
Irmãos, filho, cunhado e esposa. Ao menos cinco pessoas de uma mesma família, moradora do Recanto das Emas, no Distrito Federal, estão por trás da criação da Associação dos Aposentados do Brasil (AAB) – uma das instituições investigadas no caso que ficou conhecido como a Farra do INSS.
Desse total, pelo menos três integrantes tiveram pedido de indiciamento solicitado pela CPMIque investiga os descontos ilegais em aposentadorias e pensão da Seguridade Social.
Entre eles está Dogival José dos Santos, que presidia a AAB. A entidade foi criada especificamente para replicar o modelo de descontos não autorizados aplicado pela Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Rurais (Conafer) – outra instituição envolvida nas fraudes.
Conforme consta no relatório final da comissão, Dogival ocupava posição de liderança estratégica e operacional no núcleo da organização criminosa mantida por seu círculo familiar.
Uma quebra de sigilo financeiro, encaminhado à comissão, aponta Dogival – que era motorista, como um dos principais emissores e receptores de recursos dentro da rede de branqueamento do grupo.
Entre 2019 e 2025, o homem realizou 353 depósitos em favor da esposa, Lucineide dos Santos Oliveira, totalizando R$ 741 mil. “Tais transações fracionadas e repetitivas configuram a técnica de smurfing – utilizada para ocultar o rastro do dinheiro e dificultar a fiscalização bancária”, disse a CPMI.
Além disso, Dogival é acusado de articular a gestão de recursos com o filho – Dogival José dos Santos Júnior, e com o cunhado, Samuel Chrisóstomo – que também atuava como contador da Conafer, utilizando empresas de faixada para lavar o proveito dos crimes.
“Ao comandar a transição da AAB para o setor previdenciário e operar o duto financeiro que escoava milhões de reais para o seu núcleo familiar, o indiciado usurpou a ética associativa e concorreu diretamente para a lesão patrimonial de milhões de brasileiros vulneráveis”, declarou a CPMI, que pediu indiciamento do homem por organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Responsável pelas empresas de faixada
Samuel Chrisóstomo era o responsável por movimentar e lavar vultosos volumes de recursos, operando um núcleo que, em conjunto com sua irmã Lucineide dos Santos Oliveira, transacionou cerca de R$ 250 milhões de origem ilícita.
Citado como o terceiro principal operador financeiro da organização criminosa liderada por Carlos Roberto Ferreira Lopes, presidente da Conafer, Samuel Chrisóstomo é acusado de comandar um “complexo ecossistema de empresas de fachada destinadas a absorver, circular e ocultar ativos extraídos de segurados do INSS”.
O Metrópoles denunciou, em novembro de 2025, que Samuel, Lucineide e uma terceira pessoa vinculada à Conafer criaram diversos CNPJs distintos que operavam no mesmo conjunto de endereços na capital da República. A maior parte dos empreendimentos supostamente funcionam na parte superior de um pequeno sobrado no Recanto das Emas.
Segundo a CPMI, as investigações revelaram que as empresas de Samuel, além de lavarem recursos da AAB, emitiam notas fiscais frias para justificar contabilmente o recebimento de valores da Conafer.
O esquema caracterizava-se por um “ciclo fechado”, onde os recursos saíam da Conafer para as empresas do investigado e, em seguida, eram repassados para empresas ligadas ao assessor do presidente da confederação.
Para garantir o controle absoluto do esquema, Samuel posicionou familiares próximos, como sua mãe, irmão e filho, em cargos de cúpula e conselhos da AAB.
Na qualidade de pessoa física, Samuel recebeu ao menos R$ 15 milhões de suas próprias empresas de fachada.
Diante dos fatos, a CPMI pediu o indiciamento de Samuel por organização criminosa, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica, corrupção ativa e participação em furto e fraude eletrônica.
Os repasses
No relatório, a CPMI disse que Lucineide dos Santos Oliveira atuava tanto como tesoureira da AAB quanto no núcleo financeiro que operava as fraudes da Conafer.
Ela também é apontada como uma operadora estratégica na lavagem de dinheiro e na pulverização de recursos desviados de aposentados.
“A indiciada controlava a Expresso Serviços de Publicidade e Marketing, a Impacto Serviços de Apoio Adm e a Solution Serviços de Locação e Apoio. Tais empresas, sediadas em endereços no Recanto das Emas (DF) e sem funcionários registrados, receberam o total de R$ 141 milhões, sendo R$ 138,9 milhões da Conafer e R$ 2,9 milhões da AAB”, disse a CPMI.
Como pessoa física, Lucineide recebeu R$ 160,9 milhões entre 2019 e 2025, dos quais R$ 113 milhões vieram diretamente da Conafer. “Essa movimentação é flagrantemente incompatível com sua realidade econômica, visto que em 2022 ela possuía renda formal de apenas R$ 2 mil e histórico de inscrição no CadÚnico”, consta no relatório.
A investigação financeira comprovou que Lucineide transferiu R$ 40 mil, em 2024, para o servidor Pedro Alves Corrêa Neto, apontado como o principal técnico que facilitava os processos das associações na DIRBEN/INSS.
Por meio de sua empresa Expresso Marketing, Lucineide enviou R$ 9,5 milhões para a BSF Gestão em Saúde – controlada por Danilo Trento – e repassou R$ 5,94 milhões para o BK Bank – instituição investigada por lavar dinheiro para organizações criminosas.
Além disso, efetuou uma transferência única de R$ 600 mil, em 2024, para o Auto Posto Topa Tudo – estabelecimento localizado em Minas Gerais e utilizado para branqueamento de capitais.
Ainda segundo o relatório, Lucineide transferiu cerca de R$ 700 mil para o escritório de Milena Câmara, filha do Deputado Federal Silas Câmara. Esses pagamentos ocorreram entre 2023 e 2024, coincidindo temporalmente com reuniões de articulação entre o parlamentar e o presidente da Conafer.
Após o início dos repasses milionários, Lucineide adquiriu uma frota incompatível com seus rendimentos: um Porsche Boxster 2023, uma Mitsubishi Triton 2024 e um VW T-Cross 2025. A Polícia Federal aponta que ela também registrava veículos de terceiros em seu nome para blindar o patrimônio dos líderes da organização.
Com isso, Lucineide teve pedido de indiciamento feito pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica.
O outro lado
O Metrópoles tentou contatar os envolvidos, mas não obteve retorno até a última atualização no texto. O espaço segue aberto para manifestação.









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