Caso do cachorro Orelha e o Brasil que cria intocáveis

Reprodução/ Redes Sociais
Cão Orelha recebe homenagem nas redes sociais

O caso do Orelha rasga o véu da cordialidade e mostra que a violência não brota do acaso. Ela nasce do privilégio que se mistura com permissão, do ambiente onde desrespeito é autorizado antes mesmo de ser percebido como escolha. O Brasil apenas reencontrou o que nunca deixou de ser e ter, uma verdade que se arrasta há mais de 525 anos. É na infância que se planta a primeira semente. Eu vi, certa vez, em um parque da Disney, um pai, brasileiro, pedir para o filho levantar os pés para parecer mais alto, para entrar em um brinquedo. A regra virou obstáculo que precisava ser enganado. E ali já estava desenhada a filosofia silenciosa que estrutura parte das relações no país. Uma educação que se curva diante do privilégio e que transforma pequenos truques em carteiradas futuras.

Esse mesmo padrão reaparece no episódio do adolescente que surgiu numa formatura no Rio Grande do Norte com símbolos nazistas. Ele tratou um gesto carregado de violência histórica como se fosse fantasia trivial. A família e seus amigos apoiaram. É quase inevitável perguntar de onde nasce essa banalidade. Não é invenção isolada. Ela emerge de famílias que se acreditam acima do bem e do mal, famílias que usam sua influência para proteger os seus, mesmo quando os seus ultrapassam limites que deveriam ser inegociáveis em qualquer sociedade comprometida com a memória e a ética. A permissividade se torna método. A ausência de consequência se transforma em formação afetiva. E a arrogância vira herança.

O país segue prisioneiro de uma lógica hierárquica, colonial e hereditária. A violência contra o Orelha se inscreve na mesma paisagem que normaliza agressões contra pessoas. Não há salto entre uma coisa e outra. Há continuidade. Autoritarismo doméstico, privilégio econômico e branquitude operam como blindagem. Quando alguém aprende desde cedo que sua vontade vale mais que a regra coletiva, que seus erros serão protegidos e reembalados como mal-entendidos, que sua posição no mundo garante absolvição antecipada, nasce um tipo de sujeito que não reconhece fronteiras éticas. A perversidade não é fruto de crueldade espontânea. Ela é ensinada. Ela é legitimada pela família. Ela é encorajada pelo silêncio público.

Isso significa que o Brasil produz violência quando transforma privilégios em licença moral. E essa licença opera na ponta mais invisível. Ela autoriza a humilhação na escola, a carteirada no trânsito, a agressão escondida na festa, a fantasia nazista tratada como brincadeira, e o ataque contra um cachorro que se torna símbolo daquilo que muita gente nunca quis admitir. O país convive com dois regimes. Um que pune. Outro que perdoa com antecedência.

A pergunta que deveria nos atravessar é simples. Como um país pode se sustentar quando educa parte dos seus jovens para acreditar que responsabilidade é sempre para o outro. Como equilibrar um projeto democrático se muitos crescem confiantes de que nada que façam alcançará seu nome. A justiça se proclama cega, mas escolhe quem vai enxergar. Parte do Brasil sabe disso há décadas. A diferença é que agora as imagens circulam rápido demais e já não é possível fingir que são exceções.

Esses episódios expõem algo mais profundo que crimes individuais. Eles revelam a estrutura que molda quem ocupa o centro das decisões no futuro. Esses jovens, protegidos por famílias influentes, amanhã estarão em empresas, tribunais, parlamentos e meios de comunicação. Se nada mudar, levarão consigo a mesma soberba que aprenderam em casa. A violência que hoje recai sobre um cachorro pode amanhã recair sobre qualquer pessoa que ocupe o lugar social que eles desprezam. A herança da desigualdade não é apenas econômica. Ela é afetiva, moral e política.

O Brasil não está vendo nada novo. Apenas viu, de forma explícita, a repetição de uma engrenagem antiga. O país sabe que alguns são responsabilizados e outros não. A questão urgente é entender se vamos continuar aceitando que a justiça tenha dono. O futuro vai depender de quanta coragem teremos para encarar o que somos. E de quanta disposição teremos para desmontar a cultura que transforma privilégio em salvo-conduto. Se nada mudar, o país seguirá produzindo uma elite que aprende desde cedo que pode tudo. E quando alguém cresce acreditando que pode tudo, sempre termina ferindo alguém.

Para quem leva educação a sério, a escolha é simples. Em vez de transformar o erro violento dos filhos em viagem para a Disney, talvez seja hora de encarar o desconforto e abrir O Pacto da Branquitude”, obra da Doutora em Psicologia Cida Bento que desnuda a fantasia da inocência racial. Entre fuga e reflexão, a decisão revela quem deseja formar pessoas e quem prefere sustentar a impunidade.

Todo mundo deveria ler. O Brasil e o mundo agradecem.

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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