Barril de petróleo furado e papeis podres do Master (Gustavo Krause)

Kevin Dietsch/Getty Images
Donald Trump

O ano de 2026 começou intenso e veloz. A tradição da pausa do calendário gregoriano – Natal e Réveillon – foi afetada pelo choque de eventos que prejudicaram o ambiente de festa, descanso e reflexão. Dentro e fora do Brasil. Por coincidência, o mês de janeiro tem sido cruel, sem desmerecer o abril, como o mais cruel dos meses, assim referido por T.S. Eliott na abertura do grandioso poema “Terra Desolada”  (tradução controversa).

Por motivos diferentes da inspiração poética, 06 de janeiro de 2021 registrou o grave atentado ao Capitólio, ameaça concreta à democracia americana; o 08 de janeiro de 2023 marcou a nossa história política pelo vandalismo furioso dos “idiotas úteis” que degradou o patrimônio público, porém, esbarrou na força institucional da ordem democrática; por fim, o 03 de janeiro de 2026 passará para a história como mais um episódio da voracidade expansionista dos impérios, no caso, o neoimperialismo trumpista, amparado pelo corolário da Doutrina Monroe, a  Doutrina Donroe.

Trump não enganou. Está saindo pior do que a encomenda. Há um equívoco conceitual em se falar numa política externa do governo Trump. O Presidente dos EUA não é político, conceito nobre, estranho a um cidadão que não tem o menor respeito pelos valores, princípios e o conjunto de regras de convivência pacífica  que resolvem divergências, conflitos, com o diálogo civilizado.

Trump, rei dos cínicos (nada a ver com a corrente filosófica fundada pelo grego Antístenes), é o sujeito que “sabe o preço de tudo e o valor de nada” na definição magistral de Oscar Wilde. Para o presidente americano, a democracia não vale um barril de petróleo furado; a soberania dos povos, um punhado de “terras raras”; o multilateralismo não passa de uma aliança dos fracos e perdedores (os “loosers”) para se proteger dos fortes e vencedores (os “winners”) na visão binária e arrogante do mundo.

Convenhamos, quem prestar minutos de atenção ao Presidente americano vai perceber ele não tem um corpo: Trump é uma paisagem. Desértica. Agressiva. Dela emanam faíscas que derretem o gelo das calotas polares; labaredas que incendeiam a paz e promovem o trágico morticínio das guerras.

Por sua vez, o narcisismo patológico e o ego monstruoso infantilizam a política. O prêmio Nobel é o pirulito que foi negado ao menino birrento pelo Comitê Norueguês. O preço a ser pago é a Groenlândia. Pelo valor geográfico estratégico.  Pela disponibilidade das “terras raras”, insumo essencial para os produtos criados pela moderna tecnologia. O espetáculo deprimente protagonizado por Maria Corina Machado não aplacou a apetite do estranho pacificador.

O desdobramento inspirou uma embromação: a criação do Conselho de Paz. Para quem somente admite o argumento da força, a patranha está na proposição de um espaço em que o diálogo seria o mecanismo adequado para soluções consensuais. Trump quer uma “ONU” para chamar de sua. O premiê canadense, Mark Charney, em Davos, contrapôs um discurso firme, digno, exemplar: “Estamos no meio de uma ruptura da ordem mundial, e não diante de uma transição[…] O fim de uma ficção confortável e o início de uma realidade brutal […] A ordem baseada em regras está se esvaindo, que os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem”.

Na sequência, Trump segue o roteiro de dizer e desdizer; usar superlativos para elogios cavilosos e ofensas gratuitas. Não se resume a um movimento tático para confundir. Vai mais longe: é um método para manter a instabilidade da ordem global. Gerar incertezas. Semear o medo. Ocupar as mídias com um enorme bombardeio de factoides. Dessa forma, a paisagem Trump, sombria e ameaçadora, fortalece o autoritarismo em franca expansão, no século XXI, turbinado pelo afrontoso processo de erosão democrática.

Trump não é um homem de Estado. É o insensato CEO da formidável multinacional – os EUA – que, numa das mãos, maneja enorme poder econômico e, na outra, carrega as armas letais de potência nuclear. A esperança é que a democracia, nas eleições americanas de meio de mandato, derrote a caquistocracia, o governo dos piores.

No plano nacional, a liquidação extrajudicial do Banco Master, em 18 de novembro, jogou papeis podres no ventilador e afetou o feriado de milhões de brasileiros. Escândalo monumental. Para muitos, Papai Noel foi reduzido a uma sigla da burocracia financeira: o FGC. Para outra multidão, os prejuízos alcançam empréstimos consignados, a previdência de sevidores estaduais e municipais, a clientela de baixa renda, todos enfeitiçados pelos “atraentes produtos” do Will Bank, braço do Master, batizado pelo pernóstico anglicismo incorporado ao hermético idioma do mercado financeiro.

Na ponta, todos nós, cidadãos brasileiros, vamos pagar o “spread”, cobrado pelos bancos nas operações financeiras. A cada dia, “a maior fraude bancária da história do país”, acumula sujeira de forma espantosa. Não devia surpreender. Este é modelo de negócios da corte brasiliense. Aperfeiçoado. Começa pela construção de uma rede de influência e proteção. Bem articulada. Que se alastra pelos poderes da República exibindo o viço e a força das raízes patrimonialistas e conexões corporativistas. É imundície para todo lado.

Para além das suspeitas, há evidências de conflitos de interesses; para além de impressões digitais, há claros sinais de advocacia administrativa.

Existem, todavia, contrapontos à ação deletéria que atinge a confiança institucional: o jornalismo vigilante, a emergência do debate público, o ativismo da sociedade civil e o controle social exercido pelas entidades de fiscalização, investigação. A expectativa é que cumpram com o dever legal.

Diante de “tenebrosas transações”, o debate público tem se ocupado da adoção de um código de conduta/ética pelo STF. Por dever de ofício, os profissionais do direito sabem que a ética é a medida do caráter e da integridade das pessoas. Prescinde de regras impostas a exemplo do agir de forma justa, observando princípios interiores e valores inegociáveis.

No entanto, que venham “os códigos”! E que atendam à máxima latina, tão a gosto da rebuscada erudição dos homens da lei: “Quod abundant non nocet”, traduzindo, “o que abunda não prejudica”.

Gustavo Krause foi ministro da Fazenda 

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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