
Um grupo de vereadores deverá realizar uma audiência pública, nesta quinta-feira (26/3), na Câmara de São Paulo, para colocar em discussão uma alternativa estimada em R$ 1 milhão ao túnel de R$ 622 milhões que a prefeitura pretende construir na Rua Sena Madureira, na Vila Mariana, na zona sul da capital paulista.
A proposta — apresentada por Renata Falzoni (PSB), Marina Bragante (Rede), Nabil Bonduki (PT) e Toninho Vespoli (PSol) — prevê a alteração de sentido em algumas vias e mudanças nos tempos semafóricos, sem a necessidade de se fazer uma intervenção do porte do túnel, que, entre outras consequências, exigiria a remoção de famílias da comunidade da Rua Souza Ramos.
A vencedora da licitação é a Álya Construtora, sucessora da antiga Queiroz Galvão, que ganhou certame considerado fraudulento, em 2010, justamente para a construção do túnel.
O túnel da Sena Madureira é uma obra polêmica, que foi suspensa em 2024, após corte de árvores e instalação de tapumes no local, o que gerou reação por parte de moradores e ativistas ambientais.
Proposta
A contagem que consta do projeto proposto pelos vereadores mostra que, atualmente, mais de 1.700 veículos acessam as ruas Monsenhor Manuel Vicente e sua continuação, a Mauricio Klabin, no pico da manhã, das 8h às 9h. Durante o pico da tarde, das 17h às 18h, o volume é maior, com mais de 2.800 passando pelo local.
Entretanto, o estudo mostra que a quantidade de veículos provenientes da Sena Madureira da própria Rua Domingos de Morais (sentido Jabaquara) é similar, sendo que apenas os primeiros seriam beneficiados.
A proposta pretende diluir o tráfego por meio de inversão de mãos e reprogramação de semáforos, anulando a necessidade de travessia da Rua Domingos de Morais, a partir da Sena Madureira em direção à Monsenhor Manuel Vicente, que hoje dá um nó no trânsito local. Também prevê fluidez maior na Rua Francisco Cruz.
Por esse projeto, uma alternativa aponta que as ruas Mairinque, Cunha e Berta seriam usadas para se fazer a travessia da Domingos de Morais, com a instalação de um novo semáforo. Por esse caminho, passariam pouco mais de 700 veículos no pico da manhã e mais de 1.300 no horário de maior movimento da tarde.
Uma segunda alternativa envolveria também a Mairinque, mas a transposição da Domingos de Morais ocorreria mais à frente, nas ruas Diogo de Faria e Thirso Martins, que teriam sentido invertido. Os dois caminhos são vistos pelos vereadores como sugestões de como há inúmeras formas de alterar o viário no local, sem a necessidade da construção do túnel.
Segundo os vereadores, a proposta custaria R$ 300 mil em obras civis e de acessibilidade; R$ 200 mil, em sinalização vertical, horizontal e de orientação; e R$ 500 mil, em sinalização semafórica.
O que dizem os vereadores
Em uma representação apresentada ao Ministério Público de São Paulo (MPSP), vereadores afirmaram, entre outras coisas, que licitação revela “a continuidade de agentes econômicos vinculados a projeto historicamente questionado”.
Segundo os vereadores, a obra não resolveria plenamente os gargalos do trânsito e tenderia a provocar congestionamentos dentro do túnel e em seus acessos, citando inclusive o fato de a Rua Embuaçu não ter capacidade de absorver tráfego similar ao da Sena Madureira.
Para Renata Falzoni, a prefeitura não considerou alternativas simples e de custo mais baixo. “Insistir em um túnel, que é um modelo ultrapassado e não vai solucionar os congestionamentos, é jogar fora R$ 600 milhões de recursos públicos que poderiam ser destinados às reais soluções para a mobilidade, em especial o transporte coletivo”, diz.
Já Marina Bragante diz que “o estudo mostra que existem alternativas mais eficientes, mais baratas e com muito menos impacto ambiental, sem a necessidade de remover árvores e destruir um corredor verde importante para a cidade”.
Para Nabil Bonduki, o túnel causará impactos os mais variados, como a remoção da comunidade Souza Ramos, que não teriam recebido alternativa habitacional definitiva. “Além disso, os estudos feitos pela prefeitura para justificar a obra possuem erros graves e não contemplam problemas de mobilidade e trânsito que poderão ser gerados”, diz.
Toninho Vespoli diz que pode comprovar em audiência pública “a falta de planejamento da prefeitura e o desperdício de recursos públicos dos contribuintes para um túnel milionário que a cidade não precisa”.
O que diz a Prefeitura de São Paulo
A Prefeitura de São Paulo afirma que a obra do túnel Sena Madureira vai melhorar a fluidez do trânsito, ampliar a conexão entre bairros e beneficiar mais de 800 mil pessoas por dia.
“Além disso, vai aumentar a eficiência dos ônibus que atendem milhares de passageiros diariamente, reduzir o tráfego dentro do bairro e melhorar o uso da rede cicloviária existente”, diz, em nota.
Segundo a administração municipal, a revisão do projeto do túnel e da requalificação urbana do entorno, realizadas pela atual gestão, trouxe significativos ganhos ambientais e de mobilidade.
“Seguindo as orientações da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, o novo traçado reduziu a supressão de árvores e aumentou a preservação ambiental, inclusive com o transplante de exemplares e o compromisso de executar toda a compensação ambiental antes do início das obras”, afirma.
A prefeitura diz também que o Estudo de Viabilidade Ambiental (EVA), de 2024, elaborado pela Secretaria Executiva de Mobilidade e Trânsito, que foi submetido à SVMA e passou por consultas públicas, apresenta as exigências a serem cumpridas durante a execução da obra. “A licitação para contratação dos projetos executivos, gestão ambiental e execução das intervenções está em fase final”, afirma.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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