Brasileiros criam IA capaz de identificar sinais de depressão pela voz

Andriy Onufriyenko/Gettyimages
Ilustração mostra uma pessoa em frente a várias representações de conversas com IA - Metrópoles

Ferramentas de inteligência artificial (IA) treinadas por pesquisadores brasileiros conseguiram identificar sinais de depressão a partir da voz dos pacientes, sem analisar o conteúdo das falas. A tecnologia avalia só características acústicas, como o ritmo, a entonação e a intensidade da voz.

O estudo, publicado na revista científica PLOS Mental Health, usou áudios enviados pelo WhatsApp com respostas a perguntas bem simples, como relatar atividades da semana ou contar de um a dez. Sete modelos de inteligência artificial foram treinados para reconhecer padrões vocais associados a quadros depressivos.

Como a IA identifica sinais de depressão pela voz

A pesquisa foi conduzida pelo psiquiatra Ricardo Uchida, professor da Faculdade Santa Casa de São Paulo e principal autor do estudo. Em vez de analisar o que a pessoa dizia, que era o esperado, os sistemas observaram como a pessoa falava, dando ênfase ao ritmo, entonação, intensidade e variações do som.

Essas características da fala costumam mudar quando o estado emocional muda. Em quadros depressivos, por exemplo, a voz tende a ficar mais lenta e monótona. A novidade do estudo foi ensinar esses sinais à inteligência artificial, que passou a reconhecer automaticamente esse tipo de mudança.

O treinamento dos modelos foi feito com áudios de 160 pessoas. Desse total, 78 tinham o diagnóstico de depressão e 82 não apresentavam o transtorno. Em testes com falas do cotidiano, a tecnologia identificou os padrões com taxa de acerto de até 91,9% entre mulheres e cerca de 78,3% entre homens. 

Diferença entre homens e mulheres

Os modelos tiveram desempenho melhor entre mulheres do que entre homens, mas os pesquisadores ainda não sabem exatamente por quê. Entre as possíveis explicações estão diferenças naturais na voz masculina e feminina, o número menor de homens no estudo e o fato de a depressão ser mais diagnosticada em mulheres, o que pode influenciar a forma como os padrões são identificados.


O que é a depressão?


Imagem impactante de uma mulher madura olhando pela janela do quarto - IA é capaz de identificar sinais de depressão pela voz, diz estudo - Metrópoles
A depressão afeta mais de 300 milhões de pessoas no mundo, sendo uma das principais causas de incapacidade

IA como ferramenta de apoio, não de diagnóstico

Mesmo que os resultados do estudo tenham sido promissores, eles ainda não são suficientes para o uso clínico direto. O número de participantes e a diferença de desempenho entre os homens e as mulheres indicam que a ferramenta ainda precisa de mais testes antes de ser aplicada na prática.

A proposta é que a IA ajude funcionando como uma ferramenta de triagem e apoio ao acompanhamento dos pacientes com depressão. Outro fator importante é que o sistema identifica padrões de forma estatística e não leva em conta a história de vida da pessoa. 

É importante lembrar também que o diagnóstico da depressão continua dependendo totalmente de uma avaliação clínica de profissionais de saúde que estudaram essa área, considerando sintomas persistentes e o impacto na rotina pessoal, social e profissional do paciente.

Impacto da ferramenta para a saúde pública

Esse avanço é especialmente importante em um cenário de aumento dos diagnósticos de depressão no Brasil. Dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) mostram um crescimento de 33% nos casos de depressão entre 2020 e 2024, com maior prevalência entre mulheres. 

Nesse contexto, ferramentas digitais de baixo custo podem ajudar a ampliar o rastreamento dos casos de depressão, principalmente em regiões com poucos profissionais especializados nessa área. A proposta é usar a tecnologia para ficar mais fácil identificar as pessoas que precisam de avaliação médica sem substituir o atendimento humano.

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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