
A dificuldade em distinguir algumas cores pode ter sérias consequências médicas. Um estudo conduzido por pesquisadores da Stanford Medicine, nos Estados Unidos, sugere que pessoas com daltonismo podem ter maior risco de morrer por câncer de bexiga porque podem não perceber um dos principais sinais da doença.
O sintoma mais comum desse tipo de câncer é a presença de sangue na urina. Para muitas pessoas, a mudança de cor funciona como um alerta que leva à procura por atendimento médico. No entanto, quem tem deficiência na visão de cores pode não notar facilmente tons avermelhados, o que pode atrasar o diagnóstico.
Ao analisar registros médicos, os pesquisadores observaram que ao longo de 20 anos em comparação com pessoas com a doença, mas com visão normal.
Segundo Ehsan Rahimy, professor clínico de oftalmologia da Universidade Stanford e autor sênior do estudo publicado na revista Nature Health em 15 de janeiro, o trabalho chama atenção para um fator pouco discutido na prática médica.
“Espero que este estudo aumente a conscientização não apenas entre pacientes com daltonismo, mas também entre os profissionais de saúde que cuidam dessas pessoas”, afirma, em comunicado.
Sintoma passa despercebido
O daltonismo, também chamado de deficiência na visão de cores, é relativamente comum. Estima-se que cerca de um em cada 12 homens e uma em cada 200 mulheres tenham algum grau da condição. As formas mais frequentes dificultam diferenciar tons de vermelho e verde.
Esse tipo de alteração pode afetar tarefas cotidianas, como identificar cores em semáforos ou perceber se um alimento está bem cozido. No contexto da saúde, também pode dificultar a identificação de sinais visuais importantes.
No caso do câncer de bexiga, entre 80% e 90% dos pacientes percebem inicialmente a presença de sangue na urina, muitas vezes sem dor. Quando esse sinal passa despercebido, a doença pode ser diagnosticada apenas em estágios mais avançados.
Estudos anteriores já sugeriam essa possibilidade. Uma pesquisa com cerca de 200 homens com câncer de bexiga indicou que pacientes com deficiência na visão de cores eram diagnosticados com tumores mais avançados e invasivos do que aqueles com visão normal.
Outro experimento mostrou que pessoas sem daltonismo conseguiam identificar corretamente sangue em amostras de urina, saliva ou fezes em 99% dos casos, enquanto participantes com daltonismo acertavam cerca de 70% das vezes.
Resultados do estudo
Para investigar a relação entre daltonismo e câncer com mais profundidade, os pesquisadores utilizaram uma grande base de dados chamada TriNetX, que reúne registros eletrônicos de saúde anonimizados de centenas de milhões de pacientes.
A partir de aproximadamente 100 milhões de prontuários médicos nos Estados Unidos, a equipe identificou 135 pessoas diagnosticadas com daltonismo e câncer de bexiga, além de 187 pacientes com daltonismo e câncer colorretal.
Em seguida, esses grupos foram comparados a pacientes com o mesmo tipo de câncer e características semelhantes, mas sem deficiência na visão de cores.
Os resultados mostraram que, no caso do câncer de bexiga, pacientes com daltonismo tiveram menor probabilidade de sobrevivência ao longo de duas décadas. Já entre pessoas com câncer colorretal, não houve diferença significativa na sobrevida entre os grupos.
Os pesquisadores acreditam que isso pode ocorrer porque o câncer colorretal costuma apresentar vários sintomas iniciais, como dor abdominal ou alterações no funcionamento intestinal. Além disso, há programas amplamente recomendados de rastreamento da doença.
Já o câncer de bexiga frequentemente se manifesta inicialmente apenas pela presença de sangue na urina, o que torna a percepção desse sinal particularmente importante.
Os autores ressaltam que muitas pessoas com daltonismo nunca recebem diagnóstico formal da condição, o que significa que o impacto real desse fator pode ser ainda maior do que o observado no estudo.
Para os pesquisadores, os resultados destacam a importância de ampliar a conscientização sobre o tema. Pessoas com daltonismo podem se beneficiar de exames de rotina e, em alguns casos, de pedir ajuda a familiares ou parceiros para observar possíveis mudanças na cor da urina.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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