Empresa dona de jatinhos vira peça-chave em cerco da Justiça a Vorcaro

Daniel Vorcaro, do Banco Master -- Metrópoles

A trajetória da empresa Viking Participações acompanha a escalada patrimonial meteórica de seu proprietário, o banqueiro Daniel Vorcaro, que está preso desde o início do mês, acusado de corrupção e crime contra o sistema financeiro, e que negocia um acordo delação premiada.

Em menos de dez anos, a Viking saiu de patamar contábil baixo para uma estrutura que movimenta centenas de milhões de reais via capitalização e venda de participações, dona de imóveis de alto luxo e aviões.

Para a Justiça, há indícios de que a empresa seja um instrumento para a blindagem patrimonial de Vorcaro em meio ao colapso do Banco Master, que foi liquidado pelo Banco Central (BC) em novembro do ano passado, em meio ao escândalo de fraude.

Peças judiciais obtidas pelo Metrópoles indicam que a a firma já estava envolvida em negócios suspeitos antes mesmo de Vorcaro adquirir o Banco Máxima (atual Master), em 2019, e pode ter sido usada na capitalização do banco.

Uma decisão judicial da última semana busca impedir que os bens em nome da Viking desapareçam. A pedido do liquidante do Master, o juiz Adler Batista de Oliveira Nobre, da 3ª Vara de Falências de São Paulo, determinou a inclusão de um protesto nos registros de três aeronaves compradas por mais de R$ 250 milhões e de dois apartamentos em um bairro rico de São Paulo.

A ação foi movida com objetivo de preparar o terreno para que os bens sejam revertidos aos credores do banco, que deixou um rombo estimado em R$ 50 bilhões.

“Os indícios apresentados corroboram a tese de que a requerida (Viking Participações Ltda.) possa ter atuado como veículo de interposição para a ocultação de recursos. Destaca-se a documentação que aponta a aquisição de ativos de luxo, como aeronaves e imóveis de alto padrão na capital paulista, formalmente registrados em nome da sociedade ré, mas supostamente vinculados e usufruídos pelo ex-controlador da instituição financeira liquidanda”, afirmou o juiz na liminar.

A reportagem procurou a assessoria de Vorcaro para comentar as decisões judiciais, mas ela afirmou que não comentaria sobre o tema.

Jatinhos de Vorcaro

Da coleção de jatos de Vorcaro em nome da Viking, o mais valioso rastreado é um Gulfstream GV-SP, comprado em junho de 2023 por R$ 120 milhões. Fabricado em 2010, o modelo comporta até 20 pessoas e tem autonomia suficiente para voos intercontinentais, como do Brasil à Europa sem escalas. Documentos mostram que esse avião foi alienado recentemente.

Foto colorida de avião de Vorcaro, dono do Master, apreendido pela PF
Vorcaro se preparava para viajar ao exterior quando foi preso pela PF

O empresário ainda possui um Dassault Falcon 7X, do ano de 2010, adquirido em agosto de 2023 por R$ 116,7 milhões. O jato tem capacidade para até 15 ocupantes, percorre longas distâncias e é utilizado até por forças aéreas — ele ficou conhecido por ser a aeronave na qual Vorcaro tentou deixar o país antes de ser preso pela primeira vez, em novembro do ano passado.

Já a terceira aeronave é um Dassault Falcon 2000, comprado em fevereiro de 2022, por R$ 21,3 milhões, embora seu valor de mercado possa chegar a mais de R$ 40 milhões.

Nessa mesma decisão, o juiz também decidiu incluir ordens de protestos na matrícula de um triplex de mais de 1.000 m² na rua Horácio Lafer, no Itaim Bibi. O apartamento ainda não foi finalizado, mas a Polícia Federal (PF) encontrou troca de e-mails que mostra tentativa de repassar o imóvel no mesmo dia da primeira prisão de Daniel Vorcaro. O liquidante rastreou ainda em nome da Viking um outro apartamento, de 83 m², também no Itaim.

Negócios bárbaros

Antes de ganhar o nome em referência aos exploradores nórdicos que barbarizaram a Europa, a Viking foi criada em 2006 com o nome de Sociedade Educacional Saber LTDA. A quebra de sigilo bancário de Vorcaro mostra como a empresa ascendeu junto com Vorcaro.

Em 2017, de acordo com a quebra de sigilo bancário de Daniel Vorcaro, ele possuía cotas avaliadas em R$ 50 mil na empresa Viking. Em 2024, a empresa tinha capital social de R$ 100 milhões.

Naquele ano, houve movimentações de ao menos R$ 500 milhões na Viking, por meio da venda de R$ 306 milhões em cotas para o fundo Astralo 95 e de R$ 200 milhões em cotas ao fundo Stern. O fundo Astralo 95 registrou bilhões de reais em movimentações suspeitas de Vorcaro, segundo investigações.

A empresa Viking já aparecia em negócios suspeitos muito antes de Vorcaro virar oficialmente dono do Master, em 2021.

Uma ação judicial obtida pelo Metrópoles mostra que a firma esteve envolvida em um acordo para o pagamento de uma dívida do empresário Benjamin Botelho, suspeito de ser operador de Vorcaro.

Segundo a ação movida pelo empresário Yan Hirano contra Botelho e Vorcaro, a Viking pagaria a um fundo R$ 30 milhões, sendo R$ 14 milhões em dinheiro e outros R$ 16 milhões em imóveis que faziam parte do patrimônio do Banco Máxima, comprado por Vorcaro em 2019 e, posteriormente, transformado no Master.

A ação indica o uso de imóveis com valores inflados com o objetivo de maquiar o patrimônio do grupo econômico do banqueiro, incluindo o Banco Master. Antes de chegar ao credor, os imóveis passaram por uma intrincada teia de transações em maio de 2020. Embora cite a Viking, outras empresas foram usadas na transação – os imóveis foram comprados do Banco Máxima por um fundo, que repassou pelo mesmo valor para uma empresa e esta, finalmente, fez o processo de dação dos imóveis por um valor menor a um fundo de Yan Hirano.

“Disso se nota que as transações havidas entre as sociedades de Vorcaro e o fundo de Botelho foram precificadas de modo consideravelmente inflado (pois as dações em pagamento se deram em valor substancialmente inferior); e que as operações entre o banco, o FII e a empresa foram praticamente ‘fictícias’”, diz a ação movida pelo liquidante do Master. “A prática é uma gritante red flag – e, certamente, pode ter sido utilizada para ‘justificar’ ganhos ou investimentos irreais”.

A Viking parece ter continuado a ser usada com esse mesmo tipo de finalidade. Uma ação do liquidante mostra que ela fez parte da engrenagem para a doação de um apartamento milionário a uma mulher identificada como sugar baby — mulher que mantém relacionamento afetivo com homem mais velho em troca de amparo financeiro.

O imóvel fica em um prédio de luxo na Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, também na Vila Nova Conceição, avaliado em R$ 4,3 milhões. Ele foi inicialmente adquirido pela Viking e depois vendido à Super Empreendimentos, de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, que, por sua vez, doou o apartamento à influenciadora Karolina Santos Trainotti — a relação de Vorcaro com ela, porém, não foi confirmada.

Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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