A hora da Estrela… (março, o mês que não deveria acabar…)

Naquela manhã de sábado, dia em que o Senhor descansou, todos os jornais, sites, emissoras de rádio e TV estampavam a manhete: “Mulher é assassinada à facadas na frente dos filhos por se recusar a fazer sexo”.

O quê, quem, quando, onde, como e por quê? O agente, o tempo, o modo, a ação, o lugar, o motivo? A notícia do brutal assassinado se espalhou na cidade. Todos comentavam, falavam, opinavam, condenavam o crime dantesco: “Monstro”, “assassino”, “demônio” …

Durante a madrugada, o suspeito invadiu a residência da vítima, aproveitando o momento em que ela dormia. Iniciou uma discussão. Ele queria sentir prazer, afogar sua vida desgraçada em suas entranhas para depois machucá-la como fizera inúmeras vezes. Ela disse não. Era insuportável a dor, o suor fétido de sua alma transbordando de álcool e drogas.

Enfurecido, o agressor se apossou de uma faca desferindo vários golpes contra ela na presença de três filhos. Um deles, um bebê de apenas dois meses. Mesmo ferida, ela correu em busca de socorro. Seus gritos ecoaram na noite escura entre as vielas das palafitas, às margens do rio. Ninguém ousou socorrê-la. O silêncio foi absoluto, apenas um peito ofegante, um coração dilacerado, o sangue quente se espalhando …passos de fuga.

No início daquela noite marcada pela tragédia, a mulher havia procurado refúgio em uma pequena igreja próxima de sua casa. Lá, ela recebeu orações e palavras de conforto, além de promessas de uma vida mais próspera, tranquila e segura. Ela vivia com medo.

Nos dois dias seguintes ao seu assassinato, a cidade falou sogre o crime e o destino  daquela mulher desconhecida para a maioria. O trágico destino dos filhos, especialmente do bebê.

No entanto, com o passar do tempo, seu nome desapareceu das conversas e memórias dos moradores. O esquecimento coletivo evidencia como, apesar do choque inicial e da comoção, a vítima tornou-se apenas mais uma entre tantas histórias de violência silenciadas e apagadas pelo cotidiano. O mês de março nunca deveria acabar…

Astério Moreira, jornalista há 38 anos, colunista político do ac24horas, apresentador do Gazeta Entrevista (TV GAZETA) e do programa A Voz da Cidade (ECOACRE FM), graduado em Ciências Políticas.

Fonte: Conteúdo republicado de ac24horas

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