
Os pilotos de carro alegórico não sonham com alta velocidade ou bandeira quadriculada, como seus colegas da Fórmula 1. O objetivo de quem conduz uma alegoria que pode atingir 15 metros de altura e 30 toneladas é evitar problemas e cruzar os 530 metros do Sambódromo do Anhembi sem “pit stop” ou atropelos no Carnaval de São Paulo.
Parece simples, mas tem que ter a manha. Em algumas situações, é necessário contorcionismo até para entrar na alegoria, como sentiu na própria pele a reportagem do Metrópoles ao longo desta semana. Uma vez lá dentro, a visão do lado de fora é praticamente nula, em alguns casos.
Como outro tipo de piloto, o de aviões, os condutores dos carros alegóricos também “operam por instrumentos”. Em boa parte dos casos, eles recebem instruções via rádio, de quem está do lado de fora e precisa corrigir algum posicionamento. Mas também há a possibilidade de serem instaladas câmeras.
“A câmera pode não funcionar, então a gente tem também o pessoal com rádio e dando apoio ao lado, gritando, se necessário”, afirma Rogério de Oliveira, o Preto, 49 anos de vida e 25 de Carnaval, representante da Estrela do Terceiro Milênio.
Atualmente, Oliveira não pilota durante o desfile, mas tem uma função que é vista como essencial e até mais difícil do que atravessar a avenida em linha reta. Ele guia o carro desde o barracão na Fábrica do Samba, um trajeto de 1,5 km, e faz manobras na baia da escola no Anhembi, passando por ruas interditadas e tirando finas com habilidade rara.
Renato Martins Novaes, 43 anos, é responsável pelas alegorias da escola do Grajaú, onde também faz trabalho social com a comunidade. Filho de motorista de ônibus, ele tem a paixão por veículos desde criança, mas o Carnaval o pegou. “No início de tudo, você vê ferros retorcidos e, de repente, são esses monumentos lindos, maravilhosos, na avenida”, afirma.
Renatão do Veneza, como é conhecido, mostrou como funciona o quadripé da Estrela doTerceiro Milênio, um carro menor, sem motor, empurrado por quatro pessoas, mas nem por isso menos importante para contar um enredo.
Por uma pequena janela telada, o piloto é orientado por quem está à frente, do lado de fora. “Alguns carros nem têm a visão”, diz.
Renatão tem uma comparação bastante precisa sobre a velocidade com a qual deve pilotar o veículo. “É como uma senhorinha caminhando na avenida”, diz. Pilotos disseram que os carros trafegam a 2 km/h ou 3 km/h, uma vez no sambódromo. Nas ruas, durante o transporte, a 10 km/h, no máximo.
Motor
A Estrela do Terceiro Milênio é uma das escolas em São Paulo que contam com carros alegóricos motorizados. Eles têm como base chassis de ônibus, sobre os quais são construídas as alegorias ano a ano.
Em São Paulo, só uma minoria entre as escolas conta com esse tipo de veículo. Na maior parte, as alegorias gigantescas são empurradas pela turma da “merenda” e guiadas, à frente, por um sistema conhecido como “cambão”, que dá a direção do lado de fora mesmo, sem um volante interno.
Quando não conta com um motor, um carro alegórico de 30 toneladas precisa de 30 pessoas para empurrá-lo ao longo da avenida.
Responsabilidade
Há nove anos na Barroca Zona Sul, Wendel Alessandro Cesar, de 28, diz que é gratificante ter a função de conduzir carros alegóricos, mesmo com toda a responsabilidade que carrega nas costas. “Qualquer falha, você pode bater ou machucar a alegoria”, afirma
No transporte até o Anhembi ou mesmo em manobras na concentração, ele comanda o carro com as mãos, propriamente. Durante os desfiles, entretanto, fica do lado de fora, orientando os pilotos via rádio. “É uma parte muito importante. Você tem o entendimento de tudo o que se passa dentro dos carros alegóricos”, afirma.
Vindo de Parintins, o serralheiro John Hebert Costa Silva, 45 anos, pilota a alegoria presente na comissão de frente da Dragões da Real, mas participa também da movimentação de carros durante os ensaios.
“Tem que ter muita responsabilidade, é o primeiro carro que entra na avenida. Qualquer deslize pode acarretar na punição, em perda de pontos.”
Silva é orientado por rádio até colocar o carro em frente ao portão. Uma vez posicionado, segue a linha amarela no centro da avenida e conduz a alegoria até a dispersão. “Não tenho visão nenhuma, só olho para a linha amarela. Sei que está no centro, não pode desalinhar, é o tempo inteiro reto”, diz.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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