
Pesquisa Datafolha divulgada neste sábado (7/3) pela Folha aponta um empate técnico no segundo turno entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) e entre o petista e Ratinho Jr. (PSD) se a eleição fosse hoje: 46% a 43% na primeira hipótese e 45% a 41% na segunda. Nota: o governador do Paraná teria de passar pelo filtro do primeiro turno, o que hoje não se afigura possível. Foram ouvidas presencialmente 2.004 pessoas entre os dias 3 e 5 deste mês, com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos.
Também com Tarcísio de Freitas (Republicanos), o resultado fica na margem — 45% a 42% para o petista —, mas o governador de São Paulo não vai disputar a Presidência. O dado mais importante da pesquisa: não há chance de outro nome substituir o dito “Zero Um”: com qual argumento? De saída, note-se: os números remetem a evidências que eu diria estruturais — e que expõem alguns erros clamorosos de analistas e autoenganos perigosos de políticos — e a outras que são conjunturais. Lembre-se: a conjuntura que concorre para plasmar conceitos e que dura no tempo vira estrutura. Tratarei neste primeiro texto sobre a pesquisa das questões estruturais. Vamos ver.
A primeira evidência estrutural
No dia 7 de julho do ano passado, escrevi um texto no UOL intitulado O ‘Projeto Tarcísio’ traduz a ambição de ter um bolsonarismo sem Bolsonaro. Sustentei ali, contra tudo que parecia ser óbvio e contra um verdadeiro aluvião analítico tarcisista que o candidato de Jair seria alguém que carregasse seu sobrenome. Sintetizei:
“Não quero chocar ninguém, mas o fato é que, havendo um Lula eventualmente vitorioso contra um Bolsonaro qualquer, o clã seguirá liderando a oposição. No caso do triunfo de Tarcísio contra o petista, o capitão seria apenas o segundo em Roma. Depois de algum tempo, isso valeria muito menos do que ser o primeiro numa vila”.
No dia 4 de novembro, Eduardo Bolsonaro afirmou no podcast “Market Makers”: “Quem vai ser o candidato [de Bolsonaro], eu não sei, mas eu também vejo vitória na derrota (…) Ainda que viesse a perder, nós conseguiríamos manter acesa a chama do conservadorismo.”
Sobre a candidatura de Tarcísio, ponderou o autoexilado, alimentando o discurso antissistema:
“De fato, existe o projeto do establishment, que quer enterrar o Bolsonaro e o bolsonarismo, para colocar adiante um candidato que seja pintado de direita (…) Qual é o secretário conservador, qual é o secretário bolsonarista do governador Tarcísio de Freitas? O Tarcísio sendo eleito, isso seria uma vitória da direita? Não. Isso daí é visto com bons olhos pelo pessoal da Faria Lima por causa da gestão do Tarcísio (…)”
Convenham: Eduardo vendeu o que não pode entregar sobre o tratamento que Trump dispensaria ao Brasil e chamou para si a responsabilidade do tarifaço e da punição a ministros do Supremo, o que trouxe, sim, contratempos para o seu grupo e deu a Lula a oportunidade de fazer o óbvio: falar em nome da soberania. Mas é sempre errado apostar na sua burrice, não?
Sua estratégia manteve a sucessão da extrema direita ao menos nas mãos da família — se vai levar também a presidencial, isso é o que se vai ver. Onde muitos viram a sua derrota, vi a sua vitória. E ninguém tem o direito de duvidar de que abomino os valores que essa gente encarna. Mas não costumo chamar de idiotas aqueles de quem discordo simplesmente por discordar deles. Ele venceu a parada ao não entregar o bastão do reacionarismo a Tarcísio para que este o usasse em benefício da própria glória.
Quando escrevi o texto de 7 de julho, amigos me mandaram mensagens: “Tá maluco? Tem acompanhado as andanças de Tarcísio pela Faria Lima?” Respondi assim a uma delas:
“Pior para ele. Se preciso, o bolsonarismo que pensa, ainda que coisas vis, cola esse pessoal a Fernando Haddad. A turma da Faria Lima serve para governar, não para fazer campanha”.
A segunda evidência estrutural
Nunca achei, pois, que Tarcísio seria o candidato de Bolsonaro. E, como costumo dizer e afirmei no aludido texto de julho, quem me contou isso foi Mary Shelley em Frankenstein: criaturas são toleradas pelo criador, mas não para tomar o seu lugar ou para disputar os seus espaços. Não por acaso, citei em meu primeiro texto neste Metrópoles a peça Júlio César. Na história e no drama shakespeariano, César estava embevecido demais com a própria obra para perceber uma conspiração. Que se saiba, Bolsonaro só leu até hoje a autobiografia do torturador Brilhante Ustra, mas há outros mais versados a seu redor. Eduardo, por exemplo, está muito longe de ser uma anta nas péssimas ideias que prodigaliza. Assim, vamos para o segundo engano no qual, bem…, nunca incidi.
Sempre considerei uma tolice — já escrevi e deixei registrado em dezenas de vídeos — a suposição de que vencer Flávio no segundo turno seria como “Ver o Sol amanhecer/ E ver a vida acontecer/ Como um dia de domingo”. Não! Isso é música da dupla de craques Sullivan e Massadas nas vozes de Gal e Tim. Inexiste candidato fácil com nome “Bolsonaro”. Até o Jair Renan poderia dar algum trabalho. O fato de eu achar que isso expressa parte considerável dos erros cometidos pelas elites políticas brasileiras — de todos os matizes, note-se — e pode implicar um desastre civilizacional não me leva a negar a realidade. Qualquer um que contasse com a anuência do ex-presidente seria necessariamente competitivo.
Não se pode contar hoje a história que não houve nem um dia a que não haverá. Há as conjecturas. Alinho-me entre aqueles, e voltarei ao ponto em outros textos, que consideram que Tarcísio poderia ser, sim, um nome mais difícil de Lula roer — na hipótese de não ser roído pelo adversário: galvanizaria do mesmo modo o antipetismo; teria não apenas trânsito, mas o apoio explícito (ainda que meio envergonhado), da mídia; criaria ondas de entusiasmo no empresariado que acabariam ganhando tração popular e teria um ativo (ou passivo…) de explicações a dar muito menor do que o de Flávio: rachadinha, Fabrício Queiroz, Adriano da Nóbrega, a incrível loja de chocolates; o controle que ele (o senador) efetivamente tem da “insegurança pública” do Rio…
Mas daí a considerar que se devora Flávio com a facilidade com que se consome uma caixa de “Língua de Gato” da Kopenhagen, bem, vai uma grande diferença.
Este texto tratou de enganos, desenganos e incompreensões que chamei “estruturais”. Há as questões de conjuntura. Elas também não sorriem para os progressistas. Você, a exemplo deste escriba, não gostaria de ver a extrema direita de volta ao poder? Então as notícias não são boas para nós. Na verdade, são péssimas.
De toda sorte, reconhecer o problema é sempre o primeiro passo para buscar a resposta adequada. Já se errou bastante até aqui.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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