novo dinamismo ocorre em um contexto internacional marcado por tensões geopolíticas e pela escalada do conflito na região, o que pode afetar custos logísticos, rotas comerciais e a previsibilidade das transações. Assim, o desempenho observado em 2026 combina oportunidade e risco: de um lado, abre espaço para maior inserção internacional do Acre; de outro, exige acompanhamento estratégico das condições externas, sob pena de volatilidade no comércio exterior ao longo do ano.
Orlando Sabino escreve às quintas-feiras no ac24horas

Economista formado pela Universidade Federal do Acre (UFAC, 1979). Possui mestrado em Economia pela UFMG (1995) e doutorado em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela UFMG (2016), professor aposentado do curso de economia da UFAC (1980/2016), escreve sobre conjuntura econômica e social do Acre.
Fonte: Conteúdo republicado de ac24horas

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