
Ele não dirige nenhum país, não comanda um exército, não tem cargo eletivo e nem partido político. Mesmo assim, tornou-se no domingo uma espécie de inimigo número um do presidente Donald Trump. Tem 31 anos, nasceu em Porto Rico e já trabalhou como empacotador de supermercado.
O seu nome é Benito Antonio Martinez Ocasio, mas escolheu o apelido artístico de Bad Bunny depois de ser descoberto por um produtor musical. Teve ascensão meteórica na carreira com sua mescla de trap e reggaeton, e seu show no intervalo da final do Super Bowl teve uma plateia global de 135 milhões de pessoas.
“Foi uma afronta à grandeza americana”, escreveu Trump nas redes sociais, ao comentar a apresentação, para ele a pior da história das finais do maior campeonato de futebol americano.
O presidente dos Estados Unidos se sentiu incomodado por não entender uma palavra do que dizia Bunny. Pois o cantor portoriquenho não falou mesmo em inglês. Ele valeu-se apenas da sutileza e da língua espanhola para encantar uma multidão de admiradores e provocar o presidente dos Estados Unidos.
Recomendou aos latinos, como ele, que acreditem em si mesmos. Pediu que lembrem sempre do amor. Trouxe um pouco dos canaviais de sua Porto Rico, uma ilha de 3,2 milhões de habitantes anexada aos Estados Unidos, ao grande estádio da Califórnia. E lembrou que os latinos estão ali para ficar.
“God bless America”, disse Bunny no raro momento em que recorreu à língua inglesa. Ou seja, esclareceu, Argentina, Paraguai, Chile, Uruguai, Brasil… e todos os países desse vasto continente.
Se Trump até então voava em céu de brigadeiro, sem oposição à vista, daquele estádio veio uma resposta. A reação às ações contra os imigrantes, especialmente latinos, já começava a motivar passeatas em diferentes cidades do país, especialmente depois do assassinato de dois manifestantes pela ICE.
O show no intervalo da final do Super Bowl amplificou as vozes dos setores da sociedade norte-americana que já não aceitam tomar por natural um comportamento cada vez mais autoritário, xenófobo e racista de Trump.
Ainda que sutil, a resposta de Bunny conquistou admiração global. Em apenas 15 minutos, ele deu um recado claro de que a oposição à caça aos imigrantes promovida por Washington ainda existe, apesar do quase silêncio das lideranças do Partido Democrata.
Talvez esta seja uma senha para todos aqueles que, em diversas partes do mundo, buscam formas de resistir à ascensão da extrema-direita, sempre acompanhada de um discurso de ódio e de intolerância.
A sociedade pode tomar a iniciativa em tempos de ascensão do autoritarismo e de silêncio no meio político. E a cultura tem um papel importante a cumprir em tempos obscuros. Mesmo que seja por apenas 15 minutos entre os dois tempos de um jogo de futebol.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

Deixe um comentário