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  • Memórias radioativas: vítimas do Césio-137 lutam para não serem esquecidas

    Memórias radioativas: vítimas do Césio-137 lutam para não serem esquecidas

    Quase quatro décadas após o acidente com o Césio-137, Goiânia ainda convive com as marcas invisíveis da tragédia. O fascínio provocado pelo “pó de brilho azul que reluz” foi breve. Mas para quem teve contato com o material radioativo, ficaram cicatrizes físicas, memórias difíceis de apagar e problemas de saúde que persistem até hoje.

    Entre as vítimas do césio, se mantém a sensação de que, com o passar dos anos, o apoio do Estado foi se tornando cada vez mais distante — e a luta agora é para que suas histórias não sejam esquecidas.

    Sobreviventes ouvidos pela reportagem relatam dificuldades para acessar atendimento de saúde e apontam defasagem na pensão vitalícia garantida pela lei estadual nº 14.226, de 8 de julho de 2002. Hoje, grande parte dos beneficiários recebe R$ 954 — valor mais baixo que um salário mínimo e sem reajuste desde 2018.

    Entre os afetados, é recorrente a sensação de abandono institucional e de que, com o passar dos anos, a tragédia vem sendo gradualmente apagada pelo poder público.

    “Nos primeiros anos, a gente tinha toda a assistência. Ganhava medicação, podia ser o preço que fosse. Tinha o salário, tinha a cesta básica, tinha tudo. Depois saiu cortando. O que o governo paga não dá para a gente sobreviver direito. Costumo falar que não vivo, vegeto”, desabafa Lourdes das Neves Ferreira, mãe de Leide das Neves, criança que se tornou a vítima-símbolo da tragédia.

    Era 13 de setembro de 1987, e seria apenas mais um dia comum na rotina dos catadores Roberto dos Santos Alves, de 21 anos, e Wagner Mota Pereira, 20, que viviam da coleta de recicláveis no Setor Aeroporto, região central da capital.

    Os dois entraram em uma clínica de radioterapia abandonada na Avenida Paranaíba e, ali, encontraram uma cápsula de metal, cilíndrica e pesada, que guardava exatamente 19,26 gramas de Césio-137.

    Os catadores não tinham ideia mas, naquele momento, ao manusear a cápsula, mudaram para sempre o rumo da própria vida, de suas famílias e conhecidos, e de toda uma cidade e estado. O material altamente radioativo provocaria quatro mortes, contaminaria gravemente centenas de pessoas e geraria cerca de seis mil toneladas de rejeitos radioativos.

    Roberto e Wagner levaram a sucata para casa, localizada na Rua 57-A, e a abriram. Alguns dias depois, em 18 de setembro, venderam o objeto a Devair Alves Ferreira, então com 36 anos, proprietário de um ferro-velho situado a poucos quarteirões dali, na Rua 26-A. À noite, ao passar pelo pátio do estabelecimento, o dono do ferro-velho percebeu o intenso brilho azul que emanava do interior da peça recém-comprada. Atraído e encantado pela luminosidade, levou a cápsula para casa.

    Nos dias seguintes, Devair passou a mostrar e a repartir pequenas porções do Césio-137 entre familiares e conhecidos. Em pouco tempo, aqueles que tiveram contato direto com o material começaram a sentir mal-estar, com tontura, enjoo, vômitos e diarreia.

    Entre eles, cogitou-se que os sintomas fossem consequência de uma feijoada acompanhada de Coca-Cola que tinham comido durante a semana. Sem saber a verdadeira causa do problema, muitos procuraram farmácias ou hospitais e foram medicados como se tivessem uma doença infectocontagiosa.

    Sem associar os sintomas ao contato com a peça, o irmão de Devair, Ivo Alves Ferreira, que vivia no Setor Norte-Ferroviário, levou parte do pó para casa, em um pedacinho de papel. No dia 24 de setembro, a filha de Ivo, Leide das Neves, de apenas 6 anos, brincou manuseando a substância e, em seguida, comeu um ovo sem lavar as mãos, ingerindo partículas radioativas. A menina se tornou vítima-símbolo da tragédia.

    “Passados uns 15 minutos [que Leide comeu o ovo], ela começou a vomitar. Fiquei com medo de pôr ela no quarto e dar crise de vômito, sufocar. Aí levei para o meu quarto, botei no cantinho da minha cama. Aquele ponto lá no canto da cama, que ela passou um pedaço da noite, era o ponto mais forte de radiação que tinha na minha casa. Cheguei a ouvir que ela [Leide] era como uma bomba radioativa”, relata Lourdes.

    No mesmo dia em que Leide foi contaminada, a tia da menina, Luiza Odete, hoje com 66 anos, também teve contato com o Césio-137. Foi a própria sobrinha quem lhe mostrou o pó de brilho azul que circulava pela casa. Na época, Odete morava em um barracão nos fundos do mesmo lote onde ficava a residência de Lourdes e Ivo, junto com o marido, Kardec Sebastião dos Santos, e os quatro filhos do casal.

    “Morava nos fundos, então toda hora estava lá. Quando cheguei, entrei, e a Leide disse: ‘Titia, vem ver a pedrinha iluminante que o papai trouxe’. Essa frase nunca esqueci. Entrei no quarto e ela mesma apagou a luz. Aquilo brilhava como se soltasse raios. Fiquei ali por perto e peguei um pouquinho”, conta Odete, ao relembrar o primeiro contato com a substância.

    No mesmo dia, durante uma brincadeira, Ivo pegou um pedaço de papel com o material radioativo e passou no pescoço de Odete. “Ele me segurou e disse: ‘Vou fazer a Odete ficar bonita’. Só com o papel que tinha trazido, passou no meu pescoço. Apenas o papel. O pó caiu no meu seio, deu lesão, ficou em carne viva”. As cicatrizes que Odete carrega até hoje escancaram a agressividade do Césio-137.

    “Fui para casa e mostrei [o Césio] ao meu marido. Disse: ‘Olha isso aqui, que interessante, olha o tanto que brilha’, e apaguei a luz para ele ver. De madrugada, aquele pouquinho que levei brilhou no meio da cama. Tentei jogar no chão, mas acho que ficou na beirada. Deixou várias marcas no braço do meu esposo, queimaduras. Acordei com o pescoço ardendo, avermelhado, como se tivesse esfolado, como se tivesse escorregado de uma árvore”, afirma Odete.

    Àquela altura, a situação já estava longe de parecer normal. Maria Gabriela, então com 37 anos e esposa de Devair, passou a desconfiar de que o pó luminoso pudesse estar por trás dos males que atingiam parentes e amigos.

    Determinada a buscar ajuda, recolheu a cápsula e, em 28 de setembro, junto com Geraldo Guilherme da Silva Pontes, funcionário do ferro-velho, levou o material à Vigilância Sanitária. A atitude impediu que o acidente radiológico tomasse proporções ainda maiores e, por isso, Maria Gabriela passou a ser reconhecida como uma heroína.

    “Pegamos o ônibus 2525 da HP até a Vigilância Sanitária, e lá estava um técnico da CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear). Foi ele quem salvou mais gente também, porque, se não fosse ele descobrir que a peça era radioativa, estaríamos todos mortos”, relembra Geraldo, hoje com 72 anos.

  • Irã promete vingança pela morte do chefe do Conselho de Segurança

    Irã promete vingança pela morte do chefe do Conselho de Segurança

    Majid Saeedi/Getty Images
    Conflito no Irã

    O Irã prometeu uma forte retaliação em vingança à morte de Ali Larijani, chefe do Conselho de Segurança do país. Ele foi morto em um ataque israelense na madrugada de terça-feira (17/3).

    Sardar Mousavi, comandante da Força Aeroespacial da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, afirmou que Israel pode esperar um ataque rápido. “Esta noite, o céu do inimigo se tornará mais espetacular para vocês”, disse, segundo a mídia estatal iraniana.

    O chefe do exército iraniano, Amir Hatami, disse que Estados Unidos e Israel terão uma “resposta decisiva” em um momento apropriado.

    “No momento e local apropriados, uma resposta decisiva, dissuasiva e lamentável será dada aos Estados Unidos criminosos e ao regime sionista sedento de sangue”, disse Hatami em um comunicado.

    O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) disse ter lançado intensos ataques contra Israel como retaliação pelo assassinato de Larijani.

    Na madrugada desta quarta-feira (18/3), duas pessoas morreram em um desses ataques, quando o prédio onde moravam foi atingido por fragmentos de bombas, em Tel Aviv.

    O Ministério da Defesa da Arábia Saudita informou, pelo X, que abateu um drone que se dirigia para a área das embaixadas do país. Os Emirados Árabes Unidos também informaram estão respondendo a ameaças de mísseis. “Os sistemas de defesa aérea estão respondendo a uma ameaça de míssil”, disse a Autoridade Nacional de Gestão de Emergências, Crises e Desastres pelas redes sociais.

    Ali Larijani

    O governo do Irã confirmou a morte de Ali Larijani, que atuava como chefe do Conselho Supremo de Segurança do país. A informação foi divulgada pela mídia estatal iraniana nesta terça-feira (17/3).

    Larijani era visto como um dos homens mais fortes do governo iraniano, e desde 2025 comandava o conselho responsável pela segurança do país persa.

  • O que dizem as vítimas do Césio-137 sobre a série da Netflix

    O que dizem as vítimas do Césio-137 sobre a série da Netflix

    18/03/2026 04:00, atualizado 18/03/2026 04:00

    metropoles.com

    A minissérie “Emergência Radioativa”, produzida pela Netflix e com estreia nesta quarta-feira (18/3), mal chegou à plataforma e já é alvo de críticas de vítimas do acidente com o Césio-137 e de representantes de entidades culturais de Goiânia. As reclamações envolvem, principalmente, a ausência de consulta aos sobreviventes durante o desenvolvimento da produção e a decisão de gravar grande parte das cenas fora da capital goiana.

    A produção retrata o acidente radiológico ocorrido em 1987, considerado o maior do mundo fora os de usinas nucleares. A trama acompanha médicos e físicos que atuaram para identificar a contaminação e conter a disseminação da substância radioativa após a desmontagem do aparelho de radioterapia em um ferro-velho.

    Embora a série tenha sido anunciada como uma reconstituição ficcional do episódio, sobreviventes afirmam que a forma como o projeto foi conduzido desprezou a história das pessoas diretamente afetadas pela tragédia.

    Vítimas dizem que não foram ouvidas

    Uma das principais críticas parte da Associação das Vítimas do Césio-137. Segundo o presidente da entidade, Marcelo Santos Neves, integrantes da associação não foram procurados para contribuir com o roteiro ou relatar experiências vividas durante o acidente.

    “Não fomos ouvidos para a gravação da série, que é baseada na nossa história. As gravações nem aconteceram em Goiânia, foram feitas em São Paulo. Como é que você faz uma obra contando essa história e não chama quem realmente viveu tudo isso?”, questiona.

    Terreno onde funcionava o ferro-velho de Devair Alves Ferreira, que se tornou palco do acidente radiológico com Césio-137, em Goiânia, em 1987. Hoje, o local está abandonado - Metrópoles
    Terreno onde funcionava o ferro-velho de Devair Alves Ferreira, que se tornou palco do acidente radiológico com Césio-137, em Goiânia

    De acordo com ele, uma equipe de produção chegou a visitar Goiânia para conhecer locais ligados ao episódio, mas sem diálogo direto com os sobreviventes. Para o presidente da associação, a ausência desse contato pode resultar em versões incompletas da história.

    “Isso gerou uma indignação geral entre nós. Cada vez que alguém vê um trecho dessa história sendo contado, muitas feridas são reabertas. Imagine pessoas como a dona Lourdes, por exemplo, que revive situações muito dolorosas. Contar essa história sem ouvir quem viveu tudo isso pode trazer versões erradas ou incompletas. O que as vítimas querem é reconhecimento”, afirma Marcelo Santos Neves.

    A “dona Lourdes” é Lourdes das Neves, mãe de Leide das Neves, menina de seis anos que morreu após ingerir Césio-137 e que se tornou um dos principais símbolos da tragédia.

    A única pessoa procurada pela equipe para falar sobre o episódio foi Suely Lina Moraes Silva, ex-presidente da associação. Ela relata que acompanhou um pequeno grupo da produção durante uma visita a locais relacionados ao acidente. Segundo Suely, cerca de cinco pessoas participaram da pesquisa de campo e foram levadas até o lote onde funcionava o ferro-velho de Devair, próximo à casa dela. Após esse primeiro contato, no entanto, não houve novas conversas com a equipe.

    Críticas sobre gravações fora de Goiânia

    Além das manifestações das vítimas, o Conselho Municipal de Cultura de Goiânia divulgou uma carta aberta direcionada à Netflix e à equipe responsável pela minissérie. No documento, o órgão critica a decisão de gravar a maior parte das cenas em São Paulo.

    Para o conselho, o acidente com o Césio-137 faz parte da memória coletiva da capital goiana e deveria ser retratado no local onde ocorreu. “Esse episódio não é apenas um fato histórico: ele é parte da memória viva do povo goianiense. Foi aqui, em nossas ruas e casas, que famílias inteiras sofreram, choraram e resistiram”, diz trecho da carta.

    Área onde permanecem armazenados os rejeitos do acidente radiológico com Césio-137, em Abadia de Goiás

    O documento lembra que a realização das gravações na cidade poderia ter gerado impacto cultural e econômico positivo para Goiânia.

    “Trazer a filmagem para cá não seria apenas fazer justiça à nossa história, mas também gerar empregos, movimentar a economia local e fortalecer a cultura brasileira com mais verdade e representatividade.”

    O acidente com o Césio-137

    O acidente radiológico aconteceu em setembro de 1987, quando um aparelho de radioterapia abandonado foi retirado do antigo prédio do Instituto Goiano de Radioterapia e levado para um ferro-velho.

    Ao desmontar o equipamento, trabalhadores tiveram contato com a cápsula que continha Césio-137. O material radioativo foi fragmentado e acabou sendo levado para diferentes locais, o que ampliou a contaminação.

    Luiza Odete era tia de Leide das Neves. Na imagem, ela aparece chorando ao lembrar da tragédia - Metrópoles
    Luiza Odete era tia de Leide das Neves, vítima-símbolo da tragédia

    A tragédia resultou em quatro mortes e mais de mil pessoas afetadas pela radiação. O episódio foi classificado pela Agência Internacional de Energia Atômica como o maior acidente radiológico do mundo fora de usinas nucleares.

    O que diz a Netflix

    Em nota enviada ao Metrópoles, a Netflix afirmou que buscou garantir rigor histórico na produção da minissérie “Emergência Radioativa”. Segundo a plataforma, a equipe responsável pelo projeto consultou especialistas de diferentes áreas durante o desenvolvimento do roteiro, entre eles médicos e físicos que participaram diretamente do enfrentamento ao acidente radiológico de 1987.

    Ainda de acordo com a empresa, também foram ouvidas pessoas que vivenciaram a tragédia de perto e que contribuíram com relatos utilizados na construção dramática dos personagens apresentados na série.

    Sobre as críticas relacionadas às locações das gravações, o diretor da produção, Fernando Coimbra, afirmou que a escolha por filmar parte das cenas fora de Goiânia esteve ligada à necessidade de recriar a aparência da cidade no fim da década de 1980. Segundo ele, a capital goiana passou por mudanças urbanísticas significativas nas últimas décadas, o que dificultaria encontrar cenários que reproduzissem com fidelidade o ambiente da época.

    “Eram muitos os desafios, e um dos principais foi como reconstruir a Goiânia de 1987. Na época, era uma capital ainda jovem, com forte influência do ambiente rural ao redor. Os locais onde viviam essas pessoas tinham casinhas com muros baixos e ruas de terra”, explicou.

    Por esse motivo, parte das cenas foi gravada em cidades do interior de São Paulo, como Cabreúva, onde, segundo o diretor, ainda existem áreas com características semelhantes às da capital goiana na década de 1980.

    Outras locações utilizadas pela produção incluem municípios como Sorocaba, Campinas e Osasco. No caso das cenas envolvendo estádios, por exemplo, a equipe optou por gravar em Sorocaba devido às reformas e modernizações ocorridas no Estádio Olímpico de Goiânia ao longo dos anos.

    A produção também realizou captações na própria capital goiana. De acordo com Coimbra, imagens aéreas e externas de ruas da cidade foram gravadas para reforçar a presença de Goiânia na narrativa.

    Leia as outras matérias da série Memórias radiotivas:

    Memórias radioativas: vítimas do Césio-137 lutam para não serem esquecidas
    Césio-137: relembre a história de Leide, vítima símbolo da tragédia
    Césio-137: pensões das vítimas estão sem reajuste há 7 anos

  • Césio-137: pensões das vítimas estão sem reajuste há 7 anos

    Césio-137: pensões das vítimas estão sem reajuste há 7 anos

    18/03/2026 04:00, atualizado 18/03/2026 04:00

    metropoles.com

    Sobreviventes da tragédia com o Césio-137, em Goiânia, afirmam viver uma nova forma de abandono: a defasagem inflacionária das pensões pagas pelo Estado de Goiás.

    As pessoas expostas ao material radioativo recebem, atualmente, pensões de R$ 954 ou de R$ 1.908. Os valores estão sem reajuste desde 2018.

    Vítimas que recebem o valor inferior ao salário mínimo reclamam que a quantia não cobre as despesas básicas, especialmente quando há problemas de saúde decorrentes da radiação.

    Para os sobreviventes, a conta não fecha. Uma delas é Lourdes das Neves Ferreira, de 74 anos, mãe de Leide das Neves — a menina que se tornou símbolo do acidente com o Césio-137.

    Leide morreu aos seis anos de idade, dias após se contaminar ao ingerir um ovo cozido com as mãos sujas de material radioativo.

    Lourdes das Neves com a foto da filha, Leide das Neves Ferreira. A criança foi contaminada após brincar com o material radioativo retirado de um aparelho de radioterapia

    Lourdes conta que após o falecimento da filha a vida nunca mais foi a mesma. Além de Leide, ela perdeu o marido e a residência da família, demolida durante o processo de descontaminação. Hoje, vivendo em Aparecida de Goiânia (GO), lida sozinha com as despesas da casa e os tratamentos de saúde. Apenas os medicamentos que precisa tomar custam cerca de R$ 500 por mês — mais da metade da pensão paga pelo governo.

    “Antes a gente tinha toda a assistência. Ganhava medicação, podia ser o preço que fosse. Tinha o salário, tinha a cesta básica, tinha tudo. Depois saíram cortando. O que o governo paga hoje não dá para a gente sobreviver direito. Costumo falar que não vivo, vegeto. E a única coisa que quero é ter um final de vida digno”, desabafa.

    Nos últimos anos, ela precisou recorrer a empréstimos consignados, cujas parcelas são descontadas diretamente da pensão. Atualmente, depende de doações de cestas básicas e medicamentos.

    Donizeth Rodrigues mostra receita médica preenchida frente e verso, com dez medicamentos prescritos após o acidente radiológico com Césio-137, em Goiânia, em 1987 - Metrópoles
    Donizeth Rodrigues mostra receita médica preenchida frente e verso

    “Já infartei oito vezes. Tomo bastante medicação e não tenho dinheiro para comprar. O que a gente ganha do governo hoje é uma quantia irrisória.”

    Donizeth relata sofrer com diabetes, perda de audição, problemas renais e uma hérnia abdominal. Sem renda suficiente, passou a sobreviver recolhendo recicláveis nas ruas.

    “Hoje a gente está passando fome. O que ganha não dá para comer, não dá para comprar remédio, não dá para pagar energia. Eu era uma pessoa normal. Trabalhava e mantinha minha família. Hoje não dou conta.”

    Após o acidente radiológico com o Césio-137, em setembro de 1987, o governo de Goiás criou a Fundação Leide das Neves (FunLeide) para acompanhar os sobreviventes. Posteriormente, a instituição foi reestruturada e transformada no Centro de Assistência aos Radioacidentados (Cara), atualmente vinculado à Secretaria de Estado da Saúde.

    A unidade é responsável pelo acompanhamento médico das vítimas e de seus descendentes. Na prática, porém, os radioacidentados relatam dificuldades de acesso a informações e acompanhamento clínico. Segundo os relatos, o Cara — que deveria ser referência no monitoramento de longo prazo das vítimas — não cumpre plenamente esse papel.

    Imagem aérea do terreno onde funcionava o ferro-velho de Devair Alves Ferreira, que se tornou palco do acidente radiológico com Césio-137, em Goiânia, em 1987. Hoje, o local está abandonado - Metrópoles

    Vai e vem no reajuste das pensões

    Desde 2018, as pensões pagas pelo Estado de Goiás às vítimas do acidente radiológico com o Césio-137 estão sem reajuste. As tentativas recentes de atualizar o benefício esbarraram em entraves políticos.

    Em julho de 2023, o governador Ronaldo Caiado (União Brasil) vetou um projeto do deputado estadual Major Araújo (PL) que previa o reajuste das pensões. O governo apontou inconstitucionalidade da proposta por falta de estudo de impacto orçamentário e financeiro.

    No ano seguinte, um novo projeto foi apresentado pelo deputado Issy Quinan (MDB) na Assembleia Legislativa. A proposta chegou à Comissão de Constituição, Justiça e Redação da Casa, mas teve a análise interrompida após pedido de vista do líder do governo, Talles Barreto (União Brasil), em junho de 2024.

    Em setembro de 2025, a Comissão de Constituição, Justiça e Redação da Alego decidiu encaminhar o projeto de reajuste para análise do governo estadual antes de qualquer votação. O texto foi enviado à Secretaria da Economia do Estado de Goiás e à Secretaria de Estado de Relações Institucionais de Goiás. Essa foi a última movimentação registrada no sistema legislativo.

    O governo de Goiás foi acionado em 2 de março pelo Metrópoles para esclarecer a defasagem no valor das pensões e respondeu, nessa terça-feira (17/3), às vésperas da publicação da reportagem. Pelas redes sociais, o governador Ronaldo Caiado anunciou o envio de um projeto de lei para reajustar os benefícios em 69,92%. Com a proposta, os valores mensais passariam de R$ 1.908 para R$ 3.242 e de R$ 954 para R$ 1.621, respectivamente.

    O texto ainda precisa ser apreciado pelos deputados estaduais e aprovado para entrar em vigor.

    Terreno onde funcionava a clínica de radioterapia de onde foi retirada a cápsula de Césio-137 que deu origem ao acidente radiológico em Goiânia, em 1987. Anos depois, o espaço foi reocupado e hoje abriga o Centro de Cultura e Convenções de Goiânia - Metrópoles
    Terreno onde funcionava a clínica de radioterapia de onde foi retirada a cápsula de Césio-137 em 1987. Atualmente, o espaço abriga o Centro de Cultura e Convenções de Goiânia

    Para esclarecer sobre o atendimento às vítimas, a reportagem procurou a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás.

    À secretaria foram enviadas perguntas sobre dados atualizados dos radioacidentados, critérios para reconhecimento de novas vítimas e funcionamento do atendimento prestado.

    Inicialmente, algumas informações chegaram a ser respondidas, mas dias depois o órgão informou que os dados não haviam passado pela validação institucional necessária e não poderiam ser utilizados como posicionamento oficial. Em nova comunicação, a secretaria afirmou que não se manifestaria mais sobre o caso.

    Área onde permanecem armazenados os rejeitos do acidente radiológico com Césio-137, em Abadia de Goiás - Metrópoles
    Área onde permanecem armazenados os rejeitos do acidente radiológico com Césio-137, em Abadia de Goiás

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  • Césio-137: relembre a história de Leide das Neves, vítima-símbolo da tragédia

    Césio-137: relembre a história de Leide das Neves, vítima-símbolo da tragédia

    18/03/2026 04:00, atualizado 18/03/2026 04:00

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    Passadas quase quatro décadas do acidente radiológico com Césio-137 em Goiânia, a lembrança de Leide das Neves Ferreira ainda atravessa a vida da mãe, Lourdes das Neves Ferreira, hoje com 74 anos. A menina, que tinha apenas seis anos quando morreu, tornou-se o rosto mais conhecido da tragédia que marcou para sempre a história da cidade.

    Leide das Neves Ferreira, menina que se tornou símbolo do acidente radiológico com Césio-137, ocorrido em Goiânia, em 1987 - Metrópoles
    Leide das Neves Ferreira, menina que se tornou símbolo do acidente radiológico com Césio-137, ocorrido em Goiânia

    Tudo começou em 13 de setembro de 1987, quando os catadores Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira encontraram uma cápsula de metal em uma clínica de radioterapia abandonada na Avenida Paranaíba, em Goiânia. O objeto continha 19,26 gramas de Césio-137, material altamente radioativo.

    Dias depois, os dois venderam a sucata a Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho. Encantado pelo brilho azul emitido pela cápsula, Devair levou o material para sua residência. A partir desse momento, a substância começou a se espalhar, dando início a um dos maiores acidentes radiológicos do mundo.

    O irmão dele, Ivo Alves Ferreira — marido de Lourdes e pai de Leide — também teve contato com o objeto no ferro-velho. Curioso, tentou entender do que se tratava. “Ele enfiou uma chave de fenda dentro dela, tirou um pouquinho [do pó], colocou num papel e trouxe para casa. Chegando, colocou no chão do quarto das crianças e ficou ali, olhando, achando bonito”, conta Lourdes.

    O contato de Leide com Césio-137

    Leide teve contato com o Césio no dia 24 de setembro. Fascinada com a luz azul, a menina passou horas brincando com a substância. Naquele mesmo dia, a tia dela, Luiza Odete, também foi contaminada.

    “Eu morava nos fundos [da casa de Lourdes e Ivo], então toda hora estava lá. Quando cheguei, entrei, e a Leide disse: ‘Titia, vem ver a pedrinha iluminante que o papai trouxe’. Essa frase nunca esqueci. Entrei no quarto e, assim que entrei, Leide apagou a luz. Aquilo brilhava como se soltasse raios. Fiquei ali por perto e peguei um pedacinho”, relembra Luiza.

    Leide tocou no pó radioativo e, em seguida, pegou um ovo cozido para comer, com as mãos contaminadas pela substância. Minutos mais tarde, surgiram os primeiros sintomas.

    “Passados uns 15 minutinhos, ela começou a vomitar. Estava com ela no colo, e ela vomitava que me molhava toda” , conta Lourdes, a mãe. Com medo de que a filha tivesse uma crise de vômito enquanto dormia sozinha, ela decidiu levá-la para seu próprio quarto. “Aquele canto da cama onde ela passou parte da noite era o ponto mais forte de radiação que tinha na minha casa. Cheguei a ouvir que ela era como uma bomba radioativa.”

    O estado de saúde da menina se agravou nas semanas seguintes. Com a progressão dos sintomas e a confirmação da contaminação, ela foi inicialmente levada ao Hospital de Doenças Tropicais (HDT) e, posteriormente, transferida para o Hospital Geral de Goiânia (HGG). Em 1º de outubro, seguiu para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, referência nacional no tratamento de vítimas de radiação. Foi a última vez que Lourdes viu a filha com vida.

    A morte

    Leide morreu em 23 de outubro de 1987, vítima de uma síndrome aguda da radiação. A contaminação interna severa provocou uma rápida deterioração de seu organismo, com infecção generalizada, hemorragias internas e falência de múltiplos órgãos.

    Além dela, outras três pessoas morreram em consequência direta da exposição ao material: sua tia, Maria Gabriela Ferreira, de 37 anos, esposa de Devair; e os funcionários do ferro-velho Israel Batista dos Santos, de 22 anos, e Admilson Alves de Souza, de 18.

    Os caixões, revestidos internamente com chumbo, pesavam cerca de 700 quilos e precisaram ser içados por guindastes até as sepulturas. Depois do enterro, os túmulos foram concretados como parte dos procedimentos de contenção da contaminação.

    E como se não bastasse a dor imposta pela tragédia, as vítimas também passaram a enfrentar o peso do preconceito. No Cemitério Parque, uma multidão de mais de duas mil pessoas tentou impedir o enterro de Leide das Neves e de Maria Gabriela Ferreira, falecida no mesmo dia, temendo que os corpos contaminassem o local. Tijolos e pedras foram usados para bloquear a entrada do cemitério, em um protesto alimentado pelo pânico que dominava parte da população.

    Lourdes chegou ao velório sem o marido, Ivo Ferreira, que permanecia internado no Rio de Janeiro para tratamento. Em meio à tensão, ela só conseguiu se aproximar do caixão da filha após a intervenção da então primeira-dama de Goiás, Sônia Santillo, que apelou aos manifestantes para que permitissem a despedida.

    A menina que sonhava em ser bailarina

    Antes do acidente, a rotina da família seguia o ritmo comum de tantas outras pelo país. Ivo, assim como o irmão Devair, mantinha um ferro-velho. Lourdes se dedicava à casa e à criação dos três filhos. Ao lembrar de Leide, a mãe descreve uma menina carinhosa, inteligente e afetuosa, presença leve que preenchia os dias da família.

    “Ela gostava muito de brincar, era vaidosa, ficava na frente do espelho jogando o cabelo e dizia que queria ser bailarina. No ano seguinte, iria colocá-la no colégio e procurar uma escola para ela fazer aulas de balé”, lembra a mãe.

    Fotografia de Leide das Neves Ferreira guardada no armário por sua mãe, Lourdes das Neves, uma das lembranças que ela preservou da filha após o acidente radiológico com Césio-137, em Goiânia, em 1987 - Metrópoles
    Fotografia de Leide das Neves Ferreira guardada no armário pela mãe, Lourdes das Neves

    Objetos pessoais viraram rejeitos radioativos

    Com a confirmação da contaminação, foi estruturada uma força-tarefa para conter os impactos do acidente e proteger a população. Os trabalhos começaram com a identificação de imóveis, objetos e vias públicas que apresentavam níveis de radiação acima do permitido. Casas foram interditadas, famílias removidas e áreas isoladas. Sete residências acabaram demolidas – entre elas, a de Lourdes. Tudo o que não pôde ser descontaminado — móveis, roupas, utensílios domésticos, fotografias, documentos e objetos pessoais — foi recolhido como rejeito radioativo.

    Lourdes das Neves abraça os porta-retratos da filha, Leide das Neves Ferreira, que se tornou símbolo do acidente radiológico com Césio-137, em Goiânia, em 1987 - Metrópoles
    Lourdes das Neves abraça os porta-retratos da filha, Leide das Neves Ferreira, que se tornou símbolo do acidente radiológico com Césio-137

    “Falava para a Leide: ‘Quero tirar bastante fotos suas antes de você começar a perder os primeiros dentinhos’. Ela se foi com seis anos. Não consegui ver ela sem os dentinhos”, diz emocionada.

    A família nunca mais voltou à antiga residência. O governo estadual concedeu um novo imóvel para eles em Aparecida de Goiânia, cidade vizinha à capital. “Comecei tudo do zero. Mas a casa nova nunca estava completa, sempre faltava alguma coisa. Faltava ela.” O tempo não foi capaz de apaziguar o luto: passados 38 anos, a ausência de Leide ainda se faz presente no cotidiano da mãe.

    “Às vezes me dá uma agonia, uma vontade de abraçar. Tenho uma fotinha dela no armário. Em alguns dias acordo mais triste, mais deprimida. Mas quando olho para aquele sorrisão, penso: ‘Não posso ficar assim. Tenho que lutar. Tenho que reagir’”, desabafa Lourdes, tomada pela saudade.

    Ferro-velho onde teve início o acidente radiológico de Goiânia com Césio-137, após a chegada do aparelho de radioterapia que continha o material radioativo - Metrópoles
    Ferro-velho onde teve início o acidente radiológico de Goiânia com Césio-137

    A vida após a morte de Leide

    Nos anos seguintes, Lourdes passou grande parte do tempo cuidando do marido, que enfrentava dores constantes e sequelas da radiação. “Minha vida parou”, resume. Ela o acompanhava em consultas e crises de dor que podiam ocorrer a qualquer momento: “Deixei de viver para cuidar.” Ivo Alves Ferreira morreu em 2003, vítima de um enfisema pulmonar.

    Segundo ela, o marido carregou culpa pela morte da filha durante muitos anos. “Ele se culpava muito, mas nunca culpei ele. Nem culpei os dois rapazes que pegaram a peça. Eles não sabiam o que era. Também foram vítimas. Teve gente que chamou de ladrão, disse que, se não tivessem pegado a peça, nada teria acontecido. Nunca pensei assim”, afirma.

    Lourdes perdeu a filha, o marido, a casa onde vivia e tudo o que havia construído até então. Hoje, ela tenta seguir em frente, com o pouco dinheiro que recebe para manter as contas em dia, garantir comida na mesa e comprar os remédios de uso contínuo.

    Lourdes das Neves Ferreira

    Por ter sido exposta ao Césio-137, a mãe de Leide recebe do governo estadual uma pensão prevista na Lei Federal nº 9.425/1996, que instituiu um benefício mensal, vitalício e indenizatório para as vítimas do acidente. O valor, reajustado pela última vez em 2018, é de apenas R$ 954, menos que um salário mínimo. Apenas os gastos com remédio chegam a R$ 500 mensais.

    “Nos primeiros anos, a gente tinha toda a assistência. Ganhava medicação, podia ser o preço que fosse. Tinha o salário, tinha a cesta básica, tinha tudo. Depois saiu cortando. O que o governo paga hoje, não dá pra gente sobreviver direito. Costumo falar que não vivo, vegeto. E a única coisa que quero é ter um final de vida digno, acho que é um direito meu”, desabafa.

    O governo de Goiás foi acionado em 2 de março para esclarecer a defasagem no valor das pensões e respondeu, nessa terça-feira (17/3), apenas às vésperas da publicação da reportagem.

    Com a proposta, os valores mensais passariam de R$ 1.908 para R$ 3.242 e de R$ 954 para R$ 1.621. O texto ainda precisa ser aprovado pelos deputados estaduais para entrar em vigor.

    Túmulo de Leide das Neves
    Túmulos de vítimas do acidente radiológico com Césio-137, que marcou Goiânia em 1987 - Metrópoles
    Túmulos de vítimas do acidente radiológico com Césio-137, que marcou Goiânia em 1987

    Leia as outras matérias da série Memórias radiotivas:

    Memórias radioativas: vítimas do Césio-137 lutam para não serem esquecidas
    Césio-137: pensões das vítimas estão sem reajuste há 7 anos
    O que dizem as vítimas do Césio-137 sobre a série da Netflix

  • Mãe denuncia que ex impede filhos de voltarem para casa há 4 meses

    Mãe denuncia que ex impede filhos de voltarem para casa há 4 meses

    Carla Sena/Arte Metrópoles
    Mãe impedida de ver os filhos

    Uma mãe denuncia que está há 4 meses sem ver os filhos mesmo tendo a guarda unilateral das crianças — que têm 4, 9 e 10 anos. As crianças moram com a mãe na Paraíba desde 2023, ano em que ela se separou após um casamento de 11 anos. No final do ano passados, eles vieram a Brasília visitar o pai e não voltaram. A mãe diz que o pai está impedindo o retorno dos filhos. O homem, que é um médico cirurgião, foi condenado por violência doméstica em 2023.

     

    “Um pesadelo que nenhuma mãe deveria passar”, é como a advogada descreve a situação.

    Impedida de ver os filhos

    Nas férias escolares no final de 2026, os filhos — como de costume — vieram visitar o pai em Brasília, porém estão desde o dia 12 de dezembro sem ver a mãe. As crianças foram, inclusive, matriculadas em uma escola do Distrito Federal.

    A mulher então então entrou na justiça pedindo o cumprimento da sentença de guarda onde o pai tem o direito de visita e que após o período deve retornar os filhos à mãe, o que segundo ela não foi respeitado. A juíza da 3ª vara de família da Paraíba expediu um mandado de busca e apreensão de menores para que a mãe pudesse levar os filhos de volta para a sua casa, na Paraíba. No entanto, ela não conseguiu cumprir a decisão judicial.

    Na útlima segunda-feira (9/3), a mãe foi para a porta da escola buscar as crianças, mas segundo ela, a unidade de ensino avisou o pai, que acionou a polícia militar para ir até o colégio e retirar a mulher do local. Ela disse que se sentiu humilhada pois estava há 4 meses sem ver os filhos pessoalmente e tinha esperança de revê-los na saída da escola.

    O vídeo (veja acima) feito pela mãe dos meninos, mostra ela já fora da escola, sentada em uma calçada e conversando com um dos policiais que foram até o local. Indignada ela questiona a ação e diz ser um absurdo a forma como foi tratada. Segundo ela, na ocasião, as crianças foram rapidamente colocadas dentro de um carro enquanto o pai gritava a todo tempo para que ela fosse presa. 

    A advogada contou ao Metrópoles que está em sofrimento profundo pois chega a ficar dias sem ver os filhos e que a caçula, de apenas 4 anos, demonstra constantemente sentir falta da mãe, “nas videochamadas ela sempre pergunta quando eu irei buscá-lo e diz que está com muitas saudades de mim”, revelou.

    “Chegar em casa e a casa estar toda arrumada e ficar aquele silêncio, dói tanto! É uma dor imensa. Que crime uma mãe comete ao querer ver os filhos?!”.

    Condenação por violência doméstica

    O vídeo (veja acima) gravado pela câmera de segurança da casa onde a família vivia em Brasília, em 2023, mostra uma discussão que após gritos, termina em agressão. O homem empurra a mulher contra a parede  duas vezes diante de um dos filhos. Após sofrer uma queda, a criança corre até a mãe e a abraça. O caso gerou uma condenação do homem no Tribunal de Justiça do DF em 2023, ano que o casal se separou.

    Guarda unilateral

    No final do ano seguinte, a Justiça concedeu à mãe dos meninos a guarda unileteral das crianças. Ou seja, quando apenas um dos genitores tem responsabilidade legal sobre os filhos. Na decisão a qual o Metrópoles teve acesso, o juiz reconhece “que os filhos, desde a separação do casal, sempre estiveram sob sua companhia direta, cuidados diários, proteção emocional e rotina estruturada”, e que o pai poderia vê-los durante as férias, como acontecia todas as vezes, desde o divórcio.

    “O juízo final avaliou todo o contexto fático e probatório e concluiu, de forma fundamentada, que a permanência das crianças com a mãe atendia melhor aos seus interesses.”

    O documento ainda diz que o pai pode entrar com recurso para obter a guarda desde que apresente contraprovas signficativas e passíveis de revisão.

    A mãe acredita que é o ex-companheiro está tentando atacá-la como forma de vingança pela condenação de violência doméstica. Ela também acredita que ele não devolveu os filhos pois não quer pagar a pensão alimentícia.

    Violência psicológica

    A atual companheira do pai, alegou que o casal possui um documento de medida protetiva contra a advogada, impedindo a visita aos filhos, justificando que ela estaria fazendo violência psicológica contra as crianças por elas preferirem morar com o pai, por isso ela não poderia ir a escola para vê-los e foi retirada.

    O Metrópoles entrou em contato com o médico que informou que o processo ocorre em sigilo e preferiu não dar informações adicionais.

    O nome dos envolvidos não será divulgado pelo Metrópoles para proteger a integridade das crianças.

  • Coronel acessou mensagens em celular da esposa PM após ela ser baleada

    Coronel acessou mensagens em celular da esposa PM após ela ser baleada

    Arquivo Pessoal
    Caso PM Gisele

    Enquanto a soldado Gisele Alves Santana agonizava na sala de casa, após ser ferida com um tiro na cabeça, o WhatsApp dela foi aberto e a troca de mensagens com uma amiga íntima visualizada, às 8h do dia 18 de fevereiro. Três minutos antes, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto acionou a Polícia Militar e, às 8h05, os bombeiros. Ele, além de pedir socorro, também afirmou que a esposa havia cometido suicídio (ouça abaixo).

    A prisão dele foi pedida, nesta terça-feira (17/03), a pedido da Polícia Civil, após investigação indicar que a soldado foi vítima de assassinato. No momento em que foi baleada na cabeça, somente o oficial da PM estava no apartamento.

    A visualização do aplicativo de mensagem de Gisele (veja galeria abaixo) foi notado por uma amiga que a conhecia desde quando a soldado tinha 15 anos.

    Ambas trocaram mensagens pela última vez em dezembro e a amiga, uma professora de educação infantil, telefonou para Gisele na virada do ano, quando falou pela última vez com a PM.

    Foi para essa amiga que a Gisele enviou áudios — revelados pelo Metrópoles no dia do crime — nos quais a soldado, de forma premonitória, afirmava acreditar que não iria viver por muito tempo.

    “Não me vejo velhinha, vivendo muitos anos. Eu digo sempre que queria ver a minha filha se formar, com quem ela vai namorar”, disse Gisele, referindo-se à filha, de 7 anos, fruto de um relacionamento anterior.

    “Bravo” com Gisele

    A criança, como mostrado pelo Metrópoles, relatou à avó sentir medo do tenente-coronel, alegando que ele era “bravo” com Gisele.

    Segundo depoimento prestado à Polícia Civil pela mãe de Gisele e avó da menina, o pai da criança – Jean, ex-companheiro da policial – foi buscá-la no apartamento, no dia 17 de fevereiro, um dia antes de Gisele ser encontrada gravemente ferida na sala do imóvel.

    Ela acrescentou que a neta também descrevia uma rotina doméstica marcada por tensão dentro do apartamento. Gisele e a filha costumavam permanecer juntas no mesmo quarto, enquanto o tenente-coronel ficava em outro cômodo.

    Ouça ligação para 190:

    Marcas no pescoço

    Os primeiros laudos feitos após a morte de Gisele, mostrados pela reportagem, indicam a presença de lesões no rosto e no pescoço da policial, compatíveis com pressão exercida por dedos e unha, conhecidas na medicina legal como “estigmas digitais”.

    Segundo o laudo, havia quatro marcas arredondadas compatíveis com pressão de dedos na região da mandíbula e do pescoço, além de uma lesão superficial com formato de meia-lua, típica de unha. Em entrevista à TV Record, o oficial sugeriu que as lesões teriam sido feitas pela própria Gisele.

    Em exame complementar, também obtido pela reportagem, peritos reforçaram que as lesões na face e no pescoço são contundentes e compatíveis com pressão digital, ou seja, com compressão manual.

    Essas marcas levantaram a hipótese de que a soldado possa ter sido esganada antes do disparo, provocando a suspeita de que ela teria desmaiado pouco antes de ser baleada.

    Os peritos também encontraram o projétil alojado no couro cabeludo do lado esquerdo, após atravessar o crânio e provocar extensa fratura óssea.

  • Governo prepara medidas para evitar greve dos caminhoneiros

    Governo prepara medidas para evitar greve dos caminhoneiros

    Rafaela Felicciano/Metrópoles
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    O governo federal começou a se mobilizar para evitar uma greve nacional dos caminhoneiros. A categoria tem ameaçado uma paralisação em meio à alta do diesel.

    Nesta quarta-feira (18/3), o ministro dos Transportes, Renan Filho, vai anunciar medidas para ampliar a fiscalização do cumprimento da tabela do piso mínimo do frete para caminhoneiros.

    Entre as medidas também estarão ações para responsabilizar os infratores contumazes. Em aceno à categoria, Rena Filho disse que as medidas têm como intuito sair de um modelo de baixa efetividade para um modelo que vai garantir o cumprimento do preço mínimo do frete para o caminhoneiro.

    “Essa é uma defesa concreta do caminhoneiro garantindo remuneração justa pelo cumprimento da tabela, concorrência leal e mais eficiência para a logística do país”, disse pelas redes sociais.

    Nessa terça-feira (17/3), o governo anunciou um conjunto de medidas que têm sido tomadas para fiscalizar os preços dos combustíveis em todo o país.

    Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), 669 postos de combustível, em 16 estados, 64 distribuidoras e ao menos uma refinaria foram fiscalizados por uma força-tarefa.

    “É importante que a sociedade se envolva, que a sociedade procure o Procon nos seus estados para que a gente possa a cada dia mais fechar o cerco sobre esses crimes contra a economia popular, que afetam o abastecimento e afetam o preço na bomba de combustível para todos os brasileiros”, disse o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira.

    Após a coletiva, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, foi questionado sobre possíveis medidas caso uma greve se concretize. Em resposta, o ministro disse que “trabalhar com hipóteses não seria adequado e nem prudente”.

    Alckmin diz não ter motivos para greve

    Em outra frente, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento e Indústria, Geraldo Alckmin, não acredita que há motivos para uma greve dos caminhoneiros.

    Alckmin citou as medidas tomadas pelo governo para amenizar o impacto da guerra no Oriente Médio no país.

    “Foram feitas duas medidas. Retirou todo o imposto federal, que era o PIS e Cofins. Zerou e ainda está dando uma subvenção para evitar o efeito do preço. E você não tem o condão de parar a guerra. O que você pode fazer é minimizar o impacto. Então, as duas preocupações estão sendo atuadas”, disse o vice-presidente em conversa com jornalistas no aniversário do ex-ministro José Dirceu (PT).

    Entre as medidas adotadas pelo governo está a redução a zero das alíquotas de PIS e Cofins sobre a importação e a comercialização do óleo diesel, medida que gera uma redução estimada de R$ 0,32 por litro no preço final. Apesar disso, o preço do combustível nas refinarias foi reajustado em 11,6% pela Petrobras logo em seguida.

    “Estamos fazendo um sacrifício enorme, uma engenharia econômica para evitar que os efeitos da irresponsabilidade da guerra cheguem ao povo brasileiro”, disse Lula na semana passada.

    Greve dos caminhoneiros

    A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística (CNTTL) declarou apoio a uma possível paralisação dos caminhoneiros, assim como a Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava) e o Sindicato dos Caminhoneiros de Santos (Sindicam).

    Segundo o presidente da Abrava, Wallace Landim, conhecido como Chorão, uma assembleia com representantes de diversos estados deu aval para a paralisação.

     

  • Tarcísio pede empréstimo de R$ 430 milhões para "Bolsa Família de SP"

    Tarcísio pede empréstimo de R$ 430 milhões para "Bolsa Família de SP"

    Foto: Paulo Guereta/Gov SP
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    O Governo de São Paulo pretende contratar empréstimos no valor de até R$ 15 bilhões para tocar projetos considerados vitrine para o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), como o programa Superação da Pobreza, a obra do trecho norte do Rodoanel e o Novo Centro Administrativo (leia abaixo sobre outros projetos).

    Para o Superação, tido como o “carro-chefe” de Tarcísio na área social, o valor pretendido é de US$ 82,3 milhões, o que equivale a R$ 433,3 milhões na cotação atual. De acordo com a gestão estadual, o programa visa “contribuir para o rompimento do ciclo da pobreza e promover a autonomia e a melhoria das condições de vida das famílias em situação de vulnerabilidade”. Em 2025, o investimento do caixa estadual foi de cerca de R$ 500 milhões.

    Um projeto de lei requerendo autorização para os empréstimos foi enviado no início do mês à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) pelo governo paulista, com pedido de urgência na tramitação. A previsão da liderança do governo na Casa é de votar o texto nas próximas semanas.

    Na justificativa do pedido de empréstimo para o programa social, o governo Tarcísio argumenta que “o volume e a natureza das ações previstas no cronograma de execução do programa demandam fontes de financiamento estáveis, acessíveis e com suporte técnico especializado”.

    Expertise do BID

    O governo acrescenta que a operação de crédito deve ser feita junto a organismos internacionais, especialmente o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que teria expertise em empréstimos voltados a programas ou políticas sociais.

    “A opção pelo financiamento externo surge como alternativa estratégica e vantajosa. Além de oferecer melhores condições financeiras quando comparado ao mercado nacional — especialmente diante da volatilidade da taxa Selic e dos custos de capital interno —, os organismos multilaterais garantem maior previsibilidade de desembolsos e maior capacidade de apoio técnico à implementação de políticas públicas complexas”, afirma o governo paulista.

    A gestão cita como exemplos os estados do Ceará, Pernambuco e Bahia, que tiveram financiamento do BID em iniciativas similares, além de a instituição já possuir “histórico de cooperação técnica e diálogo institucional com o Estado de São Paulo, facilitando a convergência entre as diretrizes estratégicas do programa e as linhas prioritárias do banco”.

    Em nota, o Governo de São Paulo afirmou que possui espaço fiscal que permite contratações de operações de crédito para investimentos, mediante aprovação de leis específicas pelo Legislativo.

    “O Estado tem resiliência fiscal e ampla capacidade de cumprimento de financiamentos dessa natureza, sempre observando os limites da legislação. Mesmo com aval legal, as operações só são efetivadas após tratativas inerentes ao agente financiador e concessões de garantias pela União”, disse a gestão estadual.


    Outras ações

    O projeto enviado à Alesp prevê a autorização para outras ações consideradas estratégicas para a gestão Tarcísio:


    Projeto Tamoios dobra valor

    Além das iniciativas previstas para os empréstimos de R$ 15 bilhões, na última terça-feira (10/3), os deputados aprovaram um projeto do governador que aumenta o limite autorizado de tomada de empréstimos para o Projeto Tamoios.

    O valor que antes poderia chegar até R$ 2,2 bilhões saltou para R$ 4,2 bilhões. O texto já foi sancionado por Tarcísio.

    Segundo o governo, a atualização foi necessária após inclusão do Sistema Rodoviário Ubatuba-Caraguatatuba (SP-055) no escopo da concessão da Rodovia dos Tamoios. O contrato prevê que o Estado deve aportar dois terços do valor total da obra.

    Ainda de acordo com a gestão estadual, o dinheiro do empréstimo será usado para duplicar trechos da rodovia, implementar túneis e fazer a “modernização da infraestrutura existente e da implantação de operação rodoviária permanente com padrões elevados de atendimento ao usuário”, segundo justificativa enviada pela Secretaria de Parcerias em Investimentos aos deputados.

  • SP repete déficit em contas e Tarcísio vê caixa livre cair R$ 26 bilhões

    SP repete déficit em contas e Tarcísio vê caixa livre cair R$ 26 bilhões

    Foto: Pablo Jacob/Governo de SP
    Tarcísio de Freitas

    Após dois anos de contas no vermelho, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) viu encolher quase pela metade o caixa livre, que não tem destinação obrigatória, enquanto prepara novos empréstimos para tocar projetos que são vitrines eleitorais.

    De acordo com dados do Sistema de Informações Gerenciais da Execução Orçamentária (Sigeo), o caixa livre do estado, de recursos do Tesouro, passou de R$ 52,9 bilhões, em 2022, para R$ 26,7 bilhões no ano passado – .

    O governo argumenta que parte dos gastos se refere a outros Poderes, ressalta que teve superávit primário e que foi obrigado a revisar o caixa recebido pela gestão do ex-governador Rodrigo Garcia (sem partido).

    Se for levado em consideração apenas os gastos do Executivo, o valor em caixa caiu R$ 18 bilhões – passando de R$ 47,5 bilhões para R$ 29,5 bilhões, o equivalente a 37,5%.

    O caixa de dinheiro que não vem do Tesouro, ou seja, repasses do governo federal que já vêm carimbados para uma destinação específica, subiu. No entanto, mesmo somando essa verba, o caixa geral de São Paulo caiu de R$ 81,9 bilhões em 2022 para R$ 74,3 bilhões no ano passado.

    Dois anos seguidos de déficit

    O governo arrecadou, em 2025, R$ 372,8 bilhões e gastou R$ 385 bilhões em 2025, um déficit de R$ 12,2 bilhões. É a segunda vez que o estado fica no vermelho desde que Tarcísio assumiu o Palácio dos Bandeirantes – no primeiro ano, o déficit foi de R$ 1,6 bilhão. A venda da Sabesp, companhia de saneamento básico, impediu outro resultado negativo em 2024, quando houve um superávit de R$ 8,2 bilhões.

    O Tribunal de Contas do Estado (TCE) alertou sobre os gastos ao aprovar o relatório do conselheiro Dimas Ramalho sobre contas do governo em 2024. O ex-conselheiro Sidney Beraldo afirmou que o governo deveria tomar medidas “estruturantes” para assegurar um equilíbrio entre a arrecadação e os compromissos de despesas. “Não teremos uma Sabesp por ano para ser privatizada e receber esses recursos adicionais”, afirmou.

    Enquanto o caixa livre caiu, o montante relativo a valores que não são do Tesouro (como repasses e convênios), tidos como próprios, vem subindo na gestão Tarcísio. Passou de R$ 22,3 bilhões em 2022 para R$ 39,4 bilhões.

    De acordo com dados da execução orçamentária, saúde e educação tiveram peso no déficit do ano passado. O orçamento aprovado para a Secretaria da Saúde era de R$ 36,4 bilhões, mas o valor liquidado até o momento foi de R$ 39,2 bi, quase R$ 3 bilhões de diferença. Na educação, o valor inicial era de R$ 32,8 bilhões e o gasto já chega na casa dos R$ 34 bilhões.

    Munição para oposição

    O buraco nas contas já virou munição para o PT contra Tarcísio, que pretende explorar a aparente contradição entre o discurso do governador e a prática no período pré-eleitoral, uma vez que o governador é um crítico habitual dos gastos do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

    No ano passado, por exemplo, o governador afirmou que o governo Lula “gasta muito” e está na “direção errada”.

    “A gente aqui está fazendo o dever de casa. Olha o exemplo que está vindo de lá: governo gastando muito, inflação sobe, taxa de juros sobe, país desacelera, arrecadação cai. E aí qual exercício que tem que ser feito: economizar despesa, cortar custo. E o que estão fazendo: ‘Não, vamos aumentar imposto’”, disse Tarcísio.

    Diante dos números, petistas aproveitaram para dar o troco em Tarcísio.

    “É um governo que fica criticando o governo federal por supostamente gastar muito e ele gasta mais que arrecada consistentemente, produzindo déficits”, disse o deputado estadual Antonio Donato (PT), apontando os déficits do governo e a redução de caixa nos últimos anos.

    A crítica ocorreu em momento que o governo pretende contratar empréstimos no valor de até R$ 15 bilhões para tocar projetos considerados vitrine para o governador, como o programa Superação da Pobreza, espécie de Bolsa Família paulista, a obra do trecho norte do Rodoanel e o Novo Centro Administrativo.

    O que diz o governo

    A Secretaria da Fazenda e Planejamento de São Paulo (Sefaz-SP) afirma que a reportagem utiliza dados que não se restringem ao Poder Executivo, mas incluem também Legislativo, Judiciário e Ministério Público.

    De acordo com a pasta, ao considerar apenas as disponibilidades totais de caixa do governo estadual, os valores seriam de cerca de R$ 23 bilhões em 2022 e R$ 22 bilhões em 2025, o que indicaria estabilidade, e não queda acentuada.

    O recorte apresentado pelo governo refere-se a gastos gerais líquidos do Executivo após a inscrição de restos a pagar não processados no exercício. No entanto, quando se faz o recorte de recursos não vinculados, novamente há queda: R$ 19,5 bilhões, em 2022, contra R$ 5,9 bilhões, no ano passado.

    O governo sustenta ainda que o indicador mais adequado para avaliar a situação fiscal é o resultado primário, adotado pelo Tesouro Nacional.

    “Pelo resultado primário, São Paulo registrou superávits sucessivos acima das metas fixadas em lei: R$ 5,5 bilhões em 2023 (meta: R$ 2,4 bi), R$ 12,9 bilhões em 2024 (meta: R$ 3,9 bi) e R$ 8,5 bilhões em 2025 (meta: R$ 5,7 bi). O superávit de 2024 foi alcançado sem as receitas de privatizações de Sabesp e EMAE, que são classificadas como não-primárias”.

    Os dados apresentados pelo governo se baseiam no resultado primário, que não considera juros da dívida nem receitas extraordinárias, enquanto os números citados na reportagem refletem o impacto final nas contas e na disponibilidade de caixa.

    A secretaria também afirma que houve revisão de dados fiscais de anos anteriores após avanços em transparência e controles contábeis. Segundo a Sefaz-SP, essa reavaliação identificou inconsistências e levou à correção do caixa líquido de 2022, que seria cerca de R$ 13 bilhões menor do que o informado anteriormente.

    A pasta acrescenta que receitas obtidas com privatizações e venda de ativos — como Sabesp e EMAE — têm destinação vinculada a investimentos e, por isso, não entram no cálculo do caixa líquido, embora impactem a situação financeira.

    O governo também cita aumento de despesas obrigatórias, como o piso do magistério e queda em repasses federais para defender que análises isoladas de indicadores podem levar a interpretações distorcidas sobre as contas públicas.