
A fraude contábil bilionária na Americanas, considerada o maior escândalo da história do varejo brasileiro e que completa três anos neste mês de janeiro, foi arquitetada e liderada por Miguel Gutierrez, ex-CEO da companhia, segundo a conclusão da Superintendência de Processos Sancionadores da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
. Entre eles, estão diretores, gestores e colaboradores de diferentes áreas da Americanas.
Segundo a CVM, os envolvidos teriam atuado sem o conhecimento do Conselho de Administração ou dos comitês da empresa. A informação foi publicada inicialmente pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo.
As conclusões da CVM corroboram as investigações sobre o caso conduzidas pelo Ministério Público Federal (MPF). Em outubro do ano passado, o ex-diretor da Americanas Márcio Cruz Meirelles, que fechou um acordo de delação premiada com o MPF, afirmou em seu depoimento que Gutierrez tinha a “palavra final” para determinar as manipulações e fraudes reveladas naquele que é considerado o maior escândalo da história do varejo brasileiro.
O conteúdo das declarações do ex-diretor foi incluído na denúncia apresentada pelo órgão em março de 2025, na qual foram mencionados outros 12 ex-executivos e ex-funcionários da Americanas. De acordo com o MPF, o grupo teria sido responsável por fraudes estimadas em pelo menos R$ 22,8 bilhões.
A delação do ex-diretor da Americanas foi dividida em quatro anexos, com dados sobre sua relação patrimonial, seu histórico na varejista, a pressão por resultados na companhia e seu primeiro contato com as fraudes contábeis.
Até então, haviam sido firmadas três delações no caso Americanas, pelos ex-executivos Marcelo Nunes, Flávia Carneiro e Fabio Abrate.
O novo delator afirmou aos investigadores que o líder do esquema de fraudes na Americanas era o próprio Gutierrez, com participação de Anna Saicali, ex-CEO da B2W (braço de comércio eletrônico da empresa).
O que diz a CVM
O processo de apuração do escândalo da Americanas na Superintendência de Processos Sancionadores da CVM terminou no fim do ano passado. A recomendação técnica do órgão foi a de instauração de um processo para a punição dos envolvidos e para que toda a investigação seja encaminhada ao MPF, que já vem apurando o caso.
Os acusados pelas supostas irregularidades foram citados para a etapa de defesa no processo. Em tese, eles poderão propor termos de compromissos, buscando acordos para encerrar o caso. Apenas após a conclusão dessa etapa, o colegiado da CVM deve julgar o processo.
“Deixar de punir a companhia seria gritarem alto brado aos administradores de todas as outras companhias que basta atribuir a diretores não estatutários a responsabilidade pelas assinaturas para eximir-se de qualquer responsabilidade”, diz o documento da CVM.
Segundo o órgão, “não punir a companhia seria o mesmo que ensinar a todo o mercado o caminho para nunca mais ser punido”.
“Ademais, as vítimas foram os acionistas, debenturistas e outros detentores de valores mobiliários. Os representantes legais da companhia eram os seus diretores estatutários e a fraude foi cometida por vários deles, no exercício de suas funções estatutárias. Dessa forma, não cabe à companhia buscar eximir-se de suas responsabilidades”, aponta a CVM.
Entre os então diretores estatutários da Americanas, além de Gutierrez, aparecem Anna Saicali, José Timóteo de Barros, Márcio Cruz Meirelles e Fábio Abrate – que, de acordo com os investigadores, teriam integrado o núcleo principal que articulou a fraude.
“(Gutierrez) Deve ser responsabilizado por ter, por pelo menos uma década, comandado o esquema de manipulação de preços no mercado de valores mobiliários que se instalou em Americanas, perpetrado por meio de fraudes incrementais e continuadas, com emissões de valores mobiliários cujas ofertas baseavam-se em informações falsas, conduta esta agravada pelo fato de ter sido diretor-presidente, membro do Conselho de Administração e membro e presidente do Conselho de Administração de B2W, conselhos nos quais votou pela aprovação e encaminhamento, à Assembleia Geral de Acionistas, de Demonstrações Financeiras que sabia fraudadas, além de responsável por sua publicação”, afirma a CVM.
Escândalo na Americanas
No dia 11 de janeiro de 2023, a Americanas informou ao mercado que havia detectado “inconsistências contábeis” em seus balanços corporativos. Até então, o rombo era estimado em cerca de R$ 20 bilhões. Era o início do desmoronamento de uma das companhias mais tradicionais do país.
O episódio, hoje apontado como o maior escândalo corporativo da história do Brasil, deflagrou uma série de acontecimentos que levaram a Americanas à lona. Três anos depois, a varejista ainda está longe de uma recuperação total.
Em abril de 2025, o MPF denunciou 13 ex-executivos e ex-funcionários da Americanas por supostas fraudes na companhia, cujo prejuízo é estimado em cerca de R$ 25 bilhões. A decisão foi tomada após a Polícia Federal (PF) indiciar os envolvidos.
Entre os denunciados pelo MPF, estão o ex-CEO da Americanas Miguel Gutierrez, além de Anna Saicali (ex-CEO da B2W) e dos ex-vice-presidentes Thimoteo Barros e Marcio Cruz.
Também fazem parte da lista os ex-diretores Carlos Padilha, João Guerra, Murilo Correa, Maria Christina Nascimento, Fabien Picavet, Raoni Fabiano, Luiz Augusto Saraiva Henriques, Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira e Anna Christina da Silva Sotero.
Todos eles foram denunciados pelos crimes de associação criminosa, falsidade ideológica e manipulação de mercado. Nove pessoas também foram denunciadas por informação privilegiada.
Os três acionistas de referência da empresa – além de Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira – não foram denunciados.
Fonte: Conteúdo republicado de metropolis

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