
Apesar de ser um solo pobre em nutrientes, a mata de restinga abriga árvores densas, cheias de folhas e com aparência vistosa, como a caroba (Jacaranda puberula). Segundo um novo estudo, o segredo por trás dessa contradição está ligado à água acumulada pelas bromélias-tanque epífitas, um líquido cheio de nutrientes e que fertiliza o solo ao transbordar.
O comportamento foi batizado de “interação remota entre plantas”, visto que acontece entre organismos distantes. A descoberta liderada por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) foi publicada na revista científica Plant and Soil em outubro.
Esse tipo de bromélia se caracteriza pelo acúmulo de água entre suas folhas e por viver em cima de outras plantas. Dentro do líquido, caem restos de animais e outros vegetais, fornecendo nutrientes quando eles liberam detritos. Quando transborda no solo através da chuva, a “solução fertilizadora” contribui para o crescimento de outras espécies.
“As bromélias podem acumular até 50 mil litros de água por hectare em florestas tropicais. Constatamos agora que o extravasamento dos tanques dessas plantas, ao criar manchas de solos mais ricas em nutrientes, pode facilitar o crescimento de plantas com alta demanda nutricional, como a caroba”, aponta o primeiro autor do trabalho, Tháles Pereira, em entrevista à Agência Fapesp.
Durante experimentos, foi possível identificar que folhas de caroba irrigadas com água fertilizadora das bromélias tinham 35% mais potássio, 36% mais fósforo, 3% mais ferro e 24% menos manganês, nutriente tóxico para algumas espécies vegetais.
Também foi detectado um aumento quase duas vezes maior na produção de folhas, em comparação às irrigadas somente com água da chuva. “As bromélias-tanque epífitas, embora ocorram na copa das árvores, têm um papel ecológico importante também para as comunidades do solo, uma função até recentemente sem suspeitas”, ressalta o coordenador do trabalho, Gustavo Romeiro, professor do Instituto de Biologia da Unicamp.
Como foi encontrado o “poder” das bromélias
Os pesquisadores coletaram amostras de água de bromélias e outras de água da chuva. Para provar que de fato detritos depositados no líquido das plantas liberavam nutrientes, em dez dos 30 fragmentos líquidos coletados das bromélias foram inseridas folhas de pitanga com um tipo nitrogênio rastreável por análises químicas.
Em comparação com a água da chuva, a solução das plantas tinha duas vezes mais nitrogênio, quatro vezes mais cálcio, dez vezes mais magnésio, seis vezes mais enxofre e pelo menos 11 vezes mais fósforo. Outros nutrientes também foram detectados.
De acordo com os cientistas, a nova etapa do trabalho será entender como as bromélias influenciam a diversidade e funcionamento de microrganismos presentes no solo. “Esse estudo revela um novo papel ecológico das plantas e reforça a necessidade de sua conservação, já que sua redução pode desencadear perdas em cascata de espécies e funções ecológicas”, finaliza Romero.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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