
A cento e noventa e seis dias da eleição presidencial marcada para 4 de outubro de 2026, um dado aparentemente modesto começa a ganhar densidade política: o contingente de eleitores que se declara independente, estimado em torno de 7% do eleitorado, pode vir a exercer papel decisivo na definição do próximo presidente da República. O número, à primeira vista, parece pequeno. Mas, em ambiente de polarização intensa e disputa apertada, minoria móvel vale mais do que maioria silenciosa. O centro de gravidade do pleito pode residir exatamente nesse grupo sem fidelidade orgânica ao lulismo ou ao bolsonarismo.
As pesquisas mais recentes ajudam a explicar o peso desse segmento. Levantamentos divulgados nesta semana mostram um cenário de forte competitividade entre os principais polos da disputa. Em simulações de segundo turno, Lula e Flávio Bolsonaro aparecem em situação de empate técnico ou numérico em alguns institutos, o que significa que qualquer oscilação marginal pode redefinir o resultado final. Em corridas assim, não é preciso uma avalanche de votos para virar o jogo; basta um deslocamento concentrado de poucos pontos entre os que ainda não cristalizaram sua preferência.
O chamado eleitor independente não é, necessariamente, um eleitor “moderado” no sentido ideológico clássico. Muitas vezes, trata-se antes de um cidadão cansado da briga tribal, desconfiado dos partidos, refratário a slogans e pouco disposto a aderir a paixões políticas permanentes. É o eleitor que compara mais do que reverencia; mede mais do que milita; hesita mais do que se entrega. Seu voto não é automático. Depende menos da liturgia partidária e mais do estado concreto do País. Pergunta-se, no fundo, quem administra melhor, quem inspira menos temor, quem parece mais apto a enfrentar os problemas do cotidiano.
Por isso, esse grupo tende a ser particularmente sensível a quatro eixos: economia, saúde, segurança e integridade ética. Se o bolso aperta, a inflação corrói, o emprego vacila e a renda encolhe, esse eleitor se move. Se percebe desordem institucional, escândalos de corrupção, crises no sistema de saúde e avanço da violência, também se move. Seu radar é menos dogmático e mais pragmático. Não vota para homenagear doutrinas; vota para tentar reorganizar a vida. É menos o eleitor da bandeira e mais o eleitor da conta de luz, da fila do hospital, do medo na esquina e da indignação moral.
Esse perfil ajuda a entender por que os candidatos, daqui para frente, terão de falar menos para as próprias torcidas e mais para a faixa cinzenta do eleitorado. A militância é importante para aquecer a campanha, ocupar redes sociais, impulsionar narrativas e sustentar emocionalmente as candidaturas. Mas eleição majoritária não se ganha apenas com base militante. Ganha-se, sobretudo, quando o candidato consegue ultrapassar o muro do pertencimento ideológico e se apresentar como alternativa aceitável para quem não quer viver em estado permanente de guerra política.
Lula entra nessa disputa com vantagens conhecidas: a força do cargo, a memória de programas sociais, a presença nacional e a identificação com parcelas populares do eleitorado. Mas carrega, ao mesmo tempo, o peso do desgaste governamental, da cobrança sobre resultados e dos fatos negativos que orbitam a imagem do governo. Todo presidente em busca de novo mandato disputa não apenas com adversários, mas com a fadiga do poder.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, herda a musculatura política do bolsonarismo, a conexão com o eleitor conservador e a capacidade de capitalizar a insatisfação com o governo. Porém também leva consigo o passivo simbólico do campo que representa: a memória do radicalismo, os ecos do 8 de Janeiro, as investigações e a forte rejeição que o sobrenome Bolsonaro desperta em segmentos amplos da sociedade. Sua tarefa será convencer o eleitor independente de que pode representar estabilidade sem tensão permanente.
É nesse ponto que os 7% assumem dimensão estratégica. Não se trata apenas de um grupo “flutuante”. Trata-se do segmento mais disputado do tabuleiro, aquele que pode romper o empate e conferir legitimidade ao vencedor. Em um país rachado ao meio, o eleitor independente funciona como ponte entre as margens. Seu voto vale duplamente: soma para um lado e subtrai do outro. Em eleição resolvida por diferenças estreitas, essa matemática tem enorme potência.
Há, porém, uma advertência necessária. Esses 7% não decidirão a eleição sozinhos, como se fossem bloco homogêneo, disciplinado e previsível. Eles só serão decisivos se a disputa permanecer cerrada, se as campanhas não conseguirem ampliar suas bases tradicionais e se a abstenção não distorcer o peso relativo de cada segmento. Além disso, independentes não são massa inerte à espera de captura; são eleitores que podem se dispersar, dividir-se, migrar de última hora ou simplesmente se afastar da urna.
Ainda assim, tudo indica que esse grupo será o objeto central da persuasão eleitoral nos próximos meses. Os candidatos que compreenderem esse novo humor do eleitorado terão vantagem. O Brasil parece menos disposto a idolatrias e mais inclinado à aferição concreta de desempenho. O voto que antes saía do coração pode estar subindo à cabeça. E, quando a razão começa a disputar espaço com a paixão, os independentes deixam de ser rodapé estatístico para se transformar no capítulo principal da eleição.
No fim das contas, a pergunta não é apenas se os 7% decidirão o pleito. A pergunta decisiva é outra: qual candidato conseguirá falar a essa parcela do país sem gritar com ela, sem manipulá-la e sem tratá-la como massa de manobra? Quem descobrir essa linguagem talvez encontre o caminho do Palácio do Planalto.
GAUDÊNCIO TORQUATO é professor emérito da ECA-USP, escritor, jornalista e consultor político
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

Deixe um comentário