Exportações de castanha disparam sob liderança das cooperativas e somam US$ 6,5 milhões em 2 meses

Exportações de castanha disparam sob liderança das cooperativas e somam US$ 6,5 milhões em 2 meses

Por Orlando Sabino26 de março de 2026 – 05h24 5 min de leitura

A castanha-do-brasil volta ao centro da agenda econômica do Acre em 2026, impulsionada não apenas pelo bom momento do mercado externo, mas, sobretudo, pela atuação decisiva das cooperativas agroextrativistas. São essas organizações que estruturam a cadeia, organizam a produção e viabilizam o acesso aos mercados, permitindo que o estado amplie suas exportações e se beneficie da valorização internacional. Nesse contexto, o desempenho recente reforça o papel estratégico do cooperativismo como base da economia da floresta no Acre.

Exportações de castanha disparam em 2026, mas avanço ainda depende de maior beneficiamento e diversificação de mercados

As exportações de castanha do Acre cresceram ao longo do período de 2020 a 2025, embora com oscilações. O valor total passou de cerca de US$ 3,6 milhões em 2020 para US$ 12,4 milhões em 2025, com maior equilíbrio entre castanha com e sem casca em 2021 e 2024. Em outros anos, predominou a exportação do produto in natura.

 

O destaque é 2026: apenas nos dois primeiros meses, o Acre já exportou cerca de US$ 6,5 milhões — mais da metade de 2025 e acima de todo o resultado de 2023. O início do ano projeta novo recorde.

Apesar disso, o perfil preocupa: cerca de 97% das exportações concentram-se na castanha com casca, indicando baixa agregação de valor. A geografia do comércio reforça essa diferença: a castanha com casca destina-se quase exclusivamente a Peru (90,5%) e Bolívia (9,4%), enquanto a sem casca alcança mercados mais diversificados e exigentes, liderados pelos Estados Unidos (54,9%), além de Europa, Ásia e Oriente Médio.

Preços da castanha exportada pelo Acre disparam em 2026 e atingem os maiores níveis no início do ano, desde 2020

A evolução dos preços médios de exportação revela queda até 2023 e forte recuperação a partir de 2024. A castanha com casca saiu de US$ 0,77/kg em 2023 para US$ 2,91/kg em 2026 — o maior valor da série.

A castanha sem casca, por sua vez, mantém preços mais elevados e atinge recorde em 2026, com US$ 14,30/kg. Em síntese, há um movimento recente de valorização consistente, favorecendo tanto o produto in natura quanto, de forma mais intensa, o beneficiado.

Preço internacional da castanha supera em mais de três vezes o valor pago ao extrativista e evidencia desafio de ampliar ganhos na base produtiva

A comparação entre o preço médio da castanha exportada pelo Acre em 2026 e o valor pago ao coletor revela diferenças importantes ao longo da cadeia produtiva. Nos meses de janeiro e fevereiro de 2026, o preço médio da castanha com casca exportada atingiu cerca de US$ 2,91 por kg, refletindo um cenário de forte valorização no mercado internacional.

Já no nível da produção, conforme dados da Cooperativa Agroextrativista de Xapuri, o coletor associado recebeu, na safra 2025/2026, o equivalente a aproximadamente US$ 0,90 por kg, considerando o preço médio de R$ 85 por lata de 18 kg e a cotação do dólar de R$ 5,25. Isso significa que o preço de exportação foi mais de três vezes superior ao valor pago ao produtor.

Essa diferença não representa apenas margem, mas reflete os custos e etapas intermediárias da cadeia, como logística, beneficiamento, padronização, armazenamento, transporte e comercialização internacional. Ainda assim, o dado evidencia que há espaço para ampliar a captura de valor na origem, especialmente por meio do fortalecimento do cooperativismo, da industrialização e da inserção direta em mercados externos.

Em síntese, o bom momento dos preços internacionais em 2026 abre uma janela de oportunidade para elevar a renda dos extrativistas, desde que haja avanço na organização produtiva e na agregação de valor — pontos centrais para consolidar o modelo do novo cooperativismo agroextrativista no Acre.

Alta das exportações de castanha em 2026 reforça o papel estratégico das cooperativas, mas evidencia desafio de ampliar a agregação de valor no Acre

O desempenho das exportações no início de 2026 reafirma o novo cooperativismo agroextrativista como eixo central da economia da floresta no Acre. São as cooperativas que estruturam a cadeia, organizam a produção, garantem escala e conectam os extrativistas aos mercados, permitindo que o estado aproveite momentos favoráveis de preços e demanda internacional.

No entanto, a comparação entre o preço de exportação — cerca de US$ 2,91/kg — e o valor pago ao coletor — em torno de US$ 0,90/kg — evidencia que a maior parte do valor ainda é apropriada fora da base produtiva. Embora essa diferença incorpore custos logísticos, industriais e comerciais, ela também revela espaço para ampliar a renda dos extrativistas por meio do fortalecimento das cooperativas.

Nesse contexto, o desafio estratégico do cooperativismo não é apenas ampliar volume, mas avançar na agregação de valor, especialmente com o beneficiamento da castanha e maior inserção direta em mercados exigentes. Quanto mais organizada e integrada for a atuação cooperativa, maior tende a ser a participação do produtor no valor final da cadeia.

Assim, o ciclo de alta das exportações em 2026 reforça uma agenda clara: consolidar o cooperativismo como instrumento de desenvolvimento, elevando não apenas as exportações, mas, sobretudo, a renda de quem está na base da floresta.

Orlando Sabino escreve às quintas-feiras no ac24horas

Orlando Sabino

Orlando Sabino

Economista formado pela Universidade Federal do Acre (UFAC, 1979). Possui mestrado em Economia pela UFMG (1995) e doutorado em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela UFMG (2016), professor aposentado do curso de economia da UFAC (1980/2016), escreve sobre conjuntura econômica e social do Acre.

osabinodacostafilho@gmail.com

Fonte: Conteúdo republicado de ac24horas

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *