
Há dois equívocos teóricos recorrentes quando se pensa um objetivo da análise: aquele que entende que a psicanálise seria um hedonismo ingênuo, uma liberação das pulsões e dos desejos; e outro, de que a psicanálise buscaria “delimitar o gozo”. Soaria como se estivéssemos propondo uma moral hedonista ou ascética, um movimento dionisíaco ou uma renúncia cristã ao prazer. Não se trata disso. A psicanálise não é uma pedagogia do prazer ou da abstinência. Ao contrário, ela busca distinguir gozos. E, justamente por distingui-los, aposta que é possível passar de um tipo de gozo a outro.
Gosto da expressão do psicanalista argentino Isidoro Vegh: é preciso delimitar o gozo parasitário que nos habita para que outros gozos possam emergir. A experiência de uma análise visa, sobretudo, circunscrever esse gozo específico, aquele que nos captura de modo compulsivo, repetitivo, que nos arrasta sem que haja ali decisão ou invenção subjetiva. Não se trata de eliminar o gozo, mas de perder algo desse gozo parasitário para que surja um gozo mais articulado ao desejo.
O Carnaval nos oferece um bom exemplo. Há quem passe meses preparando sua fantasia, organizando o bloco, preparando uma viagem, ensaiando, compondo, cuidando dos detalhes. Há esforço, há investimento, há criação. O prazer que daí advém não é o de um consumo desenfreado, mas o de uma construção comum. Existe gozo, sem dúvida. Mas há também sublimação, uma transformação do impulso em algo que circula socialmente, que produz laço, que cria cultura e nos exige, ao menos temporariamente, uma perda desse gozo parasitário.
Tomemos outro cenário: o “kit” de drogas, a programação frenética de festas, a combinação de substâncias, os aplicativos de pegação, o chemsex, o tadala, a violência sexual. Slavoj Žižek, ao criticar certas formas contemporâneas de carnavalização, falou de uma “orgia opressiva”, uma exigência de gozar que se torna, ela mesma, um imperativo sufocante que mantém intactas as estruturas de poder que nos oprimem.
Nos dois casos, trata-se de gozo. Mas não do mesmo modo. No primeiro, há um trabalho de sublimação. No segundo, frequentemente vemos sujeitos levados por um automatismo que os isola, ainda que cercados de gente. É o gozo que separa, que desconecta, que reduz o outro e o próprio sujeito a uma posição de objeto. Não há por que idealizar esse gozo parasitário como se ele fosse, em si mesmo, emancipação.
Lacan, em certo momento, chamou de “gozo do idiota”, não no sentido banal da tolice, mas evocando o idiotes grego: aquele que se recusa a pensar a política, a vida em comunidade, aquele gozo fechado em si mesmo que resulta em um erotismo masturbatório, mesmo quando praticado a dois, três ou mais, uma experiência que gira em torno do mesmo aspecto da fantasia, sem uma verdadeira abertura ao outro.
O Carnaval pode ser o cenário em que esse gozo ganha uma fantasia ofuscante, tão sedutora que engana o próprio sujeito. Nesse cenário, o sujeito se verá na tarefa de poder acionar os recursos disponíveis e conquistados por ele ao longo de sua vida ou análise.
Nem sempre é apenas a ressaca que denuncia o excesso. Às vezes, é a angústia dos dias seguintes, um vazio difuso, uma tristeza que aponta que algo ali não foi apenas celebração, como o sujeito gostaria de acreditar.
Por isso, talvez valha a pena curtir o Carnaval um pouco advertidos pelo trabalho que fizemos, ou poderíamos fazer, ao longo de nossa análise pessoal. Advertidos de que há um preço quando nos entregamos sem reservas aos gozos parasitários que nos habitam. Advertidos da necessidade de utilizarmos os recursos necessários frente a eles: a arte, o desejo, o trabalho, o relacionamento amoroso, as amizades.
O Carnaval deve, sim, ser um momento de liberdade, na esfera amorosa, sexual, moral. Ele suspende normas, flexibiliza códigos, instabiliza determinações, abre possibilidades de encontro que, em outros momentos do ano, parecem interditadas. Mas, apesar de oferecer as condições para essa liberdade, ele não garante, por si só, que saibamos usufruí-la.
Para que essa liberdade seja, de fato, vivida, talvez seja preciso algo mais difícil: libertar o nosso “sexual”, em seu sentido mais amplo, da pobreza de certos aspectos da nossa fantasia inconsciente, essa muito menos colorida, muito menos diversa que aquelas que a gente veste para se divertir. Tais fantasias inconscientes nos infantilizam, nos fazem servos de movimentos compulsivos, fixos, rígidos, que nos fazem gozar de maneira hipnótica, como objetos de gozo do Outro.
Que saibamos fazer do Carnaval um laço, um novo erotismo, uma afirmação da vida, que se torne mais um recurso frente ao gozo parasitário, e não o disfarce que nos autoriza a chafurdar ainda mais nele, solitários, sob o nome de liberdade.
Agora, um comentário aos meus amigos psicanalistas que estarão ou não nos blocos: a psicanálise já gostou do Carnaval, e talvez precisemos lembrar disso neste feriado. Em 1985, o Copacabana Palace foi atravessado pela Beija-Flor de Joãozinho Trinta, recém-assumido publicamente como homossexual, levando o brilho da avenida para dentro do congresso do Colégio Freudiano, carinhosamente apelidado de “Congresso de Psicanálise da Banana”. Ali estavam Gilberto Freyre, Newton da Costa, José Celso Martinez Corrêa. Lacan chegava ao Brasil em meio à dança, ao tropicalismo e à invenção. Não como doutrina austera, mas como acontecimento cultural.
Essa cena não é um detalhe pitoresco da história institucional. Ela dialoga diretamente com o que acabo de comentar: distinguir os gozos não é empobrecer a festa, não é afastar o gozo, é inventar outra forma de satisfação. A aproximação entre psicanálise, teatro, lógica, Carnaval e samba não foi um capricho estético: foi um modo brasileiro de digerir uma teoria estrangeira. Talvez possamos recuperar algo desse gesto: uma transmissão viva, que desarticule a submissão e implique um modo próprio de gozar no laço social.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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