
Após ser confundido com um dos suspeitos investigados por um estupro coletivo ocorrido em 31 de janeiro, em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro, João Gabriel Bertho (foto em destaque), de 21 anos, relatou à coluna o impacto devastador das acusações falsas que circularam nas redes sociais. Segundo ele, além das ofensas e da exposição pública, passou a receber ameaças diretas, inclusive de integrantes de facções criminosas.
“Disseram que eu não podia mais pisar em determinadas áreas do Rio, que iam me procurar”, contou. Desde então, o jovem afirma viver com medo e diz que sua rotina foi completamente alterada após ter o nome associado a um crime que, segundo ele, nunca cometeu.
O jovem teve o perfil no Instagram invadido por “justiceiros” virtuais após a divulgação dos nomes dos suspeitos do crime sexual. A confusão ocorreu por causa da semelhança entre as identidades: João Gabriel Xavier Bertho, de 19 anos, é o investigado, enquanto João Gabriel Bertho, de 21, não tem qualquer relação com o caso.
Com nome semelhante ao do suspeito, ele passou a receber ameaças, xingamentos e até tentativas de golpe contra familiares.
Segundo relato, tudo começou no último domingo (1º/3), quando ele estava na academia com a namorada e recebeu de um amigo uma reportagem sobre o caso. O colega teria brincado com a coincidência de nomes. “Na hora eu não me preocupei, porque dava para ver pela foto que não era eu”, contou. Ele chegou a avisar a mãe para evitar qualquer mal-entendido.
No entanto, cerca de 30 minutos depois, a situação saiu do controle. O perfil de João Gabriel no Instagram passou a ser compartilhado em grupos de WhatsApp, com mensagens sinalizando que ele seria o responsável pelo crime.
“Começaram a mandar meu Instagram como se fosse o do outro. Vieram muitas mensagens de ódio, me chamando de animal, perguntando como eu pude fazer isso”, relatou.
A situação se agravou ainda mais quando o CPF, número de telefone e endereço antigo de João passaram a circular. Em posse dos dados, criminosos teriam tentado aplicar golpes contra familiares, pedindo dinheiro em troca de “limpar o nome” dele nas áreas em que supostamente ele estaria proibido de frequentar.
Desespero
A família do jovem se assustou com a situação e resolveu acionar as autoridades. No mesmo dia, João procurou a 12ª Delegacia de Polícia (Copacabana) para denunciar o linchamento. Apesar disso, por não ter ligação com o crime, ele teria sido informado que não seria possível registrar boletim de ocorrência naquele momento, mas apenas formalizar o esclarecimento sobre o erro de identificação.
“No dia do vazamento do meu Instagram, eu fiquei preocupado, tentei não sair de casa, fiquei na casa da minha namorada para a gente tentar amenizar a situação. No dia seguinte já fiquei um pouco mais tranquilo porque postei o vídeo esclarecendo e teve uma repercussão que eu não esperava”, contou.
Responsável por administrar as redes sociais do filho, a mãe de João foi quem recebeu e leu todas as mensagens. De acordo com ele, ela ficou muito preocupada com as ameaças e passou a ter, inclusive, dificuldade para dormir.
“Minha mãe vai ficar um pouco afastada da rede social hoje. Eu sempre fui mais afastado, mas é para ela se acalmar. Ela está muito nervosa, não está conseguindo dormir direito.”
Medidas judiciais
Davi Vinícius, do Nicolau & Chagas de Souza Advogados, que representa a defesa do jovem, afirmou que já está notificando páginas e perfis que divulgaram o nome incorreto, solicitando retratação e correção das informações.
Segundo ele, a vinculação indevida pode gerar responsabilização cível por danos morais, além de eventual enquadramento criminal por calúnia, difamação e ameaça.
O defensor destacou ainda que “a internet não é terra sem lei” e que a liberdade de expressão não autoriza a divulgação irresponsável de informações que prejudiquem terceiros. “Estamos diante de um erro de identificação. Ele também é vítima”, afirmou.
Apesar do medo inicial, o jovem diz que se sente mais tranquilo após a repercussão dos vídeos em que esclarece a confusão.
João Gabriel ainda fez questão de destacar que repudia o crime investigado e manifestou solidariedade às vítimas de violência sexual. “É um dos piores crimes possíveis. Muitas mulheres têm medo de denunciar. É importante buscar ajuda e deixar a Justiça agir”, declarou.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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