
Em meio ao aumento do uso das chamadas canetas emagrecedoras, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) investiga seis mortes por pancreatite possivelmente associadas a esses medicamentos no Brasil. A repercussão reacendeu dúvidas sobre outros efeitos graves, como a possibilidade de cegueira. Segundo a endocrinologista Verônica El Afiouni, especialista em metabolismo e emagrecimento sustentável, é preciso separar informações comprovadas de interpretações equivocadas.
Entenda
O que a Anvisa está investigando
As notificações analisadas pela Anvisa envolvem medicamentos da classe dos agonistas do GLP-1, indicados principalmente para diabetes e obesidade. Entre os princípios ativos citados estão semaglutida, liraglutida, dulaglutida e tirzepatida.
Dados do sistema VigiMed apontam 225 notificações suspeitas de pancreatite associadas a esses produtos, considerando registros de uso comercial e estudos clínicos. Entre 2020 e 2025, foram 145 notificações oficiais. Como o relato de eventos adversos não é obrigatório, especialistas avaliam que o número real pode ser maior.
O tema ganhou ainda mais visibilidade após autoridades sanitárias do Reino Unido emitirem alerta semelhante, reforçando a necessidade de acompanhamento médico durante o tratamento.

Cegueira: mito ou realidade?
A possibilidade de cegueira é uma das dúvidas mais recorrentes — e, segundo a endocrinologista, um dos maiores mitos em torno dessas medicações.
“A cegueira não é considerada um efeito adverso esperado nos protocolos de emagrecimento com análogos de GLP-1”, afirma Verônica. O que existe, segundo ela, são relatos de agravamento da retinopatia diabética em pacientes com diabetes que apresentam uma queda muito rápida da glicemia.
Esse risco, porém, não se aplica a pessoas que usam as canetas exclusivamente para tratar a obesidade ou fazem um controle glicêmico gradual. “A redução abrupta da glicose pode acelerar uma complicação que já existia, mas isso é restrito a diabéticos com retinopatia prévia”, explica. Ou seja, não se trata de um efeito direto do medicamento nem de um risco generalizado.
Efeitos comuns e riscos mais conhecidos
De acordo com Verônica El Afiouni, os efeitos colaterais mais frequentes das canetas emagrecedoras são gastrointestinais, como náuseas, vômitos, diarreia, constipação e dor abdominal. Eles costumam surgir nas primeiras semanas, especialmente durante o ajuste de dose, e tendem a diminuir com o tempo.
Entre os efeitos raros, mas graves, estão distúrbios biliares, pancreatite aguda, alterações psiquiátricas, problemas renais e hepáticos.
“Sintomas intensos ou persistentes exigem suspensão da medicação e avaliação médica imediata”, alerta.

Pedra na vesícula: um risco confirmado
Diferentemente da cegueira, a formação de cálculos biliares é considerada um risco real e documentado. Segundo a médica, estudos com medicamentos como a liraglutida identificaram aumento de casos de pedra na vesícula, especialmente quando há perda de peso rápida.
“O risco está relacionado tanto ao emagrecimento acelerado quanto à ação da medicação no sistema biliar”, destaca a endocrinologista. Por isso, o acompanhamento médico contínuo é fundamental para identificar sinais precoces e reduzir complicações.

Uso seguro exige acompanhamento
Apesar da eficácia das canetas emagrecedoras no controle do peso e de doenças associadas, especialistas reforçam que o uso não deve ser banalizado. A avaliação individual, o monitoramento regular e a orientação médica são essenciais para maximizar os benefícios e minimizar os riscos — especialmente diante de investigações em andamento e do aumento do uso fora de indicação.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

Deixe um comentário