A herança de Alysson, o chavão e a fatura

A carta do prefeito de Rio Branco, Tião Bocalom, renunciando ao cargo para disputar o Governo do Acre na eleição de outubro, foi o fato político mais relevante para a política regional durante a semana que passou. Trata-se do maior município do estado, com maior número de eleitores, os maiores problemas e soluções nem tão grandes assim.

O fato é que Bocalom vem para o pleito capitalizado, com memória eleitoral densa, inclusive por ter sido reeleito em primeiro turno. Se havia dúvidas sobre a possibilidade de que ele não se candidataria, a semana que passou desautoriza qualquer vacilo. Chore quem quiser chorar; pode espernear quem quiser espernear; soluce quem quiser soluçar; faça beicinho quem quiser fazer: nos últimos seis anos, Bocalom se consolidou como uma das maiores lideranças políticas do Acre. Fato.

Inicialmente carregado nos ombros de Petecão e, na sequência, com o afago de Marcio Bittar, Bocalom não quer perceber as diferenças de cenários que podem complicar o desempenho eleitoral dele, sobretudo quando os adversários não estão em pólos ideológicos opostos. Em entrevistas, desdenha de pesquisas e sempre lembra das “quase vitórias” nos pleitos contra a extinta Frente Popular do Acre.

Uma coisa é a história justificar a desconfiança de Bocalom com as pesquisas. Outra bem diferente é não se perceber a diferença dos tempos políticos. O cenário político eleitoral, incluindo a atual contaminação do que vem do Brasil maravilha, é outro.

No caso do Acre, há um complicador para Bocalom: os três principais nomes da disputa ao Governo estão no mesmo campo ideológico: transitam da direita para a extrema direita. Isso embaralha a cabeça do eleitor. Todos são homens e mulheres “de bem”; defendem menininha de rosa e menininho de azul; têm antipatia por floresta em pé; querem milho, soja, boi, asfalto e, talvez, alguma samambaia ao fundo para compor a cena do Instagram.

Essa uniformidade das retóricas nas três personagens políticas que lideram as pesquisas dificulta o entendimento do eleitor. Dificulta porque não será polarizada. Em 2026, os marqueteiros do Acre não terão a facilidade de tratar a política de forma maniqueísta. As trilhas do Boi de Parintins por aqui, neste pleito, não têm sentido. Essa disputa monocromática Bocalom nunca enfrentou na corrida ao Palácio Rio Branco. Vai ter que abusar da simpatia, uma moeda cara, sobretudo quando lhe tiram o espelho.

No Acre, esta será, portanto, uma eleição cujo apelo emotivo terá um valor acima da média. A definição estará em nuances; estará em impressões que carreguem um apelo que represente alguma segurança ao eleitor. E, claro, somado a todos esses elementos subjetivos, dinheiro.

Muito dinheiro. Ou, para usar uma palavra que se contorce para evitar o óbvio, “estrutura”.
No canto da sala, olhando toda essa movimentação, está Alysson Bestene. Ele já ensaia alguma simpatia quando pega o microfone para discursar a cargos comissionados. E talvez não consiga ter muito molejo a mais porque a herança do chefe oferece desafios muito grandes em cenários nacional e internacional de muita instabilidade.

Saindo da bolha governamental, Alysson terá muita dificuldade de dialogar nos bairros diretamente com o morador, sem mediação com presidentes de associações. Direto com o munícipe da periferia, a conversa é outra. E quanto mais periférico for o bairro, mais azeda fica a prosa.

Alysson Bestene herda problemas graves em várias áreas, mas este espaço editorial destaca duas em específico: transporte coletivo e agricultura, com tudo o que o segmento agrícola exige. Foram duas áreas maltratadas, quase negligenciadas, pela gestão. Ironicamente, as duas mais criticadas por Bocalom quando pleiteava chegar à Prefeitura de Rio Branco.

No tom azul pollyana, Alysson Bestene pode ter 70 motivos de obras ainda inacabadas para inaugurar, além dos elevados, a creche para 600 crianças, prédio da RBPrev e indústria de leite de soja para se auto enganar. Cometerá um grave erro se se deixar levar por esse espírito de gestão eficaz. O desafio de Alysson Bestene será conseguir imprimir um jeito próprio à administração e descobrir o óbvio: o talento não está em construir espaços públicos, mas manter os que já existem funcionando com excelência.

Alysson não pode, não quer e nem teria condições (técnicas e estéticas) de dar cavalo de pau na administração da Prefeitura de Rio Branco. O maior desafio de Bestene estará na área política, com destaque para a relação com a Câmara dos Vereadores, que já aquece os requebros pensando em 2028.

Com a antipatia de importantes personas da casa mais poderosa da Avenida Brasil, Alysson vai ter que bancar a ideia, alimentada por Bocalom, de que a Prefeitura de Rio Branco é poderosa demais para depender de parcerias, seja com o Estado ou com o Governo Federal. Afinal de contas, o chavão determina que “se não roubar, o dinheiro dá”. Não é isso? Então, segura que a fatura agora é tua, Alysson.

Fonte: Conteúdo republicado de ac24horas

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