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  • Metáforas: as lentes invisíveis do poder (por Gaudêncio Torquato)

    Metáforas: as lentes invisíveis do poder (por Gaudêncio Torquato)

    Daniel Ferreira/Metrópoles
    Mastro da Bandeira na Praça dos Três Poderes próximo ao Congresso nacional - Metrópoels

    Na política, há duas maneiras de dizer a mesma coisa: pela régua da razão ou pelo pincel da imaginação. A primeira mede; a segunda mobiliza. E, entre medir e mobilizar, vence quem consegue traduzir a aridez dos conceitos em imagens que falem ao coração do eleitor. É nesse território que a metáfora se transforma em ferramenta de poder.

    A política é, por natureza, abstrata. Fala de déficit, soberania, arcabouço fiscal, governança, inflação inercial, pacto federativo. Conceitos que não moram no cotidiano do cidadão comum. O eleitor não toma café da manhã com a Lei de Responsabilidade Fiscal, nem leva para o trabalho a taxa Selic. Mas entende o que significa dizer que “o país está à deriva”, que “o governo perdeu o leme”, que “a economia patina” ou que “a inflação corrói o salário”.

    A metáfora cumpre, assim, uma função pedagógica: simplifica o complexo. Quando se afirma que “o Brasil é um navio em mar revolto”, não se está apenas ornamentando o discurso. Está-se oferecendo ao público uma moldura cognitiva para compreender a instabilidade política e econômica. O governante vira capitão. A oposição, tempestade. O mercado, correnteza. E o eleitor, passageiro — ora apreensivo, ora esperançoso.

    Mais do que explicar, a metáfora orienta. Ela indica culpados e sugere saídas. Ao dizer que “o Estado é um paquiderme lento”, o orador já está insinuando a necessidade de reformas. Ao afirmar que “a corrupção é um câncer”, legitima-se a ideia de extirpação radical. Ao tratar a polarização como “um campo minado”, adverte-se sobre os riscos do confronto. Cada imagem carrega uma agenda implícita.

    Campanhas não se vencem apenas com dados, mas com narrativas. E narrativas são tecidas com metáforas. O “caçador de marajás”, o “pai dos pobres”, a “mãe do PAC”, o “mito”. Cada rótulo condensa uma história inteira em duas ou três palavras. É a economia simbólica do discurso.

    Mas há perigos nesse recurso. Metáforas não apenas iluminam; também ocultam. Ao comparar a política a uma guerra, por exemplo, naturaliza-se o inimigo, a trincheira, o combate sem quartel. O adversário deixa de ser concorrente e passa a ser ameaça existencial. O debate vira batalha; o parlamento, campo de confronto; o voto, munição. E, nesse ambiente, o compromisso soa como rendição.

    George Lakoff, linguista americano, demonstrou que as metáforas estruturam nosso modo de pensar. Quando a política é vista como jogo, aceita-se a trapaça como estratégia. Quando é tratada como mercado, tudo vira negociação. Quando se converte em espetáculo, a performance supera o conteúdo. A escolha da imagem não é inocente: molda percepções e comportamentos.

    No Brasil de 2026, marcado pela radical polarização, as metáforas tendem a se tornar ainda mais bélicas. Fala-se em “tomar o poder”, “resistir ao avanço”, “derrotar o inimigo”, “defender a democracia”. O vocabulário é de quartel. E o risco é que, ao militarizar a linguagem, militarize-se também a prática política.

    Cabe, portanto, ao comunicador público — jornalista, marqueteiro ou líder — usar a metáfora com responsabilidade. Em vez de incendiar, pode-se iluminar. Em vez de dividir, pode-se conectar. A política não precisa ser sempre um ringue; pode ser uma ponte. Não precisa ser um tabuleiro de xadrez; pode ser uma mesa de negociação. Não precisa ser um campo de batalha; pode ser uma arena de consensos.

    A metáfora é inevitável. O desafio é escolher imagens que ampliem a compreensão sem reduzir a complexidade; que inspirem ação sem estimular o ódio; que traduzam a realidade sem deformá-la. Afinal, como ensinava Aristóteles, metáfora é ver o semelhante no dessemelhante. E, na política, ver bem é metade do caminho para governar melhor.

     

    GAUDÊNCIO TORQUATO é escritor, jornalista, professor emérito da ECA-USP e consultor político

  • Após estreia no Globo Repórter, Bonner desabafa: "Medo de fracassar"

    Após estreia no Globo Repórter, Bonner desabafa: "Medo de fracassar"

    Reprodução/TV Globo
    William Bonner

    William Bonnerestreou, na última sexta-feira (20/2) como apresentador do Globo Repórter e usou as redes sociais para comentar o início da nova fase na carreira.

    Após 29 anos à frente do Jornal Nacional, ele deixou a bancada no ano passado e foi substituído por César Tralli.

    O que disse William Bonner

    No texto publicado, Bonner mencionou a participação em uma reportagem especial e definiu o momento como um “feat inesperado”, classificando a experiência como “muito divertida”, apesar do “nervosismo de calouro”.

    Ao falar sobre o novo cenário do programa, destacou o ambiente mais intimista. “A apresentação do Globo Repórter num ambiente acolhedor, como uma sala de estar, me trouxe uma sensação confortante de estar em casa com amigos”, escreveu, citando a parceria com Sandra Annenberg e a proximidade com o público.

    O jornalista também revelou que, desde o início de fevereiro, tem se dedicado à produção de sua primeira grande reportagem para a atração.

    “Medo de fracassar”

    Segundo ele, o trabalho está sendo realizado no Brasil, ouvindo brasileiros, e ainda passará por algumas semanas de gravação antes da edição. “Claro que tenho medo de fracassar, mas espero que não”, declarou, acrescentando que a intenção é entregar um conteúdo “interessante e útil”.

    Bonner relatou que a rotina tem sido mais intensa do que imaginava, com compromissos em diferentes cidades e uma agenda cheia. Ainda assim, definiu o momento como “imensamente prazeroso e instigante” e disse sentir “borboletas no estômago”, o que, segundo ele, provoca “um brilho bem surpreendente pra esse tiozão sexagenário”.

     

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    Um post compartilhado por realwbonner (@realwbonner)

  • PM prende trio por tráfico e apreende munição de uso restrito no Gama

    PM prende trio por tráfico e apreende munição de uso restrito no Gama

    Divulgação/PMDF
    pmdf-desarticula-trafico-gama

    Dois homens e uma mulher foram presos na tarde desse sábado (21/2) por tráfico de drogas e posse ilegal de munição de uso restrito nas proximidades da praça de esportes do Gama (DF).

    A ação foi realizada por equipes da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), com apoio da Polícia Militar de Goiás (PMGO). Durante patrulhamento, os policiais receberam informações sobre uma suposta negociação de entorpecentes na região.

    No local indicado, os três suspeitos — dois homens, de 34 e 24 anos, e uma mulher, de 23 — foram abordados. Com o homem de 34 anos, os militares encontraram uma porção de maconha, que ele teria dispensado no chão.

    Em um Fiat Uno vermelho, estacionado nas proximidades e de propriedade do suspeito, foi localizada uma peça de maconha com aproximadamente 500 gramas.

    Na casa do mesmo autor, com acompanhamento de uma testemunha de 22 anos, os policiais apreenderam:

    Questionado, o homem de 34 anos afirmou que adquiriu os entorpecentes para revendê-los e que pretendia usar o dinheiro para comprar um veículo e trabalhar como motorista por aplicativo.

    Já com o suspeito de 24 anos, foram encontradas cinco porções de cocaína e uma balança de precisão. Ele declarou que comprou a droga na região do Lunabel, em Novo Gama (GO), e que foi ao Gama para negociar o material.

    O trio foi encaminhado à 20ª Delegacia de Polícia (Gama) junto ao veículo e todo o material apreendido, onde foram adotadas as providências legais cabíveis.

  • O drama das famílias de brasileiros que morreram na Ucrânia

    O drama das famílias de brasileiros que morreram na Ucrânia

    Ao menos 23 brasileiros já morreram nos quase quatro anos de conflito. Parentes das vítimas reclamam de falta de informações

  • Chefe do CV é preso enquanto curtia praia em Arraial do Cabo

    Chefe do CV é preso enquanto curtia praia em Arraial do Cabo

    Material cedido ao Metrópoles
    Chefe do CV

    Um homem apontado como líder da facção criminosa Comando Vermelho (CV) na comunidade da Vila Kennedy, Zona Oeste do Rio de Janeiro, foi preso na manhã desse sábado (21/2) enquanto curtia uma praia em Arraial do Cabo, na Região dos Lagos.

    Flávio Bandeira Ribeiro Barbosa teve mandado de prisão preventiva cumprido por policiais disfarçados. A ordem judicial foi expedida pelo Juízo da 1ª Vara Criminal de Bangu. Ele é investigado por associação para o tráfico de drogas.

    De acordo com a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ), a prisão foi resultado de trabalho de inteligência que identificou que o investigado estava na cidade.

    Com base nas informações levantadas, agentes da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) realizaram monitoramento e localizaram o suspeito na areia da praia. A abordagem foi feita no próprio local.

    Após a captura, Flávio foi levado à unidade policial para as formalidades de praxe e, posteriormente, será encaminhado ao sistema prisional, onde ficará à disposição da Justiça.

    A Operação Contenção tem como foco reprimir a atuação de integrantes de organizações criminosas ligadas ao tráfico de drogas e capturar foragidos. As investigações continuam para identificar outros envolvidos e aprofundar a apuração sobre as atividades do grupo na Vila Kennedy.

  • UFC Houston: em noite brasileira, Melquizael Costa nocauteia Dan Ige

    UFC Houston: em noite brasileira, Melquizael Costa nocauteia Dan Ige

    Chris Unger/Zuffa LLC via Getty Images
    melquizael-costa-ufc

    Os atletas brasileiros tiveram uma grande noite no UFC Houston, disputado nesse sábado (21/2). O destaque da noite foi Melquizael Costa, que precisou apenas do primeiro round para nocautear o americano Dan Ige pela categoria peso-pena (66,2 kg).

    Veja o nocaute de Melquizael sobre Ige:

    N O C A U T A Ç O 💥 @MelkCostaCauthy vence MAIS UMA! 🚀

    [ #UFCHouston | Ao vivo somente no @ParamountPlusBR ] pic.twitter.com/ZkcXQwWzka

    — UFC Brasil (@UFCBrasil) February 22, 2026

    Com a vitória, Melquizael está há seis lutas invicto na categoria. Vale lembrar que o nocaute sobre Ige significou a primeira vez que o americano foi “apagado” em 30 lutas profissionais.

    Além de Melquizael, outros dois brasileiros estiveram no octógono em Houston. Após três derrotas consecutivas, Michel Pereira voltou a vencer na categoria peso-médio (até 84,4kg). Ele bateu o americano Zach Reese em decisão dividida dos árbitros (29-28, 28-29 e 29-28).

    Já Carlos Leal realizou a quarta luta no UFC, se impôs sobre Chidi Njokuani e derrotou o adversário por decisão unânime.

    Card Principal:

    Card Preliminar:

  • SC: homem é preso por matar cães a machadadas e enterrar corpos

    SC: homem é preso por matar cães a machadadas e enterrar corpos

    Reprodução/ NSC Total
    Cães foram encontrados enterrados em uma região próxima ao rio Benedito

    Ainda de acordo com a PM, o vizinho filmou o momento em que o idoso, portando um machado, passou a desferir golpes contra um cachorro de porte médio. Em seguida, o suspeito ainda agrediu um segundo animal. Os casos aconteceram por volta das 9h30min na Rua Edmundo Bell, região próximo ao Museu da Música.

    Leia a reprotagem completa em NSC Total, parceiro do Metrópoles. 

  • Mãe publica homenagem no aniversário de Eliza Samudio: "Muito difícil"

    Mãe publica homenagem no aniversário de Eliza Samudio: "Muito difícil"

    Reprodução/Redes sociais.
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    Sonia Moura, mãe de Eliza Samudio, usou as redes sociais neste doming (22/2), para prestar uma homenagem à filha, que completaria 41 anos na mesma data.

    A modelo foi assassinada em 2010. Bruno Fernandes, conhecido como goleiro Bruno, foi condenado por homicídio triplamente qualificado, sequestro e ocultação de cadáver. Inicialmente, recebeu pena de 22 anos de prisão, posteriormente reduzida para 20 anos e 9 meses.

    Homenagem

    Em seu perfil, Sonia compartilhou uma mensagem lembrando a data. “Eliza, minha filha querida, hoje é um dia muito difícil, mas também é um dia de celebração. Você completa 41 anos, e eu não posso deixar de pensar em como a vida seria diferente se você estivesse aqui conosco”, escreveu.

    Na sequência, ela falou sobre a saudade e a dor da perda. “São quase 16 anos que você partiu, e a saudade é imensa. A dor é profunda, mas eu sei que você está em um lugar melhor, onde não há mais ódio, não há mais raiva, não há mais dor.”

    A mãe também ressaltou as características da filha e afirmou que essas lembranças lhe dão forças para seguir em frente. “Hoje, eu quero te dizer que você continua viva em meu coração. Sua memória é uma chama que arde forte, e eu vou continuar a alimentá-la com amor e carinho.”

    Ao final da homenagem, Sonia mencionou o neto, Bruninho. “Eu sei que você está olhando por mim, por Bruninho e por todos que te amam. E eu quero que você saiba que estamos bem, que estamos seguindo em frente e que estamos fazendo o melhor que podemos. Feliz aniversário, Eliza! Você é amada, você é lembrada e você é para sempre em meu coração.”

    Relembre o caso

    De acordo com a denúncia, Bruno não queria pagar pensão ao filho e teria elaborado um plano para matar Eliza Samudio com a ajuda do amigo Luiz Henrique Romão, conhecido como Macarrão, e de Marcos Aparecido dos Santos, chamado de Bola, apontado como o executor. Ambos também foram condenados.

    O corpo de Eliza nunca foi encontrado. Em 28 de janeiro de 2013, foi emitida a certidão de óbito da modelo, que aponta como causa da morte asfixia mecânica com emprego de violência.

    O goleiro permaneceu cerca de sete anos em regime fechado, desde a detenção, em 2010, até ser colocado em liberdade, em 2017.

  • Tabu sobre sexualidade de jovens com autismo pode ser um risco à saúde

    Tabu sobre sexualidade de jovens com autismo pode ser um risco à saúde

    Carol Yepes/ Getty Images
    Ilustração colorida de várias cabeças com engrenagens - Metrópoles

    A sexualidade de adolescentes com transtorno do espectro autista (TEA) ainda é tratada como um tabu. Muitos pais e responsáveis acreditam que falar sobre o assunto poderia incentivar práticas sexuais precoces ou ferir a “inocência” dos filhos. No entanto, um estudo publicado em novembro na revista Ciência & Saúde Coletiva indica que evitar essa conversa pode ser mais prejudicial por abrir espaço para desinformação e riscos à saúde.

    Conduzida pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), a revisão identificou que, apesar de pessoas autistas vivenciarem as transformações hormonais da puberdade da mesma maneira que indivíduos neurotípicos, a forma como essas mudanças são percebidas é diferente.

    O crescimento de pelos, a primeira menstruação e as mudanças na voz podem não ser imediatamente compreendidas, e a falta de leitura das normas sociais faz com que esses adolescentes tenham mais dificuldade para interpretar limites, privacidade e expectativas associadas ao seu corpo e ao dos outros.

    O despreparo para lidar com a sexualidade pode tornar esses jovens mais vulneráveis a infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), gravidez não planejada, violência e até não saber identificar possíveis abusos. Esse risco é particularmente elevado entre aqueles que apresentam maior nível de suporte. Essa classificação é definida pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), da Associação Psiquiátrica Americana (APA), e se baseia no grau de ajuda contínua que o indivíduo autista precisa.

    O nível 1 indica necessidade de baixo suporte, com dificuldades sutis de comunicação social e rigidez comportamental, mas preservando autonomia para estudar ou trabalhar. Já o nível 2 envolve uma demanda moderada, com prejuízos mais evidentes na comunicação e na adaptação a mudanças, exigindo apoio frequente no dia a dia. Por fim, o nível 3 corresponde à necessidade de suporte elevado, quando há grandes limitações na comunicação e na autonomia, tornando indispensável ajuda constante para atividades básicas e segurança.

    “Uma pessoa com grau elevado de suporte pode não conseguir explicar um assédio que sofreu por não saber nomear as partes do seu corpo corretamente ou por não entender o que aconteceu. É importante aprender a nomear as partes do corpo”, orienta a hebiatra Andrea Hercowitz, coordenadora do programa de pós-graduação em Medicina do Adolescente da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein (Fiscae).

    “Dizer, por exemplo, que ‘a borboleta está machucada’ pode não deixar claro o problema para pessoas que estejam conduzindo um atendimento médico”.

    Os desafios da educação sexual não são exclusivos de pais e responsáveis atípicos. Como resultado, muitos desistem de abordar esses temas com os próprios filhos, deixando a cargo do adolescente ir atrás de conhecimento, em conversas com amigos ou buscas na internet, o que os expõem ao risco de informações errôneas e abordagens inadequadas.

    No entanto, muitos jovens com TEA costumam apresentar um padrão social atípico que se manifesta como personalidade tímida e inibida, que os impede de conversar sobre esses assuntos com seus pares. O cenário pode ser mais complexo entre indivíduos com maior nível de suporte, já que demandam explicações diretas e adaptadas às suas necessidades cognitivas, como por meio de desenhos ou músicas.

    Somado a isso, aparece a infantilização. O não reconhecimento do desenvolvimento dos filhos faz com que não sejam oferecidas a eles informações importantes sobre o convívio social. “Muitos responsáveis agem como se, ao virar adulto, o indivíduo já soubesse tudo o que precisa para viver”, aponta Hercowitz. “Mas é importante destacar que, se não há preparação, os jovens ficam suscetíveis e vulneráveis a experiências que talvez nem reconheçam como relacionadas à sexualidade”.

    Conceito de conscientização sobre autismo com fita colorida sobre fundo azul. Vista superior.
    O autismo é um transtorno no desenvolvimento do cérebro que afeta a capacidade de relacionamento com pessoas e o ambiente

    Riscos do silêncio

    A vulnerabilidade é um dos grandes riscos da negligência com a educação sexual. Uma meta-análise de 34 estudos internacionais, publicada em 2023 na revista Trauma, Violence, & Abuse, revela que 40% dos indivíduos com autismo já foram vítimas de abuso ou violência sexual.

    “Infelizmente, boa parte dos casos de abuso sexual na infância ocorre dentro de casa, no ambiente familiar ou com pessoas próximas”, observa a médica Aline Veras Morais Brilhante, especialista em sexualidade humana e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC). “Indivíduos com TEA, sobretudo aqueles com maior necessidade de suporte, ficam mais vulneráveis quando dependem do agressor”.

    Os problemas na comunicação e na compreensão das regras sociais também tendem a tornar crianças e adolescentes autistas vítimas mais visadas por abusadores. As dificuldades de socialização e manutenção de vínculos podem fazer com que não percebam situações de risco ou atitudes tóxicas e criem uma dependência emocional do perpetrador da violência.

    “Vale destacar também que, quando não falamos sobre sexualidade com o jovem, aumentamos o risco de ele próprio se tornar um agressor”, observa Brilhante. “A falta de consciência social pode levar a comportamentos inapropriados, como masturbação em público ou toques sem consentimento”.

    Para além do assédio de terceiros, esse tipo de situação expõe a pessoa com TEA a mais violência, dificultando sua socialização e possivelmente gerando problemas de convivência no ambiente escolar. A longo prazo, tais barreiras ampliam o risco de transtornos de saúde mental, como ansiedade e depressão.

    Diálogo transparente e progressivo

    A melhor maneira de evitar os problemas e riscos derivados de uma educação sexual falha é, justamente, promover o diálogo desde cedo. A orientação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) é de que a sexualidade comece a ser discutida a partir dos 5 anos, em um processo conduzido por familiares, educadores e profissionais de saúde.

    “Ninguém vai falar de relação sexual para uma criança. Nessa idade, o foco da educação sexual está em promover o conhecimento do próprio corpo, ensinando-a a identificar cada parte, como cabeça, nariz, orelhas, mamas, pênis e vagina para que ela possa, então, entender a importância do consentimento para o toque”, frisa Andrea Hercowitz.

    Ensine o pequeno, por exemplo, que as partes íntimas só devem ser acessadas por ele mesmo, pelos pais e responsáveis quando for a hora da higienização e por médicos durante as consultas.

    Também vale orientar sobre a existência da diversidade. “O contato com pessoas de diferentes cores, tipos de corpos, gêneros e sexualidades naturaliza a diferença, e impede que eles cresçam com desconhecimentos e preconceitos”, afirma a hebiatra do Einstein.

    Toda essa conversa pode ser feita de maneira lúdica, com brincadeiras e livros. “Quando falamos de pessoas neurodivergentes, a educação sexual precisa se adequar ao nível de suporte, às dificuldades, ao estilo de aprendizagem e ao perfil sensorial de cada uma”, explica a professora da UFC. Algumas crianças podem entender melhor se a comunicação for feita por meio de desenhos, outras por música ou formas de massinha. “Não existe uma regra geral, é preciso entender como acessar cada indivíduo”.

    Conforme a criança cresce, o diálogo sobre sexualidade também precisa ganhar mais complexidade. Com o início da puberdade, é normal que surjam curiosidades sobre o próprio corpo, já que algumas regiões ganham mais sensibilidade, e que cresça o interesse pelo corpo alheio. Essa é a hora de explicar sobre o funcionamento do sistema reprodutor e genital, como o que fazem ovário, útero, testículos etc. Tanto as garotas quanto os garotos devem participar dessa conversa, de preferência em idades que precedem a primeira menstruação ou ejaculação.

    Passadas todas essas fases, chega a hora de falar de sexo. Como cada adolescente tem uma trajetória única, não existe uma idade certa. Para saber se seu filho pode já estar nessa etapa, pergunte se já beijou, se está se relacionando com alguém e se teve algum tipo de contato íntimo. A partir dessa referência, será possível orientar corretamente sobre sua sexualidade e os cuidados que deve tomar dali em diante.

    Não deixe de alertar sobre métodos preventivos, como o uso de contraceptivos e camisinha, além da importância de fazer testes regularmente. Caso não se sinta seguro para fornecer essas orientações sozinho, marque uma consulta com um médico especialista, que poderá tirar as dúvidas do seu filho. “Não adianta evitar o assunto. Quando chegar o momento, o adolescente vai viver sua sexualidade. Então, é melhor que faça isso com conhecimento e proteção”, pondera Hercowitz. “A educação sexual garante uma vivência da sexualidade mais saudável, respeitosa e prazerosa.”