Importante ator na guerra civil da Síria, o Estado Islâmico (ISIS) voltou ao centro das atenções do país nesta semana. Em meio à recente escalada de violência entre o Exército do novo governo sírio, e as Forças Democráticas Sírias (SDF), ambos os lados trocaram acusações sobre libertar jihadistas da organização terrorista detidos em prisões localizadas nos territórios alvos de disputa.
O que está acontecendo?
Desde o início do ano, o instável país no Oriente Médiovoltou a ser palco de combates envolvendo disputas não só territoriais, como também sectárias. A nova onda de violência no país foi registrada no Norte da Síria, onde diversas regiões estavam controle dos curdos.
Um cessar-fogo foi assinado entre ambos os lados no último domingo (18/1). Segundo o documento apresentado por autoridades de Damasco, o pacto de paz prevê, entre outros pontos, a integração de militares do SDF ao Exército Sírio, e a transferência de áreas antes controladas pelos curdos para a atual administração central do país, incluindo prisões onde estão detidos militantes do ISIS.
Logo após a assinatura do acordo, forças governamentais e militantes curdos passaram a trocar acusações envolvendo um destes centro de detenção: a prisão de Al-Shaddadi, localizada na província de al-Hasakah, uma das regiões que deve ser integrada a administração de Damasco, liderada por Ahmed al-Sharaa — que possui um histórico de ligações com grupos como a Al-Qaeda e o próprio ISIS antes de comandar a ofensiva contra o regime Assad.
Em um comunicado, as SDF afirmaram que o local foi alvo de ataques por parte de forças governamentais na segunda-feira.
“Embora a Prisão de Al-Shaddadi esteja localizada a aproximadamente dois quilômetros da base da Coligação Internacional na área, a base não interveio, apesar de repetidos apelos de intervenção”, disse um trecho da nota divulgada por combatentes curdos. “Assim, informamos a opinião pública que a Prisão de Al-Shaddadi caiu atualmente fora do controlo das nossas forças devido a estes desenvolvimentos”, disse um trecho da nota divulgada pelo grupo armado curdo”.
A acusação, contudo, foi rebatida pelo governo interino da Síria. Segundo a nova administração do país, composta majoritariamente por figuras ligadas ao grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS), os membros do ISIS foram libertados pelas SDF.
“O exército assumiu o controle da cidade de al-Shaddadi e da sua prisão a sul de al-Hasakah, e começou imediatamente as operações para garantir a segurança da área e prender os prisioneiros do ISIS que fugiram e foram libertados pelas SDF”,
Um outro caso envolvendo prisioneiros do Estado Islâmico também foi registrado na província de al-Raqqa, no centro de detenção de al-Aqtan. Segundo as Forças Democráticas Sírias, militares do governo interino do país bombardearam a prisão com artilharia e tanques, com o objetivo de tentar invadir o local. O Observatório Sírio para os Direitos Humanos (SOHR) também confirmou a informação.
Até o momento ainda não está claro quantos militantes do ISIS podem ter escapado das prisões na Síria.
Ascensão e queda
O Estado Islâmico moderno foi fundado em meados de 2013, nascido da reunião do que viria a ser a alta cúpula do grupo. Seus primeiros membros se organizaram enquanto estiveram detidos na prisão de Camp Bucca, um centro de detenção máxima no Iraque, administrado pelos EUA após a invasão ao país em 2003.
No início da década de 2010, insurgentes chegaram a dominar vastas áreas do Iraque e Síria, aproveitando-se da instabilidade social e política nas duas nações. O então líder do grupo, Abu Bakr al-Baghdadi, seu califado (governo islâmico teocrático) em 2014.
Em 2019, porém, o ISIS perdeu seu último reduto no Oriente Médio. Na época, as SDF, com o apoio da coalizão internacional liderada pelos EUA, recuperaram a cidade de Baghuz, e colocaram um fim ao governo autoproclamado do grupo terrorista.
Com isso, a organização jihadista migrou suas atividades para a África, em especial nos países localizados na faixa do Sahel.
Mesmo perdendo influência e territórios na região, o Estado Islâmico continuou atuando na Síria. Em 2024, o país em que o grupo mais atuou, segundo dados do relatório Global Terrorism Index 2025.