Comerciantes e moradores lamentam "despejo" de food trucks em praça

Diego Tedeschi/Metrópoles
Ação da prefeitura removeu food trucks da Praça Silvio Romero - Metrópoles

Tradicional ponto de encontro de moradores e trabalhadores da zona leste de São Paulo, a Praça Silvio Romero, no Tatuapé, concentra diversos carrinhos de comida que oferecem desde o famoso “dogão” até sobremesas, como churros e açaí. Há vendedores que atuam no local há quase 40 anos.

Desde o início de fevereiro, no entanto, quem passa pela praça nota uma diferença gritante. Dos 25 food trucks que cercavam o espaço, sobraram apenas quatro. E esses poucos que sobraram, passaram a encerrar o trabalho mais cedo. A mudança aconteceu após uma ação de fiscalização da Prefeitura de São Paulo que recolheu os veículos sem aviso prévio.

Os carrinhos foram removidos com a justificativa de que não possuíam licença para trabalhar no local, segundo a gestão municipal. A medida surpreendeu a todos, uma vez que nunca houve uma forma de regularizar o comércio ambulante na praça, mesmo com diversas tentativas, segundo os vendedores.

“Existem termos de permissão de uso de vias públicas que são abertos de tempos em tempos. Mas, aqui na Praça Silvio Romero, o último aberto foi em 2013”, afirma Erika Barros, que trabalhava há cinco anos no local e teve o carro recolhido. Segundo ela, o “Tô Legal”, programa da prefeitura criado em 2019 para regularizar o comércio ambulante na cidade, não disponibiliza licenças para o endereço.

“A gente entende que a ocupação do espaço público pelo comércio ia trazer benefícios para a comunidade como um todo. Porque a praça está escura, a gente soube que houve aumento de assaltos. A gente não explora um local que já tem um comércio, ele acontece porque nós os criamos”, diz Erika. “Está todo mundo disposto a agir de acordo com as leis, pagar os impostos, o que for exigido. A gente não escolhe trabalhar na informalidade por querer, a gente escolhe por necessidade.”

Maryana Escobar mantinha seu food truck na Silvio Romero há uma década, assim como a mãe e o irmão, que trabalhavam em outros carros. De acordo com a vendedora, existe uma apreensão sobre a possibilidade de a prefeitura fazer um chamamento público para regularizar o comércio no local, o que não garante que os carrinhos que atuam na praça há anos consigam a licença.

“Depois de tantas reuniões, de idas na subprefeitura, falaram que iriam fazer um chamamento público, sendo que, como todos sabem, é para o público geral. Então, na verdade, não estariam regularizando para nós, estariam mascarando uma resolução, porque a gente estaria disputando uma vaga de 30 anos aqui com uma pessoa que tem um carro e quer trabalhar”, diz Maryana.

Nem quem está na praça desde o início do fenômeno dos carrinhos de comida escapou da remoção. Há 39 anos no endereço, Ivo Junior conta que perdeu o Termo de Permissão de Uso (TPU) do food truck após a morte do pai, que começou o trabalho na região. “Não nos deram prazo nenhum, só disseram que estão agilizando esse processo. Estamos sem garantia. Uma luta de uma vida inteira corre o risco de ir por água abaixo”, afirma.

A retirada repentina dos mais de 20 food trucks afetou até os comerciantes que têm licença e seguem na praça. João Filho Magalhães trabalha em um carro que está há 28 anos no mesmo endereço. Segundo ele, a tradição de atender os clientes até a madrugada acabou após a restrição de funcionamento até a meia-noite.

“A gente não consegue atender todo mundo. Chega o pessoal com fome, da balada, e a gente não pode atender. A praça movimenta muita gente, muito emprego. Então, ficando vazio, não é vantagem para ninguém. É bom estar todo mundo trabalhando, na correria”, diz João.

Comunidade lamenta

Sival de Oliveira trabalha há 20 anos em uma banca de jornal na Praça Silvio Romero e assistiu com tristeza à retirada dos food trucks. “É uma tradição de muitos anos, desde que eu cheguei aqui. Os ‘dogueiros’ são o brilho da praça”, afirma. Segundo o jornaleiro, a praça ficou deserta depois da ação da prefeitura. “Várias famílias perguntam aqui na banca o que está acontecendo.”

Moradora da Vila Matilde, bairro próximo na zona leste da capital, a servidora pública Roselene Aparecida, de 55 anos, frequenta a Silvio Romero desde a década de 80. “A gente vinha aqui quando tinha as danceterias por perto. Sempre teve os hot dogs aqui. É uma praça muito bonita, grande. Vêm muitas famílias aqui com crianças. A retirada deles foi uma surpresa. Fiquei chateada”, afirmou.

A praça também era frequentada pelos mais jovens. O educador de química João Victor, de 25 anos, notou a diferença na circulação de pessoas no local. “A praça era bem movimentada, tinha muita vida, era abarrotada de gente. Com a retirada dos carrinhos, a gente consegue perceber que ela perdeu a vida, morreu por completo, quase não tem gente por aqui. É um pouco doloroso ver que acabou ficando nesse estado”, afirma.

O que diz a prefeitura

Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirmou que o sistema Tô Legal passa por atualização para a inclusão da Praça Silvio Romero entre as áreas disponíveis para emissão de portaria de autorização. Segundo a gestão municipal, a alteração será feita no primeiro semestre de 2026. A medida vai oferecer permissão para o comércio na rua, pelo prazo máximo de 90 dias no local escolhido, com possibilidade de renovação.

“A Secretaria Municipal das Subprefeituras e a Subprefeitura Mooca analisam a situação da praça levando em consideração a capacidade do espaço, a livre circulação de pedestres, a mobilidade no entorno, o bem-estar dos frequentadores, as condições de limpeza do local e as adequadas condições de trabalho”, diz.

A reportagem perguntou por que a remoção não aconteceu anteriormente, já que os ambulantes estão no local há anos, e se os carros retirados da praça terão prioridade para conseguir a licença. A prefeitura não esclareceu os questionamentos.

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *