No Acre, a Semana é Santa, mas a cozinha é do Tambaqui

No Acre, a Semana é Santa, mas a cozinha é do Tambaqui

Por Thais Farias29 de março de 2026 – 07h13 6 min de leitura
Foto: Sérgio Vale

Começa neste Domingo de Ramos, 29, um dos períodos mais importantes para os católicos e mais lucrativos para o comércio de pescados. A Semana Santa, que celebra a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, é também sinônimo de fartura e abundância para as peixarias.

A tradição católica sobre o consumo de peixes carrega simbolismos de penitência, reflexão e abstinência de carne vermelha, principalmente na Sexta-feira Santa e Quarta-feira de Cinzas. Na prática religiosa, o peixe é permitido por não ser considerado carne “quente”.

Foto: Sérgio Vale

Mas bem antes, logo no início da da Quaresma (40 dias de preparação para a Páscoa no calendário cristão, com oração, jejum, caridade, reflexão espiritual e imitação de Jesus, que jejuou 40 dias no deserto), o consumo de peixe já eleva significativamente e movimenta o comércio local.

A peixaria Rio Purus é uma das mais tradicionais da capital acreana, atraindo e mantendo clientes por mais de uma década na Central de Abastecimento de Rio Branco (Ceasa). Nesse período, os dias de trabalho chegam a 18 horas, iniciando 4 da manhã e encerrando por volta das 22 horas.

O casal Flávio Santos e Samira Sales comandam a peixaria Rio Purus, que está na Ceasa desde 2016. “Desde meus 13 anos comecei a trabalhar com peixe, influenciado pelo meu pai. Meu avô também fazia isso, na verdade, a família toda trabalha com pescado. Começamos a produzir e não paramos mais de mexer com esse produto. Meu pai tem 78 anos e ainda trabalha com peixe. Ele começou aos 9 anos”, conta o empreendedor.

Os peixes comercializados na Rio Purus também chegam de outros municípios acreanos e até de outros estados, como Rondônia e Amazonas. Tudo começou com o patriarca da família, lá em Sena Madureira. Depois, veio a mudança para a capital do Acre. “Como antigamente, na época do meu pai, era mais difícil a locomoção por carro, ele já fretava verduras e peixes por avião, para o Mercado do Colonos, em Rio Branco, para onde ele veio trabalhar“.

Foto: Sérgio Vale

Com a reinauguração da Ceasa, Flávio consegui um espaço no mercado e vem se especializando no ramo da piscicultura local. “Alguns colegas que entraram nesse segmento foram saindo, não conseguiram continuar com o negócio, mas nós permanecemos. Como eu já tinha conhecimento de mexer com peixe, tivemos vantagem sobre alguns que não tinham experiência nesse ramo”, explica Flávio.

Para ele, o maior diferencial da Rio Purus é se destacar como uma peixaria de qualidade. “As pessoas percebem o zelo, o cuidado que a gente tem com nosso negócio, com nossos produtos, com o espaço, e isso é muito importante”.

Foto: Sérgio Vale

O tambaqui é, de longe, o carro-chefe da peixaria. Com a procura elevada pela espécie, a peixaria, desde o início, passou a priorizar o “grandão”. “Também tiramos a espinha dele, fazemos cortes de costelinha, adequando ao gosto do cliente. O tambaqui é um peixe que não falta aqui na Rio Purus, temos ele todos os dias”.

A logística para o período de Semana Santa é bem pesada na peixaria Rio Purus. “Entrou na Quaresma, a gente já começa a trazer os peixes, porque já tem bastante procura. Temos quatro funcionários fixos e três prestadores de serviço. Nesse período, precisamos de reforço e ficamos em 15 pessoas aqui trabalhando”.

Foto: Sérgio Vale

Durante toda a Quaresma, a peixaria chegar a vender cerca de 20 toneladas de peixe. Só na semana santa, de 7 a 8 toneladas. Nesta segunda-feira, 30, começam a entrar os peixes que serão mantidos no gelo, até Sexta-Feira Santa.

O dono da peixaria relata a logística. “Também fazemos muita entrega em restaurantes, indústrias de marmita. Temos clientes aqui desde que chegamos à Ceasa. Antes do Ceasa, só vendia peixe no atacado, entregando em comércios de bairros. Quando chegamos aqui, passamos a comercializar somente no mercado vendendo a varejo”.

A Rio Purus recebe muitos elogios dos clientes, principalmente pela qualidade do produto. “Não enganamos o cliente, não vendemos um peixe falando que é outro”.

Foto: Sérgio Vale

Para eles, a dificuldade maior é encontrar variedades de peixes, como piau e matrinxã. “Depois do tambaqui, o que mais vendemos é o piau, mas é mais difícil de achar, pois dá mais trabalho para criar e manter. O tambaqui com 10 meses você mantendo ele com ração, está pronto. O piau é mais trabalhoso e ainda foge”.

Antes da pandemia, a Rio Purus mantinha uma carretinha que ficava vendendo nos bairros, mas depois ficaram somente na Ceasa. “No momento da compra, alguns clientes interagem e pedem bastante indicação de receita, principalmente da moqueca”. Além do pescado, a peixaria vende carneiro, porco e galinha caipira.

Foto: Sérgio Vale

“A Semana Santa é importante para os produtores, comerciantes, pois todo mundo vende e sai satisfeito. É um momento também de obter lucro e aproveitamos para divulgar nosso produto, já que após esse momento religioso, a gente segue aqui todos os dias”.

Samira Sales, esposa de Flávio, era funcionária pública antes de trabalhar na peixaria. “Com a pandemia, vim para ajudar meu esposo e não saí mais. A gente vê esse período de Semana Santa, Quaresma, de fundamental importância. Outra coisa é a qualidade de vida que vem com o pescado. Vemos o peixe dessa maneira. A demanda fica muito boa. O peixe tem saído o ano inteiro e prezamos muito pela qualidade dos nossos pescados”.

Foto: Sérgio Vale

Fonte: Conteúdo republicado de ac24horas

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