INSS: CPMI pede indiciamento de donos de igreja por desvio milionário

Igreja fundada pos socios de ong envolvida em fraude do inss

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS pediu, nesta sexta-feira (27/3), o indiciamento de dois fundadores de igrejas evangélicas localizadas em Brasília por envolvimento no caso que ficou conhecido como a Farra do INSS.

Um deles é Dogival José dos Santos, criador da Crusada Nacional de Evangelismo — registrada com S no lugar do Z –, em 1996, sob o nome fantasia “Primeira Igreja Pentecostal Cristo a Esperança”. Antes de o esquema de fraudes no Instituto Nacional de Seguro Social ser revelado, Dogival figurava como presidente da Associação dos Aposentados do Brasil (AAB) – uma das ONGs envolvidas nos descontos ilegais.

Uma segunda pessoa vinculada à Associação dos Aposentados do Brasil é Lucineide dos Santos Oliveira, presidente da Igreja Evangélica Pentecostal Ministério Visão de Deus (foto em destaque), localizada no Recanto das Emas, a cerca de 32 km da capital do país. A mulher também teve pedido de indiciamento solicitado pela CPMPI.

No relatório da Comissão Mista, o casal Dogival e Lucineide é acusado de desviar milhões do INSS por meio de uma rede criminosa “familiar e religiosa”.

Dogival José dos Santos

Conforme consta no documento ao qual a reportagem teve acesso, Dogival ocupava posição de liderança estratégica e operacional no núcleo da organização criminosa mantida por seu círculo familiar.

O investigado é identificado como um dos líderes do núcleo familiar e operacional do grupo “Santos”, atuando na presidência de entidades de fachada e na circularização de recursos ilícitos provenientes de descontos não autorizados em benefícios previdenciários.

Segundo a CPMI, Dogival utilizou o controle de entidades como a Associação dos Aposentados do Brasil (AAB) e o Instituto Terra e Saúde (ITS) para ter acesso a dados de segurados e desviar ativos previdenciários.

“Sua atuação foi determinante para converter associações civis em instrumentos de arrecadação ilícita e lavagem de capitais em larga escala”, consta no relatório.

Conforme as investigações, o homem assumiu a presidência da AAB no período exato em que a entidade, originalmente voltada à habitação, foi transformada em uma associação de defesa de aposentados, em outubro de 2022.

Essa manobra, de acordo com a CPMI, ]’permitiu à organização criminosa herdar uma estrutura jurídica para celebrar Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) com o INSS e iniciar a implementação de descontos em massa sem autorização legítima”

Relatórios de inteligência financeira revelaram que Dogival atuou como um dos principais emissores e receptores de recursos dentro da rede de branqueamento do grupo. Entre 2019 e 2025, o homem realizou 353 depósitos em favor de Lucineide dos Santos Oliveira, totalizando R$ 741.370,58. Tais transações fracionadas e repetitivas configuram a técnica de smurfing – utilizada para ocultar o rastro do dinheiro e dificultar a fiscalização bancária.

Além disso, Dogival é acusado de articular a gestão de recursos com o filho – Dogival José dos Santos Júnior, e com  Samuel Chrisóstomo, contador da Conafer, utilizando o ITS e empresas de faixada para lavar o proveito dos crimes.

A quebra de sigilo bancário detectou que o ITS movimentou R$ 71.466,91 em 2023 em operações “sem justificativa econômica plausível”. Por isso, a CPMI pediu o indiciamento de Dorgival por:

“Ao comandar a transição da AAB para o setor previdenciário e operar o duto financeiro que escoava milhões de reais para o seu núcleo familiar, o indiciado usurpou a ética associativa e concorreu diretamente para a lesão patrimonial de milhões de brasileiros vulneráveis”, declarou a CPMI.

Lucineide dos Santos Oliveira

No relatório, a CPMI disse que Lucineide dos Santos Oliveira atuava como tesoureira da AAB. Além disso, a comissão acusou a mulher de atuar no núcleo financeiro e administrativo da organização criminosa que operava as fraudes da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Rurais (Conafer).

Conforme as investigações, Lucineide atuou na gestão de empresas de fachada, na operacionalização de descontos indevidos e na dissimulação do proveito dos crimes através de uma rede familiar e religiosa.

Ela também é apontada como uma operadora estratégica na lavagem de dinheiro e na pulverização de recursos desviados de aposentados.

“A indiciada controlava a Expresso Serviços de Publicidade e Marketing, a Impacto Serviços de Apoio Adm e a Solution Serviços de Locação e Apoio. Tais empresas, sediadas em endereços no Recanto das Emas (DF) e sem funcionários registrados, receberam o total de R$ 141.870.598,82, sendo R$ 138,9 milhões da Conafer e R$ 2,9 milhões da AAB”, disse a CPMI.

Como pessoa física, Lucineide recebeu R$ 160,9 milhões entre 2019 e 2025, dos quais R$ 113 milhões vieram diretamente da Conafer. “Essa movimentação é flagrantemente incompatível com sua realidade econômica, visto que em 2022 ela possuía renda formal de apenas R$ 2 mil e histórico de inscrição no CadÚnico”, consta no relatório.

A investigação financeira comprovou que Lucineide transferiu R$ 40 mil, em 2024, para o servidor Pedro Alves Corrêa Neto, apontado como o principal técnico que facilitava os processos das associações na DIRBEN/INSS.

“Por meio de sua empresa Expresso Marketing, Lucineide enviou R$ 9,5 milhões para a BSF Gestão em Saúde – controlada por Danilo Trento – e repassou R$ 5,94 milhões para o BK Bank – instituição investigada por lavar dinheiro para organizações criminosas.

Além disso, efetuou uma transferência única de R$ 600 mil, em 2024, para o Auto Posto Topa Tudo –estabelecimento localizado em Minas Gerais e utilizado para branqueamento de capitais.

Ainda segundo o relatório, Lucineide transferiu cerca de R$ 700 mil para o escritório de Milena Câmara, filha do Deputado Federal Silas Câmara. Esses pagamentos ocorreram entre 2023 e 2024, coincidindo temporalmente com reuniões de articulação entre o parlamentar e o presidente da Conafer.

Após o início dos repasses milionários, Lucineide adquiriu uma frota incompatível com seus rendimentos: um Porsche Boxster 2023, uma Mitsubishi Triton 2024 e um VW T-Cross 2025. A Polícia Federal aponta que ela também registrava veículos de terceiros em seu nome para blindar o patrimônio dos líderes da organização.

Com isso, Lucineide teve pedido de indiciamento feito pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica – pela constituição de empresas sem atividade operacional real e uso de nomes quase homônimos para dificultar a fiscalização e  justificar fluxos financeiros inidôneos.

“A participação de Lucineide foi indissociável da engenharia financeira que permitiu o desvio de centenas de milhões de reais do sistema previdenciário. Sua conduta de converter recursos extraídos de idosos em bens de luxo e circularizar ativos através de empresas de fachada justifica o encaminhamento de sua responsabilização penal por esta CPMI. Com isso, indicia-se Lucineide dos Santos Oliveira por ter sido peça fundamental na engrenagem financeira da Conafer e da AAB”, finalizou a CPMI.

Igreja retira fachada após escândalo

A placa de identificação da Igreja Evangélica Pentecostal Ministério Visão de Deus (foto em destaque) foi retirada dias após o Metrópoles revelar que a instituição pertence a uma sócia da Associação dos Aposentados do Brasil (AAB).

Estranhamente, no mesmo endereço onde está a igreja evangélica, fundada por Lucineide dos Santos Oliveira, sócia da AAB, supostamente funciona uma companhia pertencente a Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior, contador da Confederação Nacional dos Agricultores e Empreendedores Familiares (Conafer) – outra instituição envolvida nas fraudes.

Antes da modificação na fachada, a reportagem esteve no endereço e encontrou apenas a instituição religiosa, erguida entre um centro catequético e um terreno baldio. Apesar disso, segundo dados da Receita Federal, a loja de Samuel está ativa no espaço, configurando a suspeita de ser uma empresa fantasma.

Dias após a matéria de denúncia do Metrópoles ser veiculada, a placa com a identificação da igreja evangélica foi retirada e o terreno baldio foi cercado por um alambrado.

Tanto a AAB quanto a Conafer têm como sede o mesmo prédio empresarial, localizado no Setor Comercial Sul de Brasília. Ambas organizações aparecem na lista de Processos Administrativos de Responsabilização (PAR), instaurados pela CGU, por suspeitas de terem aplicado descontos ilegais em aposentadorias e pensões de beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

O outro lado

A reportagem tentou contatar o casal Dogival José dos Santos e Lucineide dos Santos, mas não obteve retorno até a última atualização do texto. O espaço segue aberto para futuras manifestações

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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